2004

Audioshow 2004: Em Busca Da Imagem Perdida - Parte 1



São muitos os que todos os anos me aliciam para organizar um certame onde seja finalmente possível provar in loco que a crítica áudio não são apenas palavras vãs; que a subjectividade tem fundamentos objectivos, quer se trate de LP vs CD vs SACD, de válvulas vs transístores, de Classe A vs Classe AB vs Classe D, de cabos assim ou assado, ou que o «jitter» se ouve e não é só uma palavra feia.


Se é verdade que as diferenças existem, elas devem ser óbvias para todos. Ou para a maior parte, pois há casos perdidos de pessoas que, não sendo surdas, são-no apenas porque se recusam a ouvir. Outros há que ouvem pelo diapasão do juízo prévio, valorando ou negando a evidência da qualidade, por interesse, rancor, simples teimosia ou estupidez natural.



No Audioshow 2004, ouvi exclamar em voz alta: «Grande som surround!» a propósito de um supersistema que tinha acabado de reproduzir um vídeo em dois canais, apenas porque o ouvinte se via rodeado de colunas.


E a famosa sala da Digisom, na Escola Superior de Educação, uma das mais gabadas na altura, teve as Martin Logan Monolith a tocar durante dois dias fora-de-fase, deixando em êxtase dezenas de audiófilos. Quando chamei a atenção para o problema e este foi corrigido, houve quem afirmasse: «gostava mais como estava antes, tinha mais «ar», mais espaço, mais ambiência e o grave estava mais leve e solto!...».

Esse «crime» já prescreveu, por isso o refiro aqui. Mas há outros de igual calibre bem mais recentes. Eu próprio já fui algumas vezes induzido em erro. Acontece-me o mesmo em restaurantes que não conheço. Por isso, quando me pronuncio sobre um sistema, que ouvi por breves instantes, sentado de lado ou mesmo em pé, corro um risco assumido.



Ken Kessler, e bem assim quase todos os outros críticos mundiais, limita-se a enumerar e a descrever as novidades, e recusa-se a comentar o som de equipamentos em «shows» para não ter que engolir sapos mais tarde. O único que teve coragem para comentar o som das Stradivari, quando da apresentação mundial em Arcugnano, fui eu. Ken e Martin também presentes só se pronunciaram depois de as ouvir em casa. Mas eu prefiro ouvir sem rede mesmo que, de vez em quando, dê um tombo dos grandes. Os leitores merecem que eu me coloque na mesma situação que eles. Quando verifico que errei, corrijo e peço desculpa. É essa a grande vantagem da (re)escrita online.



O AV DO NOSSO (DES)CONTENTAMENTO
As crianças são os consumidores do futuro


Há quem afirme que uma boa imagem vale mais que mil sons. O sentido da visão prevalece sobre a audição, e com um ecrã em frente dos olhos as pessoas comem tudo o que lhe põem no prato: não é assim que levamos os miúdos a comer a sopa? As crianças são adoradoras de imagens e são eles os clientes do futuro. Só mesmo os bebés de tenra idade preferem os sons. Os audiófilos são bebés grandes. São como os membros do Priorado do Sião, andam à procura do Graal, são poucos e reúnem-se em fóruns quase secretos com rituais esotéricos.
Artaudio (Rotel/BW), se as paredes falassem...


Não admira pois que empresas com responsabilidades financeiras e sociais (quem tem os salários para pagar não pode ir em cantos de sereia) apostem forte naquilo que o mercado lhes pede: AV.


Assim as críticas do audiófilos ao «som surround» podem ser muito pertinentes mas, quando chega a hora da verdade, são eles os primeiros a investir no «AV-surround»: sabe, a mulher, os miúdos, os amigos dos miúdos, a minha sogra, que é surda...
Operaudio:Onkyo, Energy, Jamo
Raio de Som: setupAV Sony
Mercaudio: Acoustic Energy/Myryad


No Audioshow houve (do verbo haver) quem apostasse no AV à porta fechada, de porta entreaberta e com a porta escancarada, ou até em espaço aberto. A porta fechada ganha por razões óbvias que incluem a espera e o ambiente de natural expectativa que se cria. Além de que no escurinho do cinema a imagem é sempre melhor!



AJASOM: Audio Analog/Audio Physics



Se eu não conhecesse a qualidade dos equipamentos e o carinho e engenho posto na sua construção, teria ficado desiludido. A imagem estava deslavada devido à luminosidade imposta pelo comércio de discos no espaço contíguo. E o som (pelo menos este não sofria de baixos ribombantes) estava envolto num halo de reverberação dura (das duas vezes que por lá passei, a sala estava quase vazia). Mas soou limpo, talvez um pouco explícito demais.



ESOTERICO/INTERLUX: NAD/Wharfedale/Chord


Quando nem o Carlos Henriques consegue «domar» as salas do ISCTE, está na altura de procurar um espaço (um show?) alternativo. Um sistema relativamente acessível (as colunas Wharfedale Opus têm acabamentos fabulosos para o preço) com um visual agradável e um som não-ofensivo o que, no departamento AV do ISCTE, é um elogio. Fica feito aqui.



EXAUDIO: ATC

João Paulo veio do áudio profissional para o áudio doméstico mas trouxe consigo a ATC, uma marca de monitores de estúdio profissionais muito utilizada pelos engenheiros de som no trabalho de mistura. Ouvi o B.B.King enquanto conversava e achei o som sólido e controlado (incluindo os graves!...), típico de colunas activas.


Continua (ver Artigos Relacionados: Em busca da imagem perdida - Parte 2)