2005

Mano A Mano: Inca Katana Std Vs Se - Parte 1



Katana SE (em cima), Katana STD (em baixo): descubra as diferenças



A Inca Design, um empresa britânica que derivou da Inca Tech, projectou o leitor-CD Katana, um nome que a mim, antigo combatente, me provoca alguns calafrios de má memória. O Katana - globalização (ou será deslocalização?) oblige - é montado na China. Só assim se compreende que um leitor-CD de preço razoável (em termos audiófilos, não de mercado de electrónica de consumo, onde já se pode comprar um leitor-DVD por menos de 100 euros) ofereça uma qualidade de construção consentânea com produtos mais caros. Se fosse fabricado na Europa, só a factura da metalurgia absorveria a maior parte dos custos de produção.



O Katana vem vestido com uma sólida e espessa armadura de alumínio, cuja função é controlar as vibrações e ressonâncias, e lhe confere a original forma trapezoidal de pirâmide Inca, et pour cause. O duplo painel frontal também em alumínio sólido tem o design muito peculiar de uma «arma branca» estilizada, ou então sou eu que sofro de stress pós-traumático e ando a sonhar com «catanas» acordado...



O fundo que protege o «miolo» electrónico é, dizem, constituído por uma placa mais fina de uma liga à base de cobre, muito bem amortecida, com um padrão interno que tem a pretensão de funcionar como «gaiola» de Faraday virtual, para manter «cá fora» a RFI. Não sei como, mas também não quero ser desmancha-prazeres.



Apesar de tudo, ainda sobrou dinheiro para encher a carcaça do bicho com o transporte, conversor e fonte de alimentação, esta última com base num sofisticado transformador de núcleo rectangular, compacto mas muito eficaz (dissipação mínima de calor) e silencioso, além de uma bateria de pequenos condensadores electrolíticos bem ao gosto britânico.



Nós, portugueses, queixamo-nos do capitalismo selvagem à solta na Ásia (é curioso que, sendo a China um país comunista, são os ex-partidários desta ideologia os que mais se queixam hoje da «deslocalização» - longe vão os tempos do internacionalismo e do maoísmo militante...).



TRANSPORTE PHILIPS


O transporte do Katana é um Philips VAM 1202 de boa qualidade, montado sobre uma base sólida de cobre para amortecer as ressonâncias. Em todos os testes que realizei nos últimos 15 anos, com o disco de obstáculos digitais da Pièrre Vérany, os mecanismos Philips foram sempre superiores (os DACs multibit também mas isso é outra história), e este não é excepção, ultrapassando sem um soluço sequer drop-outs simples ou sucessivos de 1,5 mm associados a distâncias ínfimas entre «espiras». Um bom resultado, portanto.



O mesmo já não posso dizer do sinal digital da saída SPDIF coaxial que o meu caprichoso conversor Chord DAC64 recusou liminarmente (sintoma de jitter excessivo ou RFI?). A saída óptica não revelou qualquer problema. Por coincidência ou não, o Katana até traz no enxoval um cabo óptico (!). Considerando que o Katana é um leitor-CD e não um transporte digital dedicado para o DAC64, a questão não é relevante para si, caro leitor, mas é pertinente para mim. Registe-se, contudo, que a saída digital coaxial do Reymio CDP-777 também não funcionou com o DAC64, e eu acabei no final por lhe atribuir a nota máxima, o que significa que a incompatibilidade com o DAC64 não parece afectar a performance interna do sistema de transporte/conversor.



O «chipset» base é composto por DACs monolíticos Burr-Brown 1732, também utilizados no Rotel RCD 1072 e no Linn Ikemi. O PCM 1732 é um conversor Delta-Sigma multinível, que já está no mercado há uns bons cinco anos (foi lançado em 1999), pelo que são de valor quase arqueológico pelos padrões da electrónica digital. O PCM 1732 tem, no entanto, a particularidade de combinar numa única pastilha a descodificação e filtragem HDCD do «chip» PMD-100 da Pacific Microsonics e a tecnologia de «up-sampling» 24-bit 96/88.2 kHz da Burr Brown.



A Inca Design jogou aqui pelo seguro (o 1732 é um «chip» com provas dadas) ou então comprou em saldos os «restos de colecção» à Texas Instruments...



O Katana oferece saídas simples e balanceadas, com andar de saída simétrico, o que é muito pouco usual a este nível de preço. Ainda menos vulgar é o controlo remoto em madeira, que parece ter sido esculpido à navalha, com o logotipo e os símbolos gravados a fogo. Ora isto, meus amigos, exige uma paciência de... chinês!...



O Katana exibe cinco botões, dispostos em linha horizontal, implantados num painel de topo em elegante meia-lua. Quando pressionados, iluminam-se de uma auréola de delicada luz âmbar. Uma solução esteticamente interessante que obriga a dispor de espaço superior na prateleira para introduzir a mão e accionar os comandos básicos - não convém colocar outro aparelho em cima, portanto. Aparentemente, não tem comutador de «power on/off», até que descobrimos que este foi colocado escondido por baixo, num claro convite a deixá-lo sempre ligado. E não é que soa melhor quentinho...



À VISTA DESARMADA


À vista desarmada, a única diferença óbvia entre o Katana «standard» e o «SE» está nos parafusos da tampa: de cobre no primeiro, niquelados no segundo. Paulo Gomes, da SoundEclipse, distribuidor da marca em Portugal, revelou-me, contudo, que a principal diferença está na fonte de alimentação e também na qualidade dos componentes, nomeadamente os condensadores. A ser assim, é notável como um simples «upgrade» (e uma subida de 50% no preço, atenção!) pode produzir diferenças tão evidentes no carácter e qualidade do som, partindo do princípio que ambos os exemplares são representativos dos respectivos modelos à venda no mercado.



Diz o povo britânico que um pudim pode ter muito bom aspecto mas que só sabemos se é bom depois de o comermos. Comamo-lo, pois.



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