2008

Audioshow 2008: Em Busca Do Tempo Perdido



Com a página do Hificlube 'em baixo', por razões técnicas,(ver em Notícias), e que me impediram durante algum tempo de partilhar com os leitores as minhas emoções e vivências audiófilas diárias, eu tinha um bom alibi para não aparecer no 'Alfa'. Até porque no Audioshow pouco ou nada havia que já não tivesse sido divulgado antes no Hificlube nas reportagens do Highend, de Munique, e CES, de Las Vegas. Seria apenas mais do mesmo: as mesmas fotos em cenário diferente.


Contudo, realizando-se em Portugal, o Audioshow, e bem assim o Highend Show, do Porto ou o 'Still vinyl', ou qualquer outra iniciativa com o objectivo de divulgar o áudio, podem contar sempre com o meu apoio incondicional, independentemente de quem os promove, e são para mim prioritários, pois têm muito mais a ver com as pessoas e menos com os produtos expostos. Em Portugal, a audiofilia é, tal como a restauração e a gastronomia, uma actividade familiar.


No 'Alfa' estavam amigos e conhecidos de há muitos anos, sobretudo os que sempre me apoiaram e eu não renego as amizades. Nos quais se incluem os leitores, mesmo aqueles que só me conhecem da escrita, e eu reconheço imediatamente da leitura, quando me abordam com palavras simpáticas de apoio e incentivo, ou me colocam questões complicadas de responder: não será a qualidade do som apenas o estado de espírito de quem ouve?...


Há quem do alto da arrogância do seu actual pedestal seja ingrato e se esqueça de quem lhe deu a mão quando mais precisou. Eu, por outro lado, até por uma questão de formação, não poderia nunca ignorar a presença no Audioshow de pessoas como:
João Cancela c/ David Pope, da Halcro


João Cancela, que me iniciou há quase 30 anos nos rituais do som (vendeu-me um Threshold Stasis do guru Nelson Pass, que ainda hoje funciona), recebendo-me no ambiente familiar da sua própria casa sem me conhecer de lado nenhum acompanhado por esse grande 'amante do som' que é Eduardo Rodrigues;
Manuel Dias e família, na inauguração da nova loja


Manuel Dias, com quem tenho um percurso highend comum sob a égide de Ricardo Franassovici, que nos apresentou em Paris, e moldou assim uma amizade que dura há mais de 20 anos com iniciativas conjuntas de que o Festival de Música da Póvoa do Varzim fica como um marco definitivo na minha carreira de 'conferencista do áudio';
Delfim Yanez e filha, na Intercasa


Delfim Yanez, amigo de longa data, audiófilo inato e comerciante nato, que sempre soube respeitar a minha obsessão pela isenção e se preocupa genuinamente com o estado da nação audiófila;
João Cunha, as KEF e os MAC


João Cunha, companheiro de aventuras audiófilas, que trata com igual simpatia o grande público e os especialistas, recebendo a todos com um abraço fraterno;
A.Almeida apresentando o F80 no Highend 07, Porto


António Almeida, um 'pastor' de marcas de raça, que apura com judiciosas misturas genéticas em sistemas superlativos, sabendo rodear-se de pessoas de grande sensibilidade e cultura audiófila, como João Jarego aka Vermeer;


Escrever com emoção tolda, por vezes, a razão, e faz com que pessoas por quem temos a maior estima pensem que os abandonámos ou nos esquecemos delas. Aqui fica a justa homenagem a:
Carlos Moreira, à porta da loja Transom, em Campolide


Carlos Moreira, o famoso Carlos da Transom, que esteve sempre na primeira linha do apoio incondicional às minhas iniciativas, que admiro pela sua coragem, tenacidade, combatividade e engenho e pela sua forma muito especial de procurar o justo equilíbrio entre o ideal audiófilo e o pragmatismo comercial.
Luís Pires, fotografado em Las Vegas, Venetian, no decorrer da CES 2008


Luís Pires (e o seu compagnon de route João Gonçalves), que tem amavelmente partilhado comigo o privilégio único da gestação da sua obra, nomeadamente as colunas Harpa Lusitana e Olissipo (Lisboa, Porto), e também alguns bons momentos de orgulho pátrio na CES 2002.


