2006

Gallo Nucleus Reference 3.1 - Parte 5 - Conclusão: Das Vozes Aos Tambores



Não tenho por hábito referir discos e faixas específicas utilizadas nos testes auditivos, até porque, em muitos casos, os leitores podem não ter esses mesmos discos na sua colecção para comparar. Mas, das dezenas de discos que ouvi, tirei notas auditivas sobre alguns deles e achei que seria interessante publicá-las para o leitor poder situar as conclusões num contexto mais objectivo.

O som das REf.3.1 é claro-escuro como a pintura de Rembrandt. Na voz quente e contida de Jacintha, não a nossa, a outra, a de Singapura, pareceu-me ouvir uma ligeira “sombra” do “woofer” em “Georgia On My Mind”, do álbum “Here's To Ben”, versão XRCD: não esquecer que, apesar do corte muito baixo (124Hz), a pendente é suave, para poder apoiar os altifalantes de médios no limite inferior da sua zona de trabalho. Uma segunda e uma terceira audição atentas, revelaram, contudo, que a sombra existe mas está potenciada pela própria voz de Jacintha quando ousa descer abaixo da sua capacidade vocal. Em “The Look Of Love”, que é cantado uma oitava acima, Jacintha já soa mais fresca.



Oiçam-se as vassouras de Larance Marable varrendo o ritmo dolente da canção para debaixo do tapete melódico: poucos tweeters no mundo têm esta característica de informação neutra como o CDT, se bem que a neutralidade das Ref 3.1 esteja mais próxima do Yang que do Yin. Tal como na pintura do mestre flamengo, o segredo está na textura, espessa e macia, e nas cores quentes e saturadas, tanto das vozes como dos instrumentos.



Para reproduzir a reverberação de forma coerente é preciso haver também coerência ao nível da fase? E ela é quase perfeita aqui. Pudera, não há qualquer filtro, entre o tweeter CDT e os “médios”, logo não há rotações, hiatos, confusões. Oiça-se o eco do estúdio em “Danny Boy”. E a sibilância da voz?..., modulada por aqueles lábios carnudos humidificados pelas bolhinhas de saliva que dão estalinhos sensuais na abertura de “In the wee small hours of morning… Aqui para nós que ninguém nos ouve, Jacintha é apenas uma boa cantora de bar de hotel de luxo de Singapura para americano em viagem de negócios ouvir entre dois copos e um apalpão a uma call-girl de olhos em bico. O saxofone tenor dengoso de Teddy Edwards soa com o justo equilíbrio entre palheta e corneta, talvez mais esta do que aquela…muito bem também o CDT a servir os pratos requintados de Marable, em “Our Love Is Here to Stay”.

A presença dos intervenientes em palco não se faz pela via do velho truque de dar ênfase aos registos médio-altos. Faz-se pelo contéudo, pela substância, pela textura, pela volumetria. “Anda, come que tem sustância”, dizia a minha avó, quando eu não queria comer a sopa. É isso, as Ref. 3.1 têm “sustância”, no sentido em que nos “sustentam” os apetites musicais e nos deixam, se não de barriga cheia, pelo menos satisfeitos.



Basta ouvir os concertos de Vivaldi para diversos instrumentos, pela Philharmonia Baroque Orchestra, de S Francisco, dirigida por Nicholas McGegan, num registo RR, do Prof. Keith Johnson, para perceber como instrumentos antigos também podem ter “sustância” para a alma. E se as Ref. 3.1 reproduzem bem o “jogo do eco”, no Concerto em Dó, RV552 per eco in lontano, com o violino de Lisa Weiss a responder “fora-do-palco” ao de Katherine Kyme...



Nas “orquestras maciças” as Ref. 3.1 cedem, em termos de escala e poder (a tal onda de choque), face a colunas de maior porte - umas Wilson Sophia ou Watt+Puppies, por exemplo. Mas a “Fantástica”, de Berlioz, não deixa de soar fantástica por causa disso - está lá tudo: o drama, o medo, a angústia, a violência, a morte, todos os ingredientes do Romantismo.



O mesmo se pode dizer do Bosendörfer Concert Grand, excitado pela arte pirotécnica de Valentina Lisitja, que ataca as teclas como que possuída pelo espírito de Liszt, num extraordinário registo do meu amigo Peter McGrath, agora ao serviço da Wilson Audio. Aqui, sim, talvez com o Gallo SA no poleiro fosse possível recuperar o dramatismo telúrico do período romântico, que de outro modo se esvai exangue na oitava em falta. Quem nunca a ouviu não vai, contudo, sentir-lhe a falta, tal a compostura tonal das REF. 3.1: os graves têm o peso relativo justo no contexto geral do espectro. O facto de o CDT estender a sua influência até aos 50kHz tem mais importância ao nível da fase que ao nível dos tons e dos timbres.

Se tem um amplificador a válvulas, o amplificador subsónico Gallo SA talvez seja um “must”. Já um par de Bel Canto M1000 deve chegar para tornar o SA redundante. Mais ainda se puder chegar a um Krell: o FBI tem o condão de pôr a “panela a ferver”. A Interlux, que distribui as Gallo, também distribui a alemã Accustic Arts, que tem no seu catálogo amplificadores com músculo suficiente para as levar ao colo até ao altar da música.



Contudo, há um limite físico para até onde um “woofer” de 10 polegadas pode chegar. O contrabaixo do trio de Tsuyoshi Yamamoto, em “Midnight Sugar”, ameaça a espaços “saturá-lo” de notas abaixo do seu “limiar de dor”. Digamos que ferve por fora. Uau!, mas se o piano de Yamamoto soa real e, apesar de tudo, generoso nas cordas graves…



As Ref. 3.1 não conseguem reproduzir o som do grande “taiko” do Kodo, tal como eu o ouvi ao vivo, pulsando como um coração gigante no ventre da mãe natureza: um tacho não é um panelão da tropa, embora haja muitos “tachos” na tropa. Mas, se exceptuarmos essa incapacidade ditada pelas leis da física de excitar todo o ar dentro de uma sala grande (o que não é o caso da minha), a percussão é, de uma maneira geral, reproduzida de forma mais do que satisfatória:



Oiça-se Billy Cobham, no álbum “Picture This” (GRD-9551), ou o ataque à pele bem esticada da tarola de Jeff Porcaro, em “L,Daddy”, do álbum James Howard Newton&Friends (o tema “Borealis” abria o saudoso “Audiofilia Aguda”, um programa de rádio para audiófilos que eu produzi para a TSF).



Em “At last”, de Lou Rawls, dou comigo a ouvir a altos níveis: o que é sempre um bom augúrio. As REf. 3.1 sentem-se em casa com Lou Rawls: a voz dura e gravilhenta de barítono de Lou, em confronto com a limpidez dinâmica da voz de Dianne Reeves, introduzida pelo piano cristalino de Richard Tee, sublinhada a traço grosso pelos bordões de Tinker Barfield, propulsionada pela bateria de Chris Parker, pontuada com elegância pelo saxofone tenor de David Newman e excitada pelo trombone de vara de Robin Eubanks, deixa-nos sem pinga de sangue. O registo da voz de Lou é um pouco duro (parece ter cascalho nas cordas vocais), mas as 3.1 dão a volta por cima com a sua forma peculiar, eu diria quase nonchallant, de reproduzir a voz humana: nunca nos gritam aos ouvidos, apenas soam mais alto.



No dueto com George Benson, em “You can't go home no more” (excepcional desempenho da secção rítmica), já ouvi a expressão “another day in life”, no diálogo de abertura (“life” é proferido como se viesse das catacumbas da alma de Lou Rawls), soar mais “graaave” com outras bolas: as Cabasse La Sphère. Mas, ora bolas!, convenhamos que a comparação não é justa…E para aqueles que acham que o grave das 3.1 não está bem sintonizado com os registos médios basta seguirem com os ouvidos a linha ondulante do baixo de Tinker Barfield em “Room With a View”; ou deixarem-se levar pelo sincronismo entre o pedal da bateria e a guitarra baixo que, em “She's No Lady”, “estende” a nota gerada de comum acordo para preencher o espaço entre batidas numa atitude “swingante”.



CONCLUSÃO:

O visual das Gallo Nucleus Reference 3.1 é, por certo, mais polémico que o seu desempenho acústico. Haverá, por certo, quem as considere uma provocação artística até perceber a funcionalidade da forma. Para estes a “burka” é uma boa solução para a “normalização” estética. Mas haverá também muitos outros que as consideram uma obra de arte moderna, que gostam de exibir em casa toda nuas, que é como elas se sentem melhor...



Acusticamente, as 3.1 são tudo menos provocadoras. O som está nos antípodas do “hifi”: sem arestas vivas, redondo e bem temperado. As 3.1 não sofrem de colorações, nasalidade ou desvios tímbricos importantes. O mesmo se pode afirmar em relação à linearidade de fase. Tonalmente são quentes e o detalhe é mais implícito que explícito bem ao gosto audiófilo. Numa palavra: o som é natural, sem ênfases espúrios e, talvez por isso, nos soem algo escuras, quase tímidas, numa primeira abordagem.



A imagem estereofónica é muito boa, com excelente reprodução da profundidade do palco sonoro. A imagem central é sólida e todos os sons em geral têm uma agradável característica de palpabilidade. Contudo, não sou partidário de as colocar muito afastadas uma da outra, contrariando as preferências do próprio Anthony Gallo. De facto, sempre que as ouvi em Las Vegas, estavam colocadas a três, quatro metros uma da outra.



As 3.1 são colunas de banda-larga, o que é notável, tendo em conta o seu tamanho, embora tenham algumas limitações na capacidade para “mover ar” dentro de salas amplas (talvez porque o woofer dispara para o lado e não directamente ao ouvinte). Apesar disso, atingem bons níveis de pressão sonora sem que o carácter geral do som se altere, sobretudo nunca se tornam duras ou agressivas. E o acoplamento acústico com a sala é pacífico.



Admito que um bom altifalante de graves em liga leve de alumínio teria conferido às 3.1 uma melhor definição nos contornos da zona inferior do espectro, que não tem a mesma qualidade intrínseca do conjunto médio/agudo d'Apollito: há uma clara diferença de carácter, quase como acontece com as Martin Logan. A transição médio-grave é a única área crítica: com os altifalantes de graves apontados para fora ganha-se em definição e articulação do grave o que se perde em corpo; com os woofers apontados para dentro (como Anthony e eu preferimos), o grave “penetra” no território do médio-grave, fazendo sentir a sua presença até um pouco mais acima da fronteira do corte, o que com certos registos parece introduzir uma ligeira sombra de coloração tonal.



Com a eventual futura opção pelo grupo médio/agudo das Reference AV, que duplica os altifalantes de médios, os resultados seriam na minha humilde opinião ainda melhores. Acontece que nem sempre dá bom resultado alterar receitas de sucesso - as 3.1 são o que são: uma verdadeira referência dentro da sua categoria.



E, se a promessa de descer aos 20Hz, com o auxílio do SA, for cumprida (teste já em agenda), as Gallo Nucleus Reference 3.1 passarão a constituir, na minha escala de avaliação pessoal, uma categoria à parte na difícil relação preço/tamanho/forma/conteúdo.



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