2004

Tamanho Não É Argumento: Sony S-master Card Size Amp



Sony S-Master card size amp: 100W na palma da mão


Diz-se dos audiófilos (do sexo masculino por larga maioria) que revelam uma tendência quase obsessiva para associar a potência dos seus amplificadores à performance sexual. Daí que se comprem amplificadores cada vez maiores e mais potentes, mesmo quando 20W chegam para as encomendas no actual habitat urbano onde se vive paredes meias (e meia parede aqui refere-se também à espessura da dita) com dezenas de outros condóminos.


Mais potência significa também maior dispêndio de energia, até porque a opção do audiófilo puro e duro incide frequentemente sobre amplificadores de Classe A, que pesam cinquenta quilos, têm nomes másculos e dissipam mais de metade da energia que consomem sob a forma de calor e não de música. Alguns até têm ventoinhas de arrefecimento!...


O mais curioso é que, tal como acontece por vezes no reino animal, os audiófilos excitam-se exibindo a potência musical, não às fêmeas, mas aos outros machos:

«Põe-me os ouvidos nisto, meu!, ouve-me este baixo...»
.


A descrição abaixo, que escrevi a propósito da audição das colunas BW801 alimentadas por uma bateria de amplificadores Chord, é típica do imaginário audiófilo. Em certa medida, é o género de experiência «sexual» com que todos eles sonham:


BW801 Nautilus


«Têm aquela ambiguidade entre o divino e o diabólico que as torna tão próximas de nós humanos. Podem soar sublimes e delicadas - as vozes elevando-se ao céu em suspensão; ou violentas e autoritárias - os metais dilacerando a carne, as percussões exorcizando no seu frenesim os males de alma que nos afligem. Os agudos cantam hossanas nas alturas, enquanto os graves descem ao inferno, chafurdando sem remorso na lava incandescente da última oitava perdida, lá onde muitos «subwoofers» não ousariam sequer entrar. As BW 801 Nautilus respiram, sopram, arfam, com uma sensualidade que nos prende desde o primeiro sussurro, insuflando no ouvinte a paixão e o desejo de posse, mas também o respeito e o temor reverencial perante a evidência da superioridade. É isso: chegam a assustar, tal a demonstração de poder e dinâmica. Os metais rasgam com um realismo atroz o espesso tecido percutivo a golpes violentos de cutelo e não com as finas e delicadas incisões cirúrgicas a que o «hifi» nos habituou; os violinos desenham no ar, com movimentos certeiros de arco, um palco amplo e profundo, acomodando num abraço solidário os outros intervenientes, sem desrespeitar a sua individualidade tímbrica, e iluminando-os a todos por igual».

As mulheres ligam pouco ao «músculo» de um sistema, preferem a pureza tímbrica, a clareza do enunciado, a resolução dos pequenos detalhes, a musicalidade. Do mesmo modo que detestam amplificadores enormes e feios, que ocupam muito espaço, aquecem a sala e gastam demasiada electricidade, além de que rompem as meias quando se tropeça neles. Isto é uma caricatura, claro. Eu tenho algumas leitoras fiéis que, por opção própria ou influência marital, se dedicaram aos estudos audiófilos e discutem temas complexos com o à-vontade de quem sabe que ouve melhor que os homens com os ouvidos que Deus lhes deu. Só não entendem o porquê de tanta excitação.


De facto, a audiofilia é uma ritual machista (no bom sentido, claro) e, quando eles marcam uma reunião lá em casa, elas afastam-se discretamente, depois dos cumprimentos da praxe e de uma ou outra opinião delicada a pedido do marido ou das visitas sobre a qualidade de som de um determinado disco raro de música chinesa que alguém se lembrou de trazer para testar a transição do médio-agudo para o agudo e os níveis higronómicos do ar no estúdio de gravação. Isto depois de ele ter passado toda a manhã a carregar com caixotes pesadissimos escada acima escada abaixo e a resmungar entre dentes como se fosse uma questão pessoal, um ponto de honra:

«Logo à tarde é que eles vão ver quem tem razão, como se «bitstream» pudesse ser melhor que «multibit», colunas de caixa melhor que electrostáticas, CD melhor que SACD, transístores melhor que válvulas, CD melhor que LP ou viceversa...».

Os temas variam conforme as sensibilidades e as tribos a que pertencem.


As audições consistem em intermináveis comparações dos mesmos trinta segundos da faixa tal com os cabos tal e tal, a que se segue uma dança de leitores-CD, prévios e amplificadores, que ora entram ora saem de cena, sem falar nas colunas enormes que montadas sobre bicos de aço dão cabo do soalho. Há até quem garanta que não há memória de, num ritual audiófilo, alguma vez alguém ter ouvido um disco do princípio ao fim. E há mesmo quem vá mais longe: eu já nem queria um disco todo, ao menos uma faixa inteira. Facilmente se conclui que a paixão pelo som não tem necessariamente a ver com a paixão pela música. Do mesmo modo que sexo não é sinónimo de amor. Por fim, esquecem-se até do som (há muito que esqueceram a música) e lá ficam à conversa sobre watts e decibéis com milhares de euros de equipamento no modo stand-by.


Se ao menos fosse possível ele ter todos os watts que quer sem ocupar tanto espaço na sala, sonham elas.
As entranhas do S-Master


A Sony propôs-se dar resposta a uma das grandes questões que atormenta a humanidade: será que o tamanho interessa? E concluiu que não. Para isso concebeu um amplificador de 100W (cem!) que cabe na palma da mão. Servindo-se da tecnologia de amplificação digital S-Master (abra e vá a Magazine, depois Technology), reduziu-o à mínima expressão: o «Master Card size Amplifier» é tão pequeno que se confunde, não com um cartão de crédito, lá iremos, mas com uma cigarreira daquelas que só levam seis cigarros para ajudar a perder o vício.


Agora atenção, um pouco de água na fervura: não é portátil (liga-se à corrente de sector e não funciona a pilhas) e... não está à venda! Por enquanto, não passa de um exercício académico para provar as potencialidades da tecnologia S-Master. Mas aproxima-se o dia em que tamanho vai deixar definitivamente de ser argumento, e elas vão poder proferir a frase fatal numa reunião de audiófilos: o meu é mais potente que o teu!...


E dito isto sacam de um caixa-de-pó-de-arroz com 100W de dentro da mala...


Nota: a mão pertence ao Rui Vicente, da Sony