Além de outros nomes incontornáveis da nossa praça (seria fastidioso citar o nome de todos, e desde já assumo as omissões voluntárias e peço desculpa pelas involuntárias), que têm vindo a melhorar o seu curriculum, ao cometer os feitos acústicos de que se constróem as lendas, conseguindo num curto espaço de tempo obter som de qualidade em salas problemáticas que, de outro modo, demorariam semanas a afinar, ou revelando a enorme coragem de arriscar num nicho de mercado em clara recessão económica:
Rui Calado e Jorge Gaspar, grandes amigos, grandes audiófilos


Rui Borges, Rui Calado, Francisco Monteiro, Alberto Silva, Luís Campos, Guilhermino Pereira, José Filipe, José Júdice, José Marques, José Martins, Carlos Delgado, Carlos Abreu, Rui Palhinha, Paulo Gomes, Miguel Pais, João Pestana e muitos outros; além, claro, de grandes ausentes, como mestre Jorge Gaspar, Carlos Henriques, João Velez, que sempre mostraram respeito pelo meu trabalho, do mesmo modo que eu admiro a sua contribuição positiva para manter a chama do áudio viva num mundo dominado por imagens?
Carlos Henriques, (Interlux), com as Gallo Ref 3, a estética ao serviço do som


Fui lá sobretudo para os ver, abraçá-los, ouvir o que tinham para oferecer e escutar o que tinham para dizer. Porque sabia que estavam em festa, pá! Paguei bilhete (embora tivesse convites no bolso), entrei, dei uma volta calma e longa sem programa prévio, evitando encontros indesejáveis, troquei cumprimentos e palavras, recados e elogios, ouvi música, e saí como entrei: discretamente. Notas: zero. Fotos: zero.


Mas o meu cérebro está, por deformação audiófila, configurado para absorver estímulos sonoros, que ficaram assim impregnados na memória selectiva. Solicitam-me agora amavelmente alguns leitores fiéis que, ressuscitado o Hificlube, qual Fénix, das cinzas informáticas, eu me pronuncie sobre o que ouvi no 'Alfa', como se, à distância de um mês, o que eu tenho a dizer pudesse ser mais do que uma opinião pessoal sem qualquer relevância especial. Felizmente, sendo pessoal, a minha opinião é, contudo, transmissível, pelo que passo a transcrevê-la, sem garantir que a percepção dos factos acústicos ocorridos no Audioshow 2008 não tenha sido na altura afectada por sentimentos contraditórios (um crítico é um homem, logo não é de ferro) e até algo diluída nas trovas do tempo que entretanto passou.


Sem a pretensão de serem exaustivas, aqui ficam pois algumas notas soltas ditadas pelo coração, leia-se, by heart:


QUAD
As Quad 2905 na CES 07


Fiquei a saber sem grande surpresa, pois pertencem ao mesmo grupo empresarial chinês que detém os direitos da Wharfedale (aos ingleses só falta venderem as jóias da coroa...), que a Esotérico distribui agora as famosas Quad electrostáticas, na sua versão optimizada 2905/2805 (uma ideia original de Stan Curtis). Críticos amigos, como Ken Kessler, juraram-me a pés juntos este ano, em Las Vegas, que as Quad nunca soaram tão bem como agora, quando eu cometi a heresia de comentar que o grave parecia reproduzido por um painel de papelão canelado e que faltava corpo e energia ao som. It must be the jetlag affecting your ears, José, disse Ken...


Os resultados no 'Alfa' também não foram promissores: mal tinha entrado, falhou a corrente no canal direito e a uma das Quad ficou afónica. Mas João Cancela chamou-me a atenção para um pormenor não despiciendo, e eu tive de dar a mão à palmatória: a verdade é que ainda nunca as ouvi fora de ambientes ruidosos de feira. E elas precisam de mimos, silêncio e dedicação total. Além disso, são a coluna por excelência do ouvinte solitário, à guisa de auscultadores gigantes. Ficou combinado, portanto, que na primeira oportunidade vou ouvir um par em minha casa at my own leisure and pleasure..


Quem sabe não vou ter de engolir dois saborosos sapos electrostáticos. Tomara, pois as Soundlab são demasiado grandes e as Martin Logan CLX (sou uma das poucas testemunhas vivas da sua existência) nunca mais surgem à luz do dia. Se as Quad 2905 provarem ser tão boas como Ken Kessler defende, serei o primeiro a dar o braço a torcer. Eu sou um hedonista, não um fundamentalista...


MUON
Na apresentação mundial das Muon, no Highend 07, Munique


Fiquei feliz por constatar que a grande maioria dos que já se pronunciaram confirma tudo o que eu já tinha escrito sobre as Muon. Não são colunas de som, são obras de arte: ficavam lindas no CCB integradas na colecção Berardo. Tocar-lhes é desejá-las. Ouvi-las é amá-las. Amar, amar, perdidamente, como Florbela Espanca. Se tivessem no umbigo um tweeter de plasma era capaz de roubar um banco para as comprar...
Johan Coorg, na apresentação mundial em 2006, em Munique, das KEF Austin, precursoras das Muon


E pensar que as Muon são a evolução das feias Austin apresentadas em protótipo no Highend 2006, de Munique. O design é o segredo da indústria dos países ricos. Aprende Portugal!...


LINN
As Linn Artikulat na Transom


Diz-se da Linn que é arrogante e teimosa como o seu mentor Ivor Tiefenbrun, por ter uma filosofia de exclusividade. Contudo, Ivor é como eu: defende as suas convicções. E o sistema da Linn estava a tocar com aquele som característico da marca, que substitui o conceito de alta fidelidade por musicalidade.



KRELL
As Modulare em demonstração activa no Mirage, Las Vegas


O grave das Modulare, excelente apesar de tudo, não demonstrou no 'Alfa' o mesmo controlo rigoroso que experimentei, em Janeiro, numa suite do Mirage, em Las Vegas. Talvez devido a um ligeiro 'golpe' de sala. De resto, estava lá tudo e, se possível, o conjunto médio-agudo estava ainda mais harmonioso e entrosado. Uma verdadeira coluna de banda larga. Com rock, folk, jazz ou clássica, esta é a melhor coluna de sempre da Krell. E aos meus ouvidos, oh, heresia!, soa melhor que as Wilson Watt+Puppies...


AVALON/AYRE
Os Ayre MXR estiveram na base de um dos melhores sons da CES08: TAD Reference One


No Sábado, as Eidolon ainda não tinham um dado um ayre da sua graça. Não sei se no Domingo foi dia Santo. Sistema perfeito, tudo no sítio. Molto grazioso. Mas eu queria algo mais vivace, con gusto. Mais dinâmico. Mais contrastante. Mais consentâneo com aquilo que este duo é capaz de fazer.
As Eidolon e os MXR são exímios executantes. Mas nem mesmo os artistas mais virtuosos prescindem de ensaiar e de aquecer as cordas vocais. Já ouvi as Eidolon melhor. Os MXR também. Mas serão cinco minutos suficientes para formar uma opinião? Por certo que não. Por mim, se me for concedida tal graça, estou disposto a dar-lhes todos os cinco minutos da minha vida...


AVANTGARDE
As Trio+Basshorn em toda a sua glória


O melhor som que já ouvi de umas cornetas híbridas colocadas em apertos=dire straits, não o grupo do mesmo nome, que esses tocaram e bem com as Amati no palco da Delmax. Fiquei em pé, ao monte e tão apertado como elas. Nunca o som de um saxofone soprado no ouvido me soou tão real. As Nano são as verdadeiras herdeiras do suprasumo Trio+MaxHorn. A Nano ameaça tornar-se na melhor coluna doméstica de sempre da Avantgarde. A menos colorida e a mais equilibrada.


MONITOR AUDIO
Monitor Audio Platinum 100


Vivo com as Platinum (PL300 e PL100) há dois meses mas ainda não consegui sintonizar-me com elas. Será do voicing obtido em câmara anecóica, que soa quase sempre brilhante em condições domésticas? Ou porque isto das colunas virgens dá mais trabalho que gozo? Temo ter ainda muito suor auditivo pela frente. Mas já começo a entendê-las melhor. Há quem só precise de um fim de semana para escrever cinco páginas sobre o assunto, eu, hélas, vou precisar de mais tempo para me pronunciar. O tweeter de fita ainda vai ter de vibrar muito. Há dias que julgo ter chegado finalmente ao paraíso. Outros há que tenho de recomeçar tudo do zero. O namoro foi lindo, o casamento está complicado. Time is the great healer, so they say. E eu sei que um dia ainda nos vamos amar de novo...


UTOPIA

As Grand Utopia no Highend 2006, Porto


Já chamei às Grand Utopia 'uma das 5 maravilhas do mundo audiófilo'. No 'Alfa' (o antigo nome do Hotel Corinthia tem algo de místico), as belas francesas estavam metidas num 'soutien gorge', em conúbio com artilharia Chord, incluindo o Red Reference. Ora as JM Lab Focal da série Utopia precisam de espaço para mostrar toda a sua elegância. A curta distância os altifalantes não se integram com a mesma subtileza. E as pessoas perguntam: tanto dinheiro e só oferecem isto? Não, oferecem mais , muito mais, oferecem um verdadeiro mundo de utopia acústica...


KEF REFERENCE
Apresentação mundial das KEF 207 Reference, na CES 2007


O melhor som que já ouvi de umas Kef Reference em qualquer tempo e em qualquer lugar: sólido, seco, claro, dinâmico. 'The Old Blue Eyes' continua em forma, o Carlos Delgado também.


O ALFAIATE DO SOM
Rui Borges e as Sonus Faber


Que mais posso dizer do Rui Borges? Parece alimentar-se do ar e da música, como os seres celestes, que sendo alma negam o corpo. O Rui faz sons por medida que caem sempre bem a todos os ouvintes: sem pregas nem rugas, com costuras perfeitas e tecidos harmoniosamente ricos de texturas complexas e requintadas. Com as Amati reescreveu pela pena da Audio Research a Ars Amandi na alcova circular do seu gira-discos, onde voluptuosos violinos e guitarras eléctricas giraram sem discriminações sociais, porque todos os artistas são filhos de Deus. De um Deus maior, no caso do Rui...



B&W SIGNATURE DIAMOND

As Signature Diamond, no Hifishow 2007, Villa Rica, Lisboa


Assino de cruz tudo o que já escrevi sobre as Signature. E sobre o Alberto. Há projectos que espelham a alma do seu criador e, por isso, emana deles uma serenidade que nos proporciona prazer e paz de espírito. Conheço pessoalmente John Dibb que me recebeu paternalmente no seu estúdio: as Signature são a cara do pai (ou serão netas?), de olhos límpidos e claros e com uma inteligência rara. Cativa-me sobretudo a religiosidade interior. Dele. Das colunas. E do som que produzem. Nesta liturgia, o Alberto foi o sacerdote oficiante. Amén.


BELCANTO

J.Martins (à direita) no Audioshow 04: o entusiasmo continua, as ilusões talvez não...


A JM Audio é uma daquelas equipas pequenas e simpáticas que fazem sempre boas exibições e surpreendem tudo e todos ao chegar à final da Taça. Se os Belcanto e as Amphion não estavam a tocar música da boa, então o que era aquilo? Humildade, honestidade, serenidade, musicalidade. Parabéns, Zé! Olha, e não térás por aí na tua 'adega' dois pares de EL34 emparelhadas?...



LYNGDORF/XAVIAN
Miguel Pais, fotografado no Forum Hifi 06


O Miguel parece ter finalmente apanhado o jeito da Lyngdorf. É outro exemplo de demonstração que dispõe sempre bem a quem assiste. Além do excelente gosto musical, algo elitista pelos padrões populares, mas revelando uma cultura acima da média. É esse o caminho, Miguel, deixar as guerras para as grandes potências e fazer o caminho das pedrinhas em segurança até ao objectivo apenas com armamento ligeiro. Um a um os incrédulos serão abatidos pelas balas musicais da tua convicção.



USHER
Dr. D' Apollito, o pai das Usher, fotografado na CES 2008


Hush, hush, little baby, ou tudo o que a antiga música canta. As Usher 718 Be estavam a tocar alto e bom som. Naquelas condições, fico tentado a acreditar em bruxas. Que as há, há - e um pouco da ciência de Mestre D'Apollito ajuda sempre...