2004

Hdtv: Som De Estádio



Estádio do Dragão (foto enviada por uma adepta portista)


Em «Lugar Cativo» falámos da importância da imagem num jogo de futebol. Num jogo visto pela televisão, entenda-se. Hoje vamos debruçar-nos sobre o som. O que nos chega é quase sempre monofónico e não ilustra o que se passa no estádio. Não vai além do comentário bacoco e da gritaria indefinida com uma ou outra obscenidade a saltar do anonimato no pior momento: logo quando estamos a tentar explicar às crianças o que é o «fairplay». De resto, pouco mais é que um som a «preto-e-branco», leia-se monocórdico, com uns chatos a chamar-nos a atenção para aquilo que todos estamos a ver, e que nós temos de aturar sob pena de perdermos também o «som ambiente». Não confundir com a função «Stadium» que, nos amplificadores AV, consiste em introduzir um atraso nos canais traseiros de forma a aumentar a reverberação e dar uma ilusão de espaço. Assim se vendem muitas «aparelhagens» da treta...


Quem já foi a Alvalade, à Luz ou às Antas, perdão, ao Dragão, sabe do que estou a falar: os estádios têm um som próprio como as salas de concerto. E tal como é possível distinguir o Concertgebouw, de Amsterdão, do Lincoln Center, de Nova Iorque, o adepto praticante reconhece imediatamente a assinatura acústica do seu estádio melhor ainda que a da Igreja da sua freguesia, onde há anos não reza o terço.
Mas na nossa televisão não: tudo soa como uma cascata de ruído branco em pano de fundo. Às vezes, oiço tanto entusiasmo e vejo tão pouca gente nas bancadas que chego a pensar se os gritos não serão enlatados como as gargalhadas das «sitcoms». Ou seja: um tipo gasta uma pipa de massa num plasma para «ver» tudo o que se passa no estádio e continua a «ouvir» como se continuasse com o rádio de pilhas colado à orelha.


A empresa belga Euro1080 (1080i) promete-nos não só o Euro 2004 em imagens de alta definição mas também o som integral em Dolby Digital 5.1. Pela primeira vez vamos ter a sensação de estar dentro do estádio, mesmo não estando, apenas porque não temos o privilégio de pertencer ao círculo próximo do ministro Arnaut, que é quem gere as borlas para os políticos: os mesmos a quem são distribuidos os bilhetes para os concertos de música clássica e depois deixam os melhores lugares às moscas com um papel na cadeira onde se lê «reservado» - e nós, melómanos, ficamos sentados de lado e cá atrás. Mas desta vez não faltam, ou não tivessem trocado o Vianna da Motta pelo Eusébio. E nós vamos «lá estar» com eles e com outros milhares de pessoas a gritar à nossa volta. A «onda» vai envolver-nos ao ponto de nos levantarmos e gritarmos também: uuuahahah...centro, frente-direito, traseiro-direito, traseiro-esquerdo, frente-esquerdo, centro... um círculo completo; e o subwoofer a bombar com o bater frenético dos pés na gigantesca estrutura de cimento armado...bumbumbum...oléoléoléolá...5.1 canais de som! Oxalá sejam também 5 a 1 em golos (para nós, claro!).


Vai precisar de um amplificador AV, cinco colunas e um subwoofer. Perdido por cem, perdido por mil: já que investiu uma milena (de contos!) no plasma aplique outra no som «surround» e faça jus ao euro...duas milenas e quatro.


Há dezenas de marcas e centenas de modelos. Tantos que eu precisava do DN inteiro só para os catalogar. Todos garantem nas brochuras que são melhores que os outros mas aqui para nós são quase todos feitos no mesmo sítio (algures no Oriente) com os mesmos componentes e pela mesma mão de obra (barata). Só os especialistas em marketing das marcas é que são ocidentais (e caros) - daí a diferença de preços. Mas há uma regra muito simples para saber quais são os bons: não deve ouvir o som do estádio a partir de cinco pontos distintos no espaço à sua volta mas num círculo completo de que você é o centro.


Para mim a principal vantagem do futebol com som 5.1 reside no facto de a locução (os comentários dos especialistas) ser normalmente alocada no canal central. Deste modo é possível desligá-lo pura e simplesmente sem perder o som ambiente. É que eu prefiro ouvir uma obscenidade a uma asneira...


Nota: Os comentários da emissão em HDTV não estão a cargo do inefável Gabriel nem daquele comentador da Sport TV para quem tudo é «excelente» mesmo quando erra o alvo. São comuns a toda a Europa e, hélas, em língua inglesa.


Para mais informações: www.euro1080tv