2003

Viva Portugal!



Reprodução do artigo publicado no DN/SONS sobre a presença das Harpa em Las Vegas, com Luís Pires e João Gonçalves na foto


NÃO PERDIA ISTO POR NADA DESTE MUNDO.
Só outra barbaridade fundamentalista me impediria
de estar presente este ano em Las Vegas,
para assistir ao êxito total da apresentação
das Harpa, que já tinham sido capa da reportagem
no Audioshow de Lisboa.


Luís Pires e João Gonçalves, da GP Audio-
Video, os padrinhos destas notáveis colunas
de som, estavam eufóricos. E os progenitores,
José de Sousa e Carlos Matos, não cabiam
em si de contentes.


Luis Pires, normalmente introvertido, exibia
um modesto sorriso de orelha a orelha
sempre que a sua célula de leitura Benz LP
era preferida pelos visitantes a uma Clearaudio
dez vezes mais cara. E juro-lhes que não
foi efeito do Porto ou do Moscatel de Setúbal
com que recebiam os visitantes mais ilustres,
porque as doses foram judiciosamente
racionadas. Tal como o «Alvarinho» e o tinto do
Douro, escondidos debaixo do balcão para
acompanhar os «fumados».


Quando muito terá sido da «bica» genuína
(levaram de cá o café!), que teve sobre os
indígenas o impacto da pimenta na Europa do
tempo dos Descobrimentos. Por falar em pimenta,
o café na América não passa de águade-
lava-cus. E muito do som que por lá se
serve sabe tradicionalmente a água choca. Ou
Colombo não estivesse ao serviço de Espanha
quando lá chegou, sem saber onde estava.
Contudo, quando provam (ouvem) do que é
bom, os americanos gostam - e voltam! Os
portugueses, claro, volta e meia estavam lá
caídos: o Delfim, da Delaudio, o João Pedro,
da Digisom, o João Mendes, da Subsónica e
o Paulo Machado foram clientes assíduos.
Quando a pátria chama (aquele cheirinho a
café e a som analógico no corredor!...), a concorrência
fica à porta.


«Houve americanos que vieram cá várias
vezes, e outros trouxeram até discos e amplificadores
a válvulas debaixo do braço só para
ouvir como as Harpa se comportavam. Ora,
isto mostra um interesse genuíno no produto»,
comentou Luís Pires. E continuou: «Para facilitar
o transporte optámos pelo modelo Quarteto.
O topo de gama Lusitana levantava alguns
problemas logísticos e de preço. Não
convém ser demasiado ambicioso, ainda que
neste país o dinheiro abunde».


Mas a mensagem passou. E a música também,
mesmo sem o «supertweeter» Visaton
da Lusitana. O som estava coeso, cheio, natural.
Ouvi no Alexis marcas bem famosas a desafinar
nota após nota. E as múltiplas propostas
chinesas tinham quase todas o som assim,
digamos, em... bico. As Harpas soaram sempre
afinadas, polidas, educadas. Estas raparigas de
Setúbal vão longe. E não carregam nos erres.
«Temos já imensos contactos para comercialização
tanto das colunas como da célula.
Valeu a pena o esforço», resumiu assim o
João Gonçalves a opinião generalizada da
equipa nacional. Não dizia Pessoa que tudo
vale a pena? E com almas destas...


Pela minha parte, fiz tudo o que estava ao
meu alcance para promover a presença portuguesa
em Las Vegas. Escrevi até um pequeno
texto em inglês para a «Stereophile» a
propósito do sucesso das Harpa no Audioshow
de Lisboa. «Hélàs», razões de espaço impediram
que se concretizasse a desejada publicação
na edição de Fevereiro, distribuída gratuitamente
na CES. John Atkinson já garantiu,
contudo, a publicação na edição de Março
desta influente revista americana. Infelizmente,
a revista não tem aparecido nas bancas
em Portugal. Vou pedir ao John para colocar o
texto também no site www.stereophile.com.
De resto, só me faