2004

Audioshow 2004: Clube Do Audio




JoeKool e Vermeer, heróis acidentais


«Vermeer» e «JoeKool», dois jovens apaixonados pelo áudio highend, não resistiram à tentação do «diabo» e passaram-se para «o lado de lá»: de «críticos» eventuais sob pseudónimo passaram a «criticados» reais de cara descoberta; o que, convenhamos, revela coragem e convicções fortes.

Neste filme da série B, o «diabo» é interpretado pelo simpático António Almeida, da Ajasom, que na vida real é um espírito aberto e pragmático de quem tenho a honra de ser amigo há muitos anos. Aliás, tal como os nossos heróis, por quem tenho sincera estima e admiração, o que só torna ainda mais penosa a dura tarefa de os criticar.


Tudo porque, no fórum Clube do Audio, de que são membros, onde se apregoava a independância total em relação ao «sistema» de que os distribuidores e a crítica institucional fazem parte, se veicularam contra estes opiniões nem sempre as mais abonatórias, «massacrando» com sistemática persistência os resultados acústicos obtidos pelos primeiros em edições anteriores do Audioshow, ou insinuando mesmo falta de isenção dos segundos escudados numa pretensa superioridade moral que cai assim por terra.
Sala do Clube do Audio: Reimyo/Nagra/Avalon


António Almeida utilizou uma velha técnica de acção psicológica: se não os podes
vencer junta-te a eles. E deu-lhes uma «cenoura» saborosa: «a free walk on the wild side», uma sala no Audioshow no valor de alguns milhares de euros, que eles não enjeitaram. Com uma condição: ele fornecia o material em regime de exclusividade, eles a mão-de-obra. Assim juntava o útil ao agradável: poupava na mão-de-obra especializada, que não abunda, e ficava ao abrigo das críticas.


Tal como o aprendiz de feiticeiro, ambos se esqueceram que não se pode jogar com as forças da natureza.


Vermeer e JoeKool porque foram ingénuos: as leis da física ditavam à partida a impossibilidade de se conseguir «um bom som» numa sala imprópria (como todas as outras, aliás, com excepção do auditório) para a nobre função de servir de palco à actuação de um notável conjunto de componentes seleccionado por outrém;

António Almeida porque não antecipou o inevitável: eles não deram o corpo pela alma.

Vermeer foi o primeiro a admitir o fracasso acústico da sua empreitada (ver Correio), demonstrando que não há machado que corte a raiz ao pensamento.


Moral da história: nem sempre os fins justificam os meios.

Nota breve: E daí talvez, a avaliar por alguns elogios que ouvi...



MÚSICA MAESTRO

Setup final já com os Nagra PMA Pyramid


Passei por lá três ou quatro vezes, a última das quais já com as «pirâmides» da Nagra em actividade, que controlaram melhor os graves à custa de uma imagem menos tridimensional. Nunca fiquei o tempo suficiente para poder ter uma opinião isenta de falibilidade. Ouvi o sistema de lado, sentado e de pé. De todas as vezes deu o que é costume: a famosa «marreca» ISCTE centrada nos 50Hz, que não chegou para destruir a promessa de um bom som: o cérebro tem a estranha capacidade, se não de «eliminar», pelo menos de tentar «ignorar» o que o faz sofrer. É por isso que normalmente achamos que o nosso sistema é tão bom: habituamo-nos a ele...


Por trás daquele bum-bum proeminente, do «ill-defined bass», do excesso de peito, nas vozes masculinas (pobre Zeca! malheureux Brel!), dos registos médios retraídos e envoltos num halo duro de reverberação curta (slapping echo) a que se adicionava um insuspeito gosto discográfico por ambiências de catedral (artificiais e naturais) e de agudos sem chama (os materiais difusores e absorventes têm sobre os graves o efeito de um mosquito no dorso de um elefante, o mesmo não se pode dizer das frequências com baixo comprimento de onda), que afectavam irremediavelmente os timbres e o enfoque estéreo, havia ali duas pessoas corajosas, honestas, simpáticas, que sabiam receber sem sobranceria ou arrogância, que nunca viraram a cara perante as adversidades, com verdadeiro espírito de missão, e que conseguiram o milagre de melhorar gradualmente a qualidade do som ao ponto de o tornar agradável aos meus ouvidos.

Só não lhes tiro o chapéu porque descobria a careca...


Sugestão: Montem este mesmo sistema na Absolut Sound, com o patrocínio da Ajasom (perdidos por cem...), e provem que na vossa prestação só havia uma coisa errada: a sala.


Nota: Mas só depois de eu o testar (está aqui todo a meus pés, incluindo as pirâmides!, com excepção das colunas...). E não foi preciso vender a alma ao diabo. Quem ouve por último...