2004

Yg Acoustics Anat Reference: A Boa Nova



YG Anat Reference


Não vou discutir aqui se são as melhores do mundo. Provavelmente não são. Mas uma coisa eu posso garantir: não são as mais bonitas. Se a ideia era mudar a imagem bélica de Israel não conseguiram: as Anat Reference parecem ter sido construídas pela indústria de armamento israelita. Os «subwoofers» são sarcófagos de metal com parafusos à vista, sobre os quais se colocam as colunas propriamente ditas, também em metal. O conjunto é o pesadelo de qualquer audiófilo português, pois teria de enfrentar a ira da esposa se tentasse acomodá-las em casa à revelia sem negociações prévias ou cedências em áreas sensíveis, como passar a ouvir música na cave e deixá-la comprar uma BangOlufsen só para ela.



MADE IN...


Curiosamente, só o conceito e a construção são israelitas: o espesso alumínio aeronáutico das caixas é suiço, os componentes electrónicos dos filtros são alemães, os altifalantes são fabricados pelas dinamarquesas Scan-Speak e Vifa e o amplificador dedicado dos «subwoofers» é holandês. Um autêntico Euro 2004! Não há nada de origem portuguesa, claro, mas isso apenas porque não se trata de futebol, ou outro galo cantaria (afinal perdemos!...).


A internacionalização do produto é tal que Yoav Gonczarowski, o simpático e pragmático jovem filho do Criador (refiro-me ao pai dele) que fez questão de as demonstrar em audição privada, confidenciou-me que se o potencial importador nacional das Anat fizer questão, por razões comerciais, políticas ou outras (we are used to it, disse ele ), elas podem ser exportadas com a chancela «Made in Germany»...



O IMPERATIVO ACÚSTICO


O objectivo último é a qualidade do som e não a estética, defende Yoav: «Perguntam-nos muitas vezes como soam as Anat Reference. A nossa resposta é sempre: não têm «som» nenhum; limitam-se a transformar um sinal eléctrico à entrada em ondas de pressão sonora sem alterar o conteúdo musical de forma significativa. Nós não fazemos «voicing» para as tornar mais ou menos «simpáticas», porque consideramos que o som original gravado no disco é o único que interessa para a verdadeira fruição do acontecimento musical. Nos quatro anos de desenvolvimento do projecto, houve um momento em que cedemos à pressão da opinição pública e tentámos torná-las mais bonitas e domesticamente aceitáveis com painéis laterais de madeira natural. Concluímos que isso afectava a qualidade do som. As Anat não são «feias» por opção, são-no por imperativo acústico. As caixas de alumínio não armazenam energia como a madeira e garantem uma muito melhor definição dos sons graves e um som mais rápido e imediato».



AUDIÇÃO PRIVADA
Yoav Gonczarowski e as Anat Reference


Yoav teve o cuidado de me «servir» faixas simples de um disco-teste, isto é, sem grandes efectivos em palco: voz e mais um ou dois instrumentos. A voz da norueguesa Kari Bremnes, cantando em inglês, surgiu perfeitamente focada no centro do palco sonoro, inteligível (apesar do sotaque), natural, pontuada pelo ribombar profundo de poderosos tambores tipo Kodo, sem que os graves interferissem na claridade dos médios e agudos. A comparação entre as guitarras de cordas de metal de Larry Conklin e de nylon de Laurindo de Almeida expôs a nu as características de ambos os intrumentos. Mas foi o rosnar dolente do contrabaixo de Ray Brown atacado com arco, acompanhando Laurindo de Almeida numa surpreendente versão de Serenata ao Luar, de Beethoven, que me deixou rendido, e me levou a publicar o apelo de Yoav para que o ajudasse a encontrar um distribuidor em Portugal.


Nestas circunstâncias, o som era de facto excelente e reminiscente do som das Krell LAT1, o que não é surpresa: os altifalantes são os mesmos e as LAT também têm caixas em alumínio sólido. Mas enquanto Dan D'Agostino da Krell se preocupou minimamente com a estética, a YG Acoustics optou pela banda larga em detrimento de uma mais ampla aceitação doméstica.


Num país onde acontecem as coisas mais surpreendentes (agora refiro-me ao nosso país), quem sabe não haverá por aí alguém com fé bastante para importar esta «relíquia» da Terra Santa nem que seja inspirado por Eça com o dinheiro de uma tia beata. Pelo preço que pedem por ela (35 000 euros) devíamos ouvir a voz de Deus como Abraão, passe a blasfémia. A mim pareceu-me ouvir o arcanjo Gabriel a anunciar a boa nova: a de que um dia na Terra Prometida todas as fábricas de armamento serão fábricas de equipamento de som...


Contacto: Yoav Gonczarowski, Managing Director, YG Acoustics Ltd. www.yg-acoustics.com