2005

Ces 2005: Prêambulo



O MGM ao entardecer, ao fundo o NY


E não me refiro ao jogo. É possível passar uma semana em La Vegas a divertir-se à grande sem jogar: espectáculos de encantar, restaurantes com menus de todo o mundo para degustar, hotéis de espantar. E as gentes na rua, em magotes de máquina fotográfica em riste. Lá dentro, nos hotéis-casino, tanto se vestem na Nike como na Versace: um gordo enorme, de calções e sapatos de ténis usados e sem meias, conversa animadamente com um decote negro numa mesa de blackjack, enquanto o croupier vai dando cartas entre larachas para se fazer à gorja.



Aliás, a gorja e as bichas, já o referi em reportagens anteriores, são instituições locais. Nos restaurantes, quem não faz reserva fica cá fora à espera de mesa, enquanto vê retardatários a passarem-lhe à frente com uma nota de 20 estaladiça na mão, que faz abrir portas automaticamente qual bilhete do metro. Quando chega finalmente a sua vez, já tem uma dor no estômago do nervoso da espera. Eu, como já sei o que a casa gasta, faço reservas para a semana toda em vários restaurantes.

Come-se muito bem em Las Vegas: os buffets do pequeno almoço de hotéis como o Bellagio e o MGM são bíblicos. Para jantar, há de tudo nos bons restaurantes, incluindo robalo do Chile, grelhado e regado com vinho de qualidade.



No final da refeição, temos outra provação: quanto dar de gorjeta? Se der 10%, o que é muito bom pelos nosso padrões, eles agradecem como se não tivéssemos feito mais que a nossa obrigação. Se subir para os 15% eles acompanham-nos até à porta com sorrisos e vénias q.b, e os outros comensais olham-nos com inveja uns; com ódio outros, porque não tinham intenção de dar nada e agora ficam numa situação delicada perante o nosso exemplo de altruismo e solidariedade social. Sim, porque no país mais rico do mundo, vive-se de mão estendida: somos nós que lhes pagamos os salários...



Depois do trabalho, despida a armadura de jornalista, gosto sempre de gozar a cidade aproveitando as férias: as ruas iluminadas, os restaurantes, os espectáculos...

KA, assim se chama o novo espectáculo do Cirque Du Soleil, de temática mitológica chinesa, é um deslumbramento para os olhos e para os ouvidos, com som surround (as colunas de efeitos estão individualmente montadas em todas as cadeiras da sala) e o palco é uma obra prima da engenharia mecânica. Depois, janta-se sushi e sashimi no restaurante japonês Shibuya, e para terminar uma noite perfeita arrisca-se algum na roleta ou bebe-se um copo numa discoteca com música ao vivo.



O trânsito em Las Vegas em época de «convention», como eles chamam à CES, é caótico. Também há bicha para os táxis, claro. Bichas enormes que podem levar ao desespero os neófitos, mas que estranhamente se movem com rapidez dirigidas pela batuta dos porteiros dos hotéis, que nos abrem a porta e perguntam para onde vamos com o intuito declarado de nos sacarem o dólar da ordem. À porta dos bons hotéis, os porteiros mais expeditos fazem centenas de dólares por dia, se contabilizarmos que em cada cinco pessoas pelo menos uma dá gorjeta e o corrupio é constante.

Este ano para fugir ao trânsito experimentei a grande novidade: o monocarril. Nevava em Las Vegas, e estava um frio de rachar na estação aberta do MGM. Esperei uns 10 minutos e, quando já estava bem congelado, entrei na carruagem com os pés no ar suspenso na avalanche de gente. Como os tipos há minha volta eram enormes, não vi nada. E só soube que tinha chegado porque sairam todos, deixando-me finalmente assentar os pés no chão.



Pista de snowboard patrocinada pela Motorola à porta da Centro de Congressos


Na estação do «Convention Center», chovia agora. A chuva não tem tanta piada e molha mais que a neve. Também havia chuva de gente: mais de 140 000 pessoas dizem as estatísticas. Cá fora, havia um rampa de snowboard com publicidade à Motorola.

As principais multinacionais: Microsoft, Philips, Samsung, Sanyo, Sony, Toshiba, etc. chegam a pagar 1 a 2 milhões de contos (eu disse: contos!) pelos gigantescos stands onde meninas robotizadas nos oferecem folhetos, «merchandising» e outras itens que nos enchem os sacos e nos derreiam as costas até ao fim do dia.



Se um homem não parar para reflectir, pode entrar em parafuso. Eu levo um plano que nunca cumpro: prefiro andar ao acaso pelas zonas dedicadas ao áudio e ao home theater, tradicionalmente mais calmas, e parar nas capelinhas para fazer fotografias e conversar um pouco ou assistir a uma demonstração. Este ano fiz mais de 500 fotografias. Muitas delas irei partilhá-las convosco ao longo desta e da próxima semana, portanto mantenham-se atentos e visitem o Hificlube diariamente.



Ainda pensei começar a editar logo a partir de Las Vegas (na Press Room, além do almoço, bebidas e outros mimos, há internet de banda larga e computadores à disposição), mas na véspera já havia sites com tanta informação e fotos exclusivas que eu achei por bem não entrar numa corrida que nunca poderia ganhar. Quero acreditar que os meus leitores me lêem também pelo meu estilo pessoal, e não apenas porque cheguei primeiro que os outros. Além de que as minhas fotos são melhores que as deles...



Quem como eu vai a Las Vegas todos os anos, acaba por ter a inevitável sensação de déja-vu. Por vezes, pergunto-me: mas o que é que andas tu aqui a fazer outra vez? Ou como aquela americana que vendo um amigo a passear no Alexis disparou alto e bom som: «Tu por aqui? Ou vieste à Convenção da Pornografia e andas no áudio só para disfarçar?...».

Sim, porque simultaneamente se realizou um Festival Porno em Las Vegas. E as artistas passeavam-se pela cidade de airbags insuflados...


Perspectiva da área de Home Cinema (ou Theater, como preferem os americanos)


Las Vegas muda mais depressa de rosto que uma «hooker» de roupa. E a feira não é excepção - refiro-me ao rosto e não à roupa claro. Há sempre coisas novas para ver além das clássicas válvulas, giradiscos e colunas de corneta entre outras loucuras esotéricas e comercialmente inviáveis, que nos divertem e não nos importamos de rever todos os anos como aos velhos amigos fiéis - fiéis à música também.



Eis alguns exemplos de novidades que me apanharam desprevenido: eu sabia que a Krell ia apresentar o Trio, o novo integrado com sintonizador digital e completar a linha Resolution com colunas de parede, mas já não sabia que ia apresentar novos prévios e amplificadores Evolution de referência absoluta; ou que a Martin Logan tem uma nova coluna audiófila de seu nome Summit depois de andar nos últimos tempos a investir no AV; assim como a nova linha Domus da Sonus Faber e a Profile da JM Lab; ou que a Audiolab renasceu sobre as cinzas da TAG.



É isto e muito mais que vou partilhar convosco a partir de hoje. E espero contar com o vosso apoio e os vossos sempre importantes comentários e questões.