Editorial

Dever de sonhar

Is all that we see or seem but a dream within a dream? Edgar Alan Poe

Eu tenho uma espécie de dever, dever de sonhar, de sonhar sempre,
pois sendo mais do que um espectáculo de mim mesmo,
eu tenho que ter o melhor espectáculo que posso.
E, assim, me construo a ouro e sedas, em salas
supostas, invento palco, cenário para viver o meu sonho
entre luzes brandas e músicas invisíveis.


                                                                         Fernando Pessoa

Um sistema de som é um cenário, é inventar um palco para viver um sonho entre luzes brandas e músicas invisíveis.


O cartaz pode contar com os melhores actores, pagos a peso de ouro, cada um desempenhando na perfeição o seu papel, sob a luz viva dos holofotes. E no entanto, na plateia o público, que ouve com atenção o discurso e o canto, não se emociona, porque as palavras são apenas significantes sem significado; sons sem conteúdo, corpo e textura, aos quais faltam as cores da vida: o vermelho da paixão, o azul da tristeza, o verde da inveja e do ciúme, o amarelo do fel e do ódio.

Monocromático e monocórdico, o som ouve-se mas não se sente

Monocromático e monocórdico, o som ouve-se mas não se sente

Monocromático e monocórdico, o som ouve-se mas não se sente porque não tem nem sentido nem sentimento. O actor não vive supostamente o que canta e o público não sofre com a sua dor, não experimenta a alegria ou a crispação da sua raiva. Ouvir música sem o objectivo da catarse individual ou colectiva, é uma pura perda de tempo. E eu tenho o dever de assistir ao melhor espectáculo que posso.

Restabelecido o cromatismo tonal, podemos finalmente viver o sonho

Restabelecido o cromatismo tonal, podemos finalmente viver o sonho

No palco, as marcações das colunas de som são milimétricas: cada pequeno passo é um salto de gigante na profundidade geométrica e emocional. A desejada empatia com a suposta sala de espectáculos constrói-se com engenho e arte, paciência e sensibilidade, se bem que à custa de cabos de ouro e amplificadores de seda.


Restabelecido o cromatismo tonal, podemos finalmente viver o sonho, sem o hiper-realismo da definição excessiva que é hoje possível na fotografia e na música, porque os contornos da vida são fluidos, e as imagens e os sons que a tentam imitar têm o dever de escorrer-nos por entre os dedos como mel, não se deixando limitar pelo traço frio e preciso dos bits.  

Viver o sonho, sem o hiper-realismo da definição excessiva que é hoje possível na fotografia e na música

Viver o sonho, sem o hiper-realismo da definição excessiva que é hoje possível na fotografia e na música

Luís Campos é um cenógrafo do som. E conseguiu levar à cena no teatro dos sonhos a melhor actuação de sempre das Alexia. De Chavela Chaves a Camané; de Caetano Veloso e Gadu a Maria Callas; de Liszt a Rutter, tudo soou perfeito e natural.


Tanto assim que foi a única das 3 peças da Wilson Audio actualmente em exibição na Imacustica/Lisboa a que assisti, por ter sentido uma espécie de dever de assistir ao espectáculo de mim mesmo.

Nota:


As imagens e os sons (registados in loco) aqui apresentados são uma tentativa de ilustrar com arte as sensações contraditórias de perplexidade e de suave prazer expressas no texto que o mesmo sistema pode proporcionar em condições diferentes de audição. Para que o leitor não deixe de sonhar, de sonhar sempre...

Is all that we see or seem but a dream within a dream? Edgar Alan Poe

Monocromático e monocórdico, o som ouve-se mas não se sente

Restabelecido o cromatismo tonal, podemos finalmente viver o sonho

Viver o sonho, sem o hiper-realismo da definição excessiva que é hoje possível na fotografia e na música