2008

Martin Logan Spire

Martin Logan Spire
It must be nice to disappear,
To have a vanishing act,
to always be looking forward
and never looking back
 
   Lou Reed












   

As Martin Logan Spire chez JVH
 
Depois da Summit, a Spire. São tudo nomes positivos que apontam para cima, para o topo, numa palavra para o highend. Ao fim de 25 anos de investigação e experimentação, a Martin Logan atingiu o seu desiderato com os painéis X-Stat: o painel electrostático das Spire é o mais neutro, mais linear e bem comportado de todas as Martin Logan híbridas. E o seu casamento com um “woofer” único montado em caixa fechada é a resposta a uma das minhas críticas ao desempenho das Summit: o excesso de graves.

De facto, não é fácil encontrar o equilíbrio tonal ideal entre o som produzido por uma membrana delicada e ultrafina com apenas 0,0005 polegadas de espessura e a força bruta de um woofer de alumínio de longo curso de 25 cm de diâmetro, alimentado directamente por um amplificador de 200W em Classe D.








Tudo aquilo que eu já escrevi (e foi muito - ver Media) sobre a arte de fundir o contributo de duas personalidades diferentes, quando não mesmo antagónicas, num corpo sónico com carácter único, continua válido, embora seja óbvio que, ao utilizar num modelo mais acessível as tecnologias de construção de filtros divisores Voijtko, concebidos originalmente para as Statement e adaptados para as CLX, além de componentes seleccionados (transformadores de áudio enrolados segundo especificações rígidas, condensadores de polipropileno, bobinas com núcleo de ar, etc.), a Martin Logan pretende fazer jus ao nome de baptismo deste modelo.

 
As Spire substituem com vantagem as Summit, que se encontram agora numa encruzilhada: ou são descontinuadas ou evoluem para a versão X, aproveitando parte dos resultados do longo trabalho de investigação que esteve na base das CLX.

Nota: os leitores podem recorrer à secção Media nesta página para abrir o manual e ler todos os pormenores sobre a construção e as características das Spire, ou linkar para a excelente página da Imacústica que as distribui e comercializa em Portugal.


MAIS POLÉMICA MENOS 'PALHA'



Do Hificlube os leitores esperam mais polémica e menos “palha” e nada melhor para animar a malta que ouvir as Spire à luz (curiosa esta dicotomia) das audições das Quad 2905, Summit e CLX.
 
 

QUAD 2905 VS. MARTIN LOGAN SPIRE
 
 




Oiço uma voz que me diz: Careful, you are treading on thin ice here. A forma mais fácil de descalçar esta bota seria escrever que têm ambas vantagens e desvantagens e que, em ambos os casos, as vantagens se sobrepõem às desvantagens. Depois é só uma questão de saber apreciar as primeiras e habituar-se a viver com a segundas. Tudo o resto não passa de juízos de valor subjectivos, logo inquinados por essa invenção cultural que é o gosto pessoal: à chacun son goût? Só se for com uma pitada de sal...


Há um diferença abissal entre dar a provar um tinto de casta única e outro de duas castas a um leigo e a um enólogo. Até podem estar de acordo no essencial, o que os separa é, sobretudo, a fundamentação técnica da opinião e a capacidade de exprimir a experiência organoléptica.


Vem isto a propósito de eu ter sujeitado o mesmo grupo na faixa etária dos 30 anos à audição, nas mesmas condições, embora com um hiato temporal de algumas semanas, das Quad 2905 e das Martin Logan Spire.


Todos eles preferiram as Spire: são mais giras, são mais alegres, têm mais vida, tocam mais alto, ouvem-se mais coisas, as baterias soam melhor e os cantores parece que estão mesmo aqui.


As Quad eram referidas como sendo antidecorativas, muito agradáveis de ouvir mas chatas e mortiças. São feias mas fofinhas foi um das expressões utilizadas por uma das ouvintes. Ou: parece que os músicos estão lá longe! Ou ainda: as vozes e os instrumentos de sopro com música de jazz soam muito naturais mas falta presença aos Dire Straits...


Num mercado onde os “especialistas” não passam também eles de uns chatos e desmancha-prazeres, e acham que tudo o que sabe bem faz mal, não tenho dúvidas sobre quais é que terão mais sucesso comercial. A verdade é que nem sequer me seria difícil concordar com eles numa primeira audição ingénua, na qual questões como timbre, neutralidade, coerência de fase estão ausentes. Mas quando chamei à colação termos como naturalidade e realismo o fosso cavou-se ainda mais fundo.


Mais de 90% da música que se vende e ouve hoje em dia é reproduzida por meios electrónicos com altifalantes dinâmicos, sobretudo os graves. Para eles “real” é o que soa como o que ouvem num concerto ou numa discoteca com elevados níveis de pressão sonora. Ou até nos iPod com os auscultadores encostados aos tímpanos. As Spire aguentam-se com 250W no bucho sem pestanejar e não se desligam para se defenderem dos ataques de transíentes maldosos como as Quad. Ninguém com menos de 30 anos gosta que lhe imponham limites. Quanto à “naturalidade”, who gives a shit, todos nós pomos mostarda no hamburguer e ketch-up nas batatas fritas...


Eu creio que este conflito de ordem geracional se deve sobretudo a um dos poucos aspectos negativos que atribuí às Quad 2905, a ausência de maldade: “as 2905 não substituem com vantagem o “raw power” dos altifalantes dinâmicos: falta-lhes o “killer instinct”. Ora “instinto matador” é coisa que não falta às Spire.


Não vou ao ponto de dizer que as 2905 são uma coluna para velhos, ou a caminho de o ser como eu. O que até seria uma contradição, porque as Quad são parcimoniosas no agudo, que é o primeiro a perder-se na audição à medida que os anos passam.


