2006

Gallo Reference 3.1: Opinião Dos Leitores



Amigo JVH



' Long time no see' e poucas ou nenhumas palavras trocadas!


No entanto, agora, há um bom motivo para retomar estas conversas epistolares: as colunas Anthony Gallo reference 3.1. Estive à espera que terminasse a saga crítica e de divulgação das ditas que já enforma de autêntica tese de doutoramento?! Não que precise de tal título que, certamente, já lhe foi outorgado 'honoris causa' pela maioria dos seus leitores!



Não terminou ainda mas, para mim, é já suficiente o que li, para tecer alguns comentários. Ser-me-á reconhecida, certamente, alguma autoridade para o fazer após a fruição em mais de dez mêses da audição constante das musicais Gallo reference 3.1 acolitadas pelo Amp dedicado reference SA. Assim:



1/ Contrariamente ao que jura e afirma o Carlos Henriques, da Interlux, acho, de acordo consigo, que as Gallo 3.1 são feias, muito feias. Mas que importa isso, mesmo se, vestidas das suas «Burkas», se transformam em algo de muito belo, em sublime engodo e afirmação sensorial que cativa e enaltece o ser. Ao contrário dos hedonistas plásticos, os olhos não comem a música e por isso, os audiófilos/melómanos não podem ser acusados de ter mais olhos que barriga. Absorvem as ondas sonoras com os ouvidos, com o abdómen, com os ossos, com a pele e, se calhar, com as biqueiras dos sapatos?!

Nos sistemas A/V cinema em casa, as imagens disfarçam bem a menor qualidade sonora das colunas a eles adstritas. Aliás, sou incapaz de de ouvir/visionar óperas nos grandes ecrans, seja em cinema projectado ou visionado em monitores plasma/lcd. O meu supremo gozo é ouviir as óperas no meu sistema normal, seguindo o libretto, de preferência em italiano, recuperando assim toda a emotividade que a música e os intérpretes proporcionam. O resto, a imaginação fecunda de cada um visiona e inventa todos os cenários e méritos artísticos!...



Recuo 44 anos na minha vida e lembro o Festival Gulbenkian de Música e a oportunidade de assistir a diversos concertos de saudosa memória. Em particular, recordo a Orquestra de Câmara de Estugarda. Pelas 15h00 apresentou-se todo o naipe no palco do cine/teatro Tivoli com um grande AAHHHHHHH... de espanto de toda a assistência! O motivo de tal assombro foi o aparecimento da cravista, mulher muito baixa, magra e feia de nariz adunco e com grandes verrugas, vestida toda de negro brilhante desde o queixo até aos tornozelos, qual personificação do demo?! Mas, começou a música e, de repente, a cravista transfigurou-se em anjo celestial, situado muito acima das nossas cabeças e entendimento, transformando o ar do Céu em ambrosia maviosa alimentando as nossas almas. De tal sorte o concerto continuou, e os aplausos continuaram sempre por muitos e muitos minutos, que fomos regalados com 3 «encores» magestosos e inebriantes fazendo atrasar por largos minutos o concerto seguinte marcado para as 17h00. E eu, pobre e ignaro iniciado, fiquei siderado. Resultado: escondi-me no wc e regressei ao auditório (2º balcão), quando começou o novo concerto. Com a compreensão do arrumador, assisti de pé até ao fim. Ganhei duplamente na emoção e alegria até porque os novos «encores» foram diferentes dos primeiros!



2/As suas análises técnica e musical das Gallo 3.1 estão de acordo com o que tenho desfrutado ao longo destes meses. Não altero ou acrescento em nada o que tem dito. Apenas referencio o posicionamento das colunas: estas estão em cima de uma base dupla de placa de mármore de 3cms intervalada por 4 semi esferas de material compósito da Arcus de 3cms de altura e, em cima uma placa de granito preto de 4cms o que completa 10 cms de acrescento. Daqui resulta um palco sonoro bem melhor e, para mim (1,63 altura), ficam na altura ideal de audição. Não colhi informação de ninguém quanto a isto. Apenas a intuição e um pouco de cultura audiófila adquirida ao longo de 42 anos. A minha sala de audição é pequena (12m2) mas, como tenho milhares de livros, milhares de CDs e de Lps a tapar as paredes da sala, esta oferece condições acústicas muitpo boas conforme o testemunho de representantes de lojas audiófilas como o Rui Borges e o Carlos Henriques.



Quero apenas exaltar a audição de um Cd de um grupo português que, quanto a mim, supera de longe tudo o que a nível mundial se afirma como de referência e teste??!! Qual Babatunde Olantunji (incensado por Ken Kessler), qual Jim Keltner, Kodo of Japan e outros que ficam menorisados em relação a este Cd dos Gaiteiros de Lisboa - Sátiro!!! Em especial as faixas 1- O fim da Picada e 9- Haja Pão, possuem além de uma musicalidade de encanto, raízes telúricas profundas projectando a sonoridade desde o magma do centro da Terra ao Ar do Céu. O CD está muito bem concebido e a gravação é 10/10. Acho que devia aconselhar esta obra aos seus amigos da crítica internacional. De certeza que se passam, pois constitui literalmente o Fim da Picada.



3/ Sempre tenho enaltecido e congratulado com a forma sincera e isenta com que escreve e analisa os equipamentos que lhe entregam para o efeito. Para isso é necessário empenhamento, independência moral e crítica e, sobretudo tomada de posição não cabendo aqui simpatias pessoais e/ou subserviiências.


E aqui recorro ao grande poeta de Hernâni, País Basco, Gabriel Celaya e ao seu grande poema « A poesia es una arma cargada de Futuro». Em tradução livre transcrevo 3 estrofes do mesmo:



« Maldigo a poesia concebida como luxo cultural para os neutrais,
Que lavando as mãos se desentendem e evadem,
Maldigo a poesia dos que não sabem tomar partido, partido até se mancharem.»


4/Mas não concordo sempre consigo naquilo que diz e escreve. Por exemplo quando gaba a Clara Ferreira Alves como escrevinhadora de referência. Ela foi uma boa analista literrária mas, como cronista social não passa de uma pseudo intelectual mentecapta e saloia. Veja a título de exemplo o que escreveu na última Única sobre as putas de Tashkent???


Do mesmo modo não concordo com as louvaminhas ao Honorato Pimentel. É um razoavel crítico musical que pouco adianta e desmerece por se intitular um «Hip-Hop freak». Mas, felizmente, está bem longe dos sinistros João Lisboa, João Gobern, Galopim e Boleos da nossa praça.



Já chega de bem e maldizer.




Um abraço audiófilo




Vítor Torres