2008

Pass(e) De Mágica




Monitor Audio Platinum PL100


 
Esta experiência prova como a crítica áudio é um exercício de relatividade: as coisas são o que são num determinado contexto. As sinergias colectivas são tão ou mais importantes que as energias individuais. No teste das PL100, que os leitores podem ler na integra abrindo a respectiva pasta nos Arquivos Relacionados, escrevi o seguinte:


“Actualmente, quanto mais oiço um equipamento qualquer, menos me atrevo a escrever sobre ele: aquilo que me parecia linear, literalmente, numa primeira audição ingénua, acaba por se revelar complexo e difícil de definir a longo prazo. É preciso viver algum tempo com pessoas e objectos para aprender a apreciar o seu verdadeiro valor.”


Palavras cautelosas e sábias estas. De facto, na era da “fast-critic”, a fronteira entre uma avaliação e um palpite é cada vez mais ténue. Com alguma experiência, é possível avaliar o carácter de uma coluna numa audição rápida: o carácter da colunas, tal como o das pessoas, não muda com a circunstâncias. Assim o que escrevi no teste não se alterou substancialmente:


“As Platinum foram afinadas em câmara anecóica. Uma resposta muito linear pode soar algo agressiva na vida real. A quem atribuir a culpa: à sala (reflexos secundários), aos discos (já vimos porquê) ou aos nossos ouvidos, que são particularmente sensíveis nas frequências centrais da voz feminina (da mãe)? É só escolher. Não é por acaso que muitos fabricantes (a Sonus Faber da era Serblin, por exemplo) preferem deixar uma ligeira depressão nesta zona do espectro: mede mal, soa bem.”


Contudo, há situações em que as colunas, ibidem as pessoas, se podem sentir mais ou menos felizes consoante a companhia. No teste deixei no ar essa possibilidade:


 




Para reproduzir o som do ar nada melhor que uma membrana que pouco mais pesa que o dito. Essa insustentável leveza confere às Platinum uma característica especial: o palco transparente e amplo, assim, digamos, cheio de...ar puro. As imagens são, contudo, sólidas, tangíveis e muito estáveis. A mesma janela que deixa entrar a luz sem cortinas ou persianas torna-as exigentes em termos de fontes. E de cabos. E, já agora, de amplificadores: as PL100 nasceram para serem cortejadas pelas EL34 ou pela simplicidade do andar de saída dos Pass de baixa potência, que em boa hora regressaram ao seio da família Delaudio.”


Em boa verdade, não se pode afirmar que o Pass INT-150 é um amplificador de baixa potência: trata-se de um integrado de Classe A/B, de 150W/c/8ohm, no papel, que no terreno demonstrou possuir uma notável saúde acústica e potência disponível q.b. face às exigências a que o submeti. Mas a potência, embora importante em casos específicos de colunas com necessidades energéticas particulares, não é tudo. Nelson Pass considera que a simetria do circuito, a baixa distorção e a neutralidade são fundamentais. Aliás, Nelson Pass vai mais longe ao defender que o segredo de um bom amplificador está no “first watt”, os outros vêm por acréscimo. E se utilizarmos colunas (cornetas) de alta sensibilidade que os dispensem tanto melhor.


Claro que no mundo real, a potência conta – e muito. Por isso a Pass Labs tem modelos de elevada potência, como o X-1000. A principal vantagem dos Pass reside no facto de todos os modelos, independentemente da potência e modo de funcionamento, serem concebidos segundo a mesma filosofia técnica: quanto mais simples, melhor.


Lembram-se dos Aleph (single ended)? Ainda hoje tenho na memória o gostinho especial do som daqueles adoráveis “ouriços cúbicos”. Mas o mundo real não se compadece com idealismos e os novos Pass da série X respondem melhor às exigências do mercado: na forma e no conteúdo. Ao consumidor cabe escolher entre os modelos XA (de Classe A) ou X (Classe A/B), consoante as suas necessidades acústicas e disponibilidades financeiras. Com uma certeza: qualquer que seja a Classe, a classe dos Pass é sempre ao nível do estado da arte.


PASS LABS INT-150  


Sólido. Massivo. E ao mesmo tempo elegante e refinado. É curioso como corpo e alma se confundem aqui. Esta descrição aplica-se assim tanto à estética como ao som. O painel frontal em alumínio sólido tem 16mm de espessura. E os dissipadores laterais, montados num ângulo de 45º, conferem-lhe ferocidade e leveza.


Lembram as asas de uma nave futurista. Os botões, cuja função específica (duplicada no controlo remoto de metal) se ilumina de azul na janela discreta do mostrador, são todos de tamanho igual e estão encastrados numa fenda a toda a largura, apenas interrompida pelo enorme botão de volume. A regulação faz-se por passos de 1dB numa gama máxima de atenuação de 63dB. O prévio é, portanto, basicamente passivo comme il faut, e todo o ganho está a cargo do amplificador de potência, cujo miolo é o do X150.5.


Atrás entradas e saídas balanceadas. E uns bornes minorcas difíceis de apertar à mão.


O INT-150 funciona em Classe A/B. Push-pull, portanto. Push no meio ciclo positivo da onda; pull no negativo. Mas aquece como um amplificador de Classe A. O segredo está no bias, a corrente quiescente de polarização. Nelson Pass, the man himself, explica tudo num excelente artigo que pode ler nos Media: “Leaving Class A”.


Com as sensíveis PL100, em regime de audição prazenteira, o INT-150 é na prática um amplificador de Classe A (16W), ou fortemente polarizado em Classe A. Talvez por isso, soe muito melhor com estas que com as Martin Logan Spire, cujo painel exige mais seiva à medida que se sobe no espectro.


Voltemos, pois, ao teste das PL-100:


“Após a minha relutância inicial em aceitar esta luminosidade como natural, Delfim Yanez propôs-me uma fonte Esoteric X-05 e cabos Black Sixteen. Um sinal puro e um cabo neutro são sempre um bom têmpero. Tudo passou a saber melhor ao meu palato exigente. É certo que continuou presente um ligeiro up-tilting, um toque de pimenta-verde, que, se é verdade que torna todas as audições excitantes, faz tudo soar também mais vivo e presente do que na vida real. Admito que com certos discos a “vivacidade” pode raiar a “metalização”, mas a natureza do transdutor de altas frequências nunca permitiu que evoluísse para dureza ou agressividade”.


Por uma questão de coerência, mantive a mesma fonte e cabos. Mas agora com a participação do INT-150, as poucas críticas que tinha apontado às PL-100 deixaram de fazer sentido: o “toque de pimenta-verde” foi substituído por especiarias menos agressivas como a canela e a baunilha. E a metalização desapareceu por completo.


Passe de mágica?


 


Admito que as PL100, à medida que rodaram puxadas sem remorsos pelo Krell Evo 300, foram exibindo uma postura diferente face às adversidades: mais calmas, mais coesas, com mais substância harmónica. Mas a excelência do agudo do INT-150 foi o ás que faltava à sequência de cor. Com uma mão destas, tal como no póquer, só há uma decisão possível: all-in. E foi o que fiz com a minha colecção de SACD e CD.


O INT 150, tal como todos os Pass, é neutro, não no sentido de indiferente aos males do mundo e da música, mas porque possui a rara qualidade da transparência na zona de transição entre graves e médios, uma terra-de-ninguém onde os pouco que ali se atrevem têm tendência para a obesidade mórbida. Acontece muito com as válvulas. É certo que o pessoal gosta porque compensa a tendência contrária dos registos digitais para a anorexia tonal e a esqualidez harmónica.


Não é aqui o caso: o INT-150 é aberto, arejado, rico de nuances. E o grave não “mete o pé”, como certos futebolistas caceteiros, faz antes “bater o pé”, sem arrastamento ou modorra. Se quer algo de mais envolvente, com mais calor humano, opte por um modelo XA, de Classe A pura.


O INT-150 é um amplificador jovem, dinâmico, fresco e muito enérgico. Não sei se não é o melhor amplificador integrado que ouvi nos últimos anos. Em especial, quando acolitado pelas Monitor Audio PL 100. Dá-nos uma sensação de fluidez, com um justo e muito raro equilíbrio entre claridade e doçura.


Se me perguntassem qual a cor do som do pass INT-150, eu diria branco. Não porque tenha ausência de cor mas porque o branco é a soma de todas as cores sem que qualquer delas matize a pureza original. Nem o frio dos azuis e verdes, nem o quente dos amarelos e vermelhos. Não há sombras nem pontos cegos no palco. Também não há holofotes coloridos. Apenas a luz divina dos primórdios da criação.


Daí talvez a surpreendente beleza dos timbres. Daí a riqueza de nuances microdinâmicas só acessível nos patamares mais elevados da amplificação highend. Os registos médio-agudos e agudos, aliados à ausência de grão electrónico, são próximos do estado da arte e, de facto, é preciso um “ribbon” para lhes fazer justiça. Ou um tweeter de plasma...


Até que me provem o contrário, este é o amplificador integrado do ano.


Fabricante: Pass Labs
Distribuidor: DELAUDIO