Curiosamente, a luminosidade e joie-de-vivre das Spire atrai-me, talvez também por isso e, depois de as ouvir, apetece-me despir as Quad, libertá-las da “burka” que as oprime e lhes dá aquele carácter escuro e introspectivo que, descobrimos com o tempo, é sobretudo visual. Por outro lado, sinto falta da coerência temporal, neutralidade tímbrica e musicalidade intrínseca que resultam da casta única Quad.


As Martin Logan Spire não vão nunca atingir o estatuto de obra clássica que coloca as Quad ELS 2905 numa categoria à parte com um culto próprio. São um produto mais comercial. Tal como na evolução das espécies, são um ramo da mesma família de transdutores que evoluiu de forma diferente para melhor se adaptar ao meio ambiente, leia-se ao mercado. A hibridez é a sua principal arma. E também o seu handicap.










As Spire reproduzem os sons graves com o realismo dos tempos modernos e os registos-médios do novo painel nunca estiveram tão perto do paradigma quadista, respondendo com a capacidade mimética do camaleão aos diferentes géneros musicais. O grave é mais tenso, extenso e intenso que o das Quad mas, hélas, não é feito da mesma massa, nem tem origem no mesmo point source, o que afecta a coerência temporal, apesar do novo filtro Voijtko ter praticamente abolido a fronteira na zona de transição, enquanto o igualizador centrado nos 35Hz permite “ligar” o azeite e os ovos numa maionese quase perfeita, agradável tanto aos olhos como ao paladar.
 
As Quad não sofrem de colorações tímbricas evidentes, por outro lado revelam no processo musical em curso a sua personalidade macrodinâmica, cujas limitações podem ser mais aceitáveis para uns e menos para outros, além de imporem a monotonia da sua presença física: monolítica e sem graça.
 
São produtos diferentes para pessoas diferentes e até não sei se irreconciliáveis. Cabe ao leitor decidir se precisa de um todo-o-terreno, com uma condução dinâmica, excitante e moderna, ou um boca-de-sapo que faz esquecer que a estrada existe e transforma a condução musical num longo prazer diário.
 

SPIRE VS. SUMMIT



 
 

 


Prefiro as Spire às Summit. Pronto, já disse. Só tenho pena de não haver uma versão passiva. Para ouvir até que ponto a mesma amplificação contribuiria para “unificar” o carácter sonoro do painel e do grave. Um Krell Evo 300, como o que utilizei no teste, não é o mesmo que um módulo anónimo de amplificação em Classe D, convenhamos, apesar do controlo férreo que este exerce sobre o woofer.


Foi agora mais fácil adaptar as colunas à sala que antes com as Summit. Só tem de as afastar pelo menos 1 metro da parede atrás delas. Sendo dipolos até aos 250Hz, não são afectadas pelas proximidade das paredes laterais. Mesmo assim, preferi 'cortar' ligeiramente o grave no controlo centrado nos 35Hz. Admito que numa sala grande, integradas num sistema AV, as Summit ainda têm uma palavra a dizer. De resto, prefiro o conceito acústico das Spire. É menos ambicioso mas mais equilibrado.


Diz-se do painel das Spire que é o mesmo das Summit. Eu acho que não. Mas, se assim é, então é a simplicidade do filtro divisor que, ao permitir-lhe descer mais um pouco, lhe confere a doçura luminosa que faltava e, sobretudo, a substância tonal, a densidade tímbrica e a elegância harmónica. As Spire são as Martin Logan que mais se aproximam do “corpus electrostaticus” dos registos médios das Quad. E, heresia das heresias, já incluo na lista as CLX!...


SPIRE VS CLX
 








As CLX são um notável trabalho de engenharia acústica. Não tanto de design: as antigas CLS são muito mais atraentes. Em Munique, achei-as tensas e hiper realistas. Podia ser o nervosismo da estreia... Em Lisboa, gostei de as ouvir com LP mas pediu-se-lhes mais do que seria razoável em termos de pressão sonora, e ouvi o que me pareceu serem vibrações mecânicas e distorção no painel de graves que me distrairam do processo musical em curso. As Quad também nunca se deram bem com multidões em espaços públicos. It’s de nature of the beast...


Em termos relativos (quem não gostaria de ter umas CLX...), convivo melhor com as Spire, nos planos estético, acústico e afectivo. Com uma ressalva: recomendo a audição de um par com muitas horas de utilização.



 








E, já agora, revelo que gosto de as ouvir com menos inclinação (back tilt) que a de origem (subir a altura dos pés traseiros), um mínimo de toe-in (excessivo toe-in afecta o equlíbrio tonal), cablagem simples (com links da Transparent) e com uma almofada colocada sobre a caixa de graves (estou a falar a sério) para eliminar o reflexo da onda traseira que produz uma espécie de glare na superfície próxima. Até que fica giro! Todos estes “tweaks” são fáceis, baratos e... reversíveis.











Sendo muito mais transparentes e menos coloridas que as Odyssey, as Spire devolveram-me, contudo, a magia dos anos que passei com elas. Deram-me tanta música que já lhes conhecia o mínimo suspiro. Sigh...
 
Os fãs da Martin Logan vão gostar tanto delas como eu. Ou seja: muito.
 
Nota: no topo da página os leitores podem abrir um brevissimo video, registado na Imacústica - Porto, das Spire at work, observando-se o movimento da membrana enquanto reproduz a voz de Lou Reed. Para ver em full screen: botão direito do rato sobre a imagem - zoom - full screen

Para mais informações: IMACÚSTICA


Martin Logan Spire