2006

Krell Fbi: O Fruto Proibido



Krell FBI


Claro que a sigla designa “Full Balanced Integrated”, mas a ideia de poder e autoridade absoluta da famosa polícia federal americana estava na cara: bastava olhar para o aspecto massivo do que será um dos amplificadores integrados mais pesados e poderosos do mercado.



O FBI é talvez o modelo Krell onde é mais evidente o passado militar de Dan d'Agostino, em especial na versão em negro antracite. Tudo nele, incluindo o enorme botão rotativo do controle de volume (controlo electrónico do potenciómetro de resistências), parece ter sido feito para suportar duas campanhas seguidas no Iraque a dar música à Al-Qaeda. Nem mesmo colunas terroristas com cargas explosivas de baixa impedância (os painéis das Vantage descem abaixo de 1 ómio a 20kHz, por exemplo) lhe metem medo.



Depois do lançamento da série Evolution, que já obedece aos critérios mais apertados de segurança impostos pela legislação americana e da UE, esta era a última oportunidade da Krell para aproveitar as “sobras” de circuitos da série FBP e poder ainda ver-se livre de uma vez por todas daqueles dissipadores rapa-canelas. Em 2007, o FBI já teria sido proibido. E não é o fruto proibido o mais apetecido?...
Amplificador Krell Evolution 600


Os actuais Evolution, embora igualmente grandes e pesados, são mais domésticos, até na estética, e têm limitadores de potência em Classe A contínua, com cargas de muito baixa impedância, para impedir que as caixas ultrapassem os 60 graus. Digamos que os Krell evoluíram como o homem: da idade do fogo (nos primórdios até tinham ventoinhas de arrefecimento!) para a idade da informação (são hoje dos amplificadores tecnologicamente mais avançados do mundo).


Krell FBI fotografado na CES 2006


O FBI tem no ADN genes dos Evolution, nomeadamente o novo circuito CAST (com uma luz vermelha tipo coração do ET para agradar aos chinocas, por certo), mas, no fundo, não passa da simbiose perfeita entre um amplificador Krell FPB 300cx e um prévio KRC-3, com a vantagem da redução de custos no chassis e fonte de alimentação únicos, além da possibilidade de aperfeiçoamentos pontuais nos dois circuitos agora integrados.


Com 60 quilos de peso, o melhor que há a fazer, uma vez retirado da caixa, com a imprescindível ajuda externa de amigos e familiares (e eu a ver, pudera…), é colocá-lo no chão (o meu é de mosaico) e deixá-lo lá ficar quietinho até ter de se ir embora. Não se esqueça nunca que “integrado”aqui não passa de um eufemismo, isto é um monstro de força: 1 500W sobre 2 ómios (!), assim a sua corrente de sector esteja a altura das circunstâncias - e a maior parte das vezes não está. Eu tenho um circuito independente de 45 A e tive de mudar dois disjuntores de 20 A, porque disparavam sempre que o ligava. O ideal é deixá-lo ligado em stand-by (atenção que, mesmo assim, gasta bastante energia).



Este é “o último dos moicanos” da tribo Krell, pois, como já referi, a capacidade de “injectar” potência sobre cargas de muito baixa impedância foi limitada na série Evolution, por razões de segurança doméstica. Ter um Krell é como ter uma arma de fogo em casa, passe o exagero - feche o auditório a sete chaves: as crianças só devem ouvir música com esta temperatura quando acompanhadas pelos pais (o mesmo se aplica aos amplificadores com válvulas nuas). Será o FBI um caso de polícia?!...



No momento em que escrevo, já não tenho comigo o FBI, entretanto devolvido ao distribuidor, a Imacústica. Escrevo, pois, de memória. Ou melhor: by heart, a expressão anglo-saxónica correspondente, que me parece mais apropriada, porque isto são, de facto, questões do coração.



Admito, pois, que, ao contrário do que é habitual, não senti o desejo compulsivo de “kiss and tell”, ou seja de ir a correr escrever tudo o que senti logo que o ouvi tocar, para assim poder partilhar com os leitores o sentimento de plenitude audiófila que me enche o coração quando oiço algo de extraordinário.


Significa isso que não recomendo o FBI? É um pouco mais complexo do que isso, eu próprio me sinto algo confuso, e temo que possa estar a ser injusto. Até porque parte da audição foi feita com um par de Martin Logan Vantage, que, sendo, híbridas e com graves activos, não aproveitaram o melhor que a Krell tem para oferecer: os seus baixos instintos. Como equipamento complementar, foram ainda utilizados: Krell Evolution 505, Marantz CD63KI, Chord DAC64, prévio McIntosh C2200, Gallo Nucleus Ref.3.1, Martin Logan Clarity e Sonus Faber Concertino, cabos Nordost Valhala e Siltech. Ora o FBI estava mesmo a pedir umas B&W802, Sonus Faber Amati Anniversario ou Wilson Watt Puppies 8.



Tomei as minhas notas, e deixei-as ficar em banho-maria à espera de inspiração. Entretanto, depois de ler, em Junho, a excelente crítica de Martin Colloms, descobri afinal que ele tinha chegado à mesma conclusão que eu: o FBI tem “split personality”, não é “dois-em-um” é “um-em-dois” - como integrado soa assim, como amplificador soa assado. Claro que, agora, passados meses sobre a publicação da crítica de Martin Colloms, na edição comemorativa do 50ºAniversário da Hifi News, é fácil dizer “I told you so”...


A verdade é que eu e ele estamos de acordo quanto ao FBI, o que nem sempre aconteceu no passado. Estivemos em profundo desacordo em relação ao Krell SACD Standard, por exemplo. De que, aliás, o novo Evolution 505 me soa como uma versão mais sofisticada, em especial com o filtro 2 activado (corte aos 90kHz +5dB de ganho).
Krell FPB 400cx


Ambos tivemos a rara felicidade de viver muitos meses com os amplificadores Krell FPB 300 cx e 400cx, por isso sabemos do que falamos. Em especial com este último modelo, habituámo-nos a ter aos nossos pés uma “força da natureza”, capaz de grandes cometimentos musicais: poder, transparência, neutralidade e coerência no carácter sonoro, independentemente das circunstâncias, isto é, independente da dificuldade do programa a reproduzir e das colunas a alimentar. Os Krells são amplificadores imperturbáveis perante as adversidades do processo musical.


Mas há mais: a famosa linha do baixo e a avassaladora sensação de ataque e presença. Neste particular, o 400cx atingiu o auge, sendo que o 300cx era um pouco mais escuro e enfático no grave. O Krell FPB 400cx tinha - e tem - uma qualidade única que deriva em linha recta do 700cx: os sons são sólidos de geometria tridimensional, não são meras representações ectoplásmicas. O palco sonoro está, pois, povoado de seres vivos - cantantes, vibrantes, amantes - e não de símbolos electrónicos que os representam, pelo que não é possível ouvir através deles; ou seja, um músico permite-nos ouvir outro que está colocado atrás de si, no palco ou na mistura de estúdio, sem que o casulo acústico que o identifica como um halo atmosférico de santidade o faça perder substância ou densidade específica. Não precisa de “sair da frente”, nós ouvimos distintamente quem está atrás dele, e tudo o que está a fazer como acontece ao vivo.



Com amplificadores menores, o termo transparência aplica-se também aos músicos e instrumentos, e não apenas à pureza intrínseca do ar que envolve os sons que produzem; e a liquidez é também entendida literalmente: mergulhar na música, no sentido de imersão acústica do termo, é uma coisa; “mergulhar” nos músicos atravessando-os para o outro lado, é outra completamente diferente - isso só acontece no Matrix, e não é do reino do highend, é do reino da fantasia. Ora, ao contrário do reino de Cristo, o reino dos Krell é deste mundo, embora sejam amplificadores “do outro mundo”…



O FBI, enquanto integrado, não perde as notáveis características acima descritas, mas parece “domesticar” o som, tornando-o mais “macio”, “recuado”, “difuso”, eu diria mesmo “lento”, como se o prévio funcionasse como uma rédea curta que impede o amplificador de galopar à desfilada, de colocar toda a potência no chão, só para utilizar a gíria automobilística. O palco continua amplo mas o seu conteúdo perde alguma claridade, definição e aquela precisão de “sniper” que faz a glória do 400cx.



Atenção: a diferença é muito mais subtil do que as palavras podem sugerir. A hipérbole é a arma predilecta dos críticos para descrever o que muitas vezes não passam de simples nuances ditadas pela subjectividade de uma actividade que se baseia no mais falível dos sentidos - o do ouvido; e tem, ainda por cima, como veículo a escrita, uma realidade que, por ser bidimensional, não poderá nunca significar o que é, por natureza, tridimensional (O Grau Zero da Escrita, de Roland Barthes).


E de tal forma assim é, que aquilo que antes era uma certeza imutável, cedo se desvanece no âmbito de um teste-cego, ou seja, logo que os ouvidos perdem o apoio dos olhos. On écoute aussi avec les yeux, o slogan da Yba, pode ter por vezes ressonâncias ambíguas:“on écoute surtout avec les yeux”…


Mas olhem que não, até de olhos fechados se nota a diferença: eis que bastou ligar o prévio McIntosh C2200 ao FBI, com cabos longos balanceados Siltech, fazendo “by-pass” à secção de prévio activando o modo Home Theater Throughput, para o som recuperar toda a glória que a Krell ao longo dos anos ganhou no campo de batalha do áudio. E se ele aquece no calor da refrega!...



Eu vou mesmo mais longe: a secção de amplificação do FBI é superior em todos os aspectos qualitativos à do próprio FPB 400cx, mesmo tratando-se, de facto, de um 300cx. Eu creio que o poderoso toroidal de 3KVA tem aqui uma importância decisiva. Por comparação, o grave dos actuais Evolution soa-me (ainda não os testei, apenas os ouvi informalmente em shows) demasiado “esticado”, como a pele de um tambor; e são também um pouco mais incisivos nos registos altos, quase impertinentes na forma como nos dão a ouvir os segredos escondidos da música: “um pano encharcado na tromba”, escrevi eu quando os ouvi no audioshow 2006 de má memória.



Esta “impressão” subjectiva não se aplica ao conjunto One/Two, que, espero, vá estar um dia à minha espera no céu dos audiófilos.


Quando eu morrer voltarei para buscar/Os instantes que não vivi junto do mar. Livro Sexto, Sophia de Mello Breyner Andresen.


Permitam-me a heresia de a parafrasear: quando eu morrer voltarei para buscar os instantes em que não ouvi música junto dos Krell Evolution One/Two.



A minha conclusão é, portanto, óbvia: ao comprar o FBI, o orgulhoso proprietário toma posse efectiva daquela que é, na minha opinião, a melhor implementação de sempre - e a última - do circuito Full Power Balanced, depois do 700cx, o ”amplificador maldito” (para a UE, claro, porque eu gosto deles assim: em brasa, a queimar o corpo e a alma), com a vantagem nada despicienda de o utilizar como integrado, quando for caso disso, circunstância em que, à revelia de tudo o que fica aqui escrito, é ainda muito provavelmente o melhor do mercado - nunca um integrado atingiu um tal nível de poder com esta qualidade sonora.



Este é o único caso em que não me importava de ser preso pelo FBI…



Fabricante: KRELL



Distribuidor: IMACÚSTICA