2005

Mano A Mano: Inca Katana Std Vs Se - Parte 2



INSTRUÇÃO DO PROCESSO
Aspecto do sistema em demonstração na Absolute


A instrução do processo musical, leia-se, a audição preliminar dos arguidos, fez-se nas instalações da Absolute Sound/Video, em Lisboa. O sistema complementar, composto por amplificação Audionet PRE/POWER II (teste em preparação) e colunas Vienna Acoustics Beethoven, foi montado pela SoundEclipse. A audição privada (e solitária, sem qualquer interferência de terceiros) foi controlada por mim.


O modelo «standard» soou-me agradável ao ouvido por omissão, ou seja, o «corpus tonal» obtém-se à custa de alguma falta de informação no agudo e de «swing» dinâmico: não inspira grandes tiradas líricas mas também não compromete - deixa-se ouvir sem grandes reparos em audições prolongadas. Depois instala-se a dúvida sobre se os discos e as faixas não soam afinal todos demasiado iguais em função das carências harmónicas, em especial nos extremos do espectro de frequências: o médio-agudo é um pouco abafado, falta-lhe «ar», e isso, aliado a algum grão, afecta a claridade dos sons e a sensação de transparência do excipiente acústico que os envolve; o grave não peca por omissão, está lá e cumpre a sua função, mas tem o pé pesado para o baile. Não é bem «pé-de-chumbo», mas um pouco mais de lentidão e a falta de articulação e definição das notas graves tenderia a tornar tudo no samba-de-uma-nota-só que faz o cérebro «desligar» do processo musical em curso.


A imagem estereofónica é ampla no plano horizontal - se bem que pouco profunda - e não prima nem pela solidez nem pela especificidade espacial e enfoque dos intervenientes em palco. O Katana «standard» parece dar mais importância à floresta que às árvores, algo que, apesar de tudo, não está ainda catalogado como pecado mortal - pelo menos na minha bíblia audiófila. Diga-se em seu abono que o som não é muito diferente do de outros modelos de preço semelhante. Nada de trágico, portanto. Há até quem prefira leitores-CD de carácter «low-profile», que não expõem demasiado as asneiras dos engenheiros de som, nem inundam o ouvinte com informação acústica, dita irrelevante. A minha aparente desilusão deve-se quiçá à elevada expectativa criada pelo excelente aspecto e construção do Katana, e ainda ao facto de ter os ouvidos «estragados» pela audição de «brinquedos» dez vezes mais caros...



MUDANÇA DE TÉRCIO



Quando mudei para o SE, mantendo tudo o resto, incluindo o mesmo par de cabos, nível de som, etc., a diferença entre ambos chegou a ser chocante. Ainda pensei que a Inca tinha optado por subir ligeiramente o nível de saída (um dos truques mais velhos do mercado). Mas o SE não toca só subjectivamente mais alto, tem também mais dinâmica e maior largura de banda.


O Katana SE (ou o que me foi apresentado como tal) é, de facto, um animal diferente: jovem, rápido, alegre e fresco. Talvez tenha um pouco de «frescura» a mais, «for its own good»: parece ter sido afinado um terço de oitava acima do «standard», o que altera significativamente o timbre de certos instrumentos de cordas (os críticos anglo-saxões chamam-lhe «pitch»). Se fosse um gira-discos (e, na prática, até é), eu diria que a velocidade de rotação está acima da norma padrão, ou então é o Katana «standard» que é um pouco lento.



O tom geral do SE é do tipo «up-tilted», isto é, favorece os registos médio-altos, logo a apresentação espacial é algo «avançada» - há quem lhe chame frontal -, e expôe sem rebuço os sinais exteriores de riqueza informativa: ouve-se tudo! Em termos dinâmicos, o STD e o SE são como a noite e o dia, sendo o SE, neste contexto, um dia particularmente solarengo, que torna claro e inteligível o discurso musical. Mais informação nos registos médios significa mais claridade, mais definição, melhor separação instrumental, melhor enfoque e estabilidade dos intervenientes em palco. Ora, os médios influenciam tudo o que está a jusante e a montante: a crista harmónica «adicional» confere um extraordinário recorte aos graves, de tal forma que é quase possível «ver» o trabalho do baixista sem perder uma única nota. O mesmo se pode dizer das percussões, embora aqui a «afinação» acima referida lhes roube em poder o que ganham em tensão, como se a pele estivesse mais esticada. Nos instrumentos de corda, a relação caixa/cordas favorece tendencialmente estas. Desvio por desvio da neutralidade, eu prefiro sentir o calor da carne debaixo da pele macia. O agudo do SE não é muito diferente na textura do «standard», mas, como está mais exposto, torna-se também mais óbvio e aparentemente mais informativo.


Os registos médios do «standard» parecem cobrir com um cobertor macio (e confortável) as fronteiras adjacentes de graves e médios. Neste contexto, os médios do Katana SE são um cortinado de cambraia transparente. Se o seu sistema tem um som frio, o «cobertor» talvez até nem seja uma má ideia...



A JOGAR EM CASA



Já em minha casa, agora com o apoio do sistema residente Martin Logan Odyssey, Krell FPB 400cx, prévios McIntosh MC2200 e Anthipode Phobos (nova versão em teste) e cabos Siltech Classic, as posições relativas dos dois gémeos Katana em contexto diferente mantiveram-se sem alteração.


Se fosse mulher, o «standard» seria uma donzela vista pelos olhos (ouvidos) de um pintor renascentista: pouco dinâmica, rechonchuda, de linhas e musculatura pouco definida. Já o SE é activo e determinado, rápido, seco (talvez em demasia) e musculado como uma garota do «body pump» em ginásio da moda. Falta-lhe densidade interpretativa e profundidade de carácter (de palco também, hélas)? Admito que sim. Mas tem energia de sobra e capacidade de ataque; só não tem a visceralidade, arroubo emocional e capacidade de expôr sentimentos em público, já hoje possível com o estado da arte em leitores-CD. O Katana SE é calculista e frio como uma equação algébrica, ou não fosse o «upsampling» uma operação matemática.
Com discos HDCD da Reference Recordings, o Katana SE transforma-se: o palco ganha amplitude e profundidade, o som ganha textura e corpo, os timbres aproximam-se dos meus valores de referência, o grave perde em tensão o que ganha em extensão, a gama média revela contornos inauditos, o agudo perde o grão. Não tenho explicação plausível para isto, a não ser o facto provável de com HDCD o circuito de «up-sampling» sair de palco para deixar em cena apenas o filtro da Pacific Microsonics.




Não deixe que a minha análise subjectiva o desmotive: vá à Absolute Sound/Video ouvir ambos e compare-os entre si e com a concorrência próxima (o som do SE é muito semelhante ao do Musical Fidelity X-Ray V3). Um deles poderá ser o mais adequado para o seu caso específico, em termos de estética, funcionalidade, carácter do som e compatibilidade com o restante equipamento complementar.



Preço: 1 000 (STD)/1 500 euros (SE)


Distribuidor: SOUNDECLIPSERua da Areia, 1462, 2750-052 Cascais . 918 651 722 . 918 119 779 . root@soundeclipse.com