2005

Ces 2005: Restos De Colecção- Parte 1: À Beira Do Fim?



Instalação Gryphon ou a presunção da superioridade


O highend sempre foi um nicho de mercado, e hoje pouco mais é que tema de tertúrlias audiófilas: válvulas, tríodos de aquecimento directo, transdutores exóticos, etc.



Durante cinco dias, o St.Tropez foi o acampamento da tribo audiófila em Las Vegas, embora este ano muitos dos «orientais» tenham conseguido acesso ao Alexis (que está integrado na CES), à medida que os «ocidentais» abrem falência ou partem para as paragens menos verdes mas muito mais lucrativas do Convention Center onde o número de visitantes é cem vezes superior.



2005 terá sido o último ano do Alexis, logo do St.Tropez, que se alimenta dele como o parasita do hospedeiro. Não porque a ocupação de espaço ou o interesse comercial tenha sido menor, tão só porque Las Vegas é uma cidade em constante mutação, e a administração do Alexis entende que albergar os «maduros» do High Performance Audio já não é negócio numa quadra em que os hotéis duplicam o preço dos quartos.



É um facto que a CES não está aberta ao público em geral, apenas aos profissionais e aos media, mas muito do «entusiasmo» patente nas revistas especializadas online não passa de «scratch my back and I'll scratch yours». Não quero fazer juízos de intenção mas teria sido fácil desmontar a insistência de certos críticos em determinados produtos. O Hificlube defende como é obvio também os interesses comerciais daqueles que o apoiam mas não deixará nunca de manter a liberdade de expressão e de opinião, mesmo que isso signifique elogiar produtos concorrentes que o mereçam.



Dá pena percorrer os corredores do St. Tropez, com os «hóspedes» à porta conversando uns com os outros, à espera que apareça alguém: a maior parte dos sistemas em demonstração tinham um único ouvinte - o próprio demonstrador. Quando vêem ao longe o «Press badge» apressam-se a mandar-nos entrar, no velho estilo «Ó freguês vai um tirinho?...» ou assumem uma pose de guru arrogante como se a opinião de um tipo qualquer que vem de Portugal (onde é que isso fica, na América Latina?...) lhes fosse completamente indiferente.



Meia-dúzia de perguntas certeiras, e eis que mudam logo de atitude ao reconhecerem em mim um «irmão», um membro da tribo audiófila que apenas vem de um país estranho: «it takes one to know one». Há um ritual, uma filosofia, uma linguagem que é comum a todos os audiófilos do planeta: é isso que nos une e garante a sobrevivência da espécie na actual selva de «gadgets» digitais.



«May the force be with you, brother».



É nesta saudação sincera que vou buscar a coragem para atravessar o Atlântico todos os anos e, apesar de alguma incompreensão dos «herejes», que não descortinam onde está a importância de «escrever sobre coisas que ninguém compra», sou portador da boa nova, de uma mensagem de esperança para os leitores do Hificlube:



Enquanto houver bolsas de resistência audiófila no mundo, o highend perdurará no tempo como elemento cultural aglutinador de uma certa forma de estar na vida independentemente dos interesses comerciais em jogo.



O Hificlube não pretende ser mais que um veículo de informação do estado da nação audiófila.


Posto isto passo a divulgar os «Restos de Colecção», tentando colocar alguma ordem no aparente caos, à medida que as bolas vão saindo do saco, não no sentido de «restos», de algo que «sobrou» por não ter valor intrínseco, e sim porque as propostas exigiram algum tempo de reflexão, análise e cultura audiófila, estando eu pessoalmente convencido de que o valor cultural se sobrepõe aqui ao valor comercial.



São sonhos a preço de pesadelos que reflectem a baixa produção e a alegada filosofia de «no-compromise». E também alguma presunção de superioridade que nem sempre tem fundamento nos resultados obtidos: no áudio a fé não move montanhas. Em alguns casos, não todos felizmente, eu diria mesmo que são anarquistas do áudio: são contra tudo o que tenha apelo ou valor comercial em favor de princípios «morais». Ironicamente, é por isso que os produtos se vendem.



Uma contradição entre termos ou apenas um sinal dos tempos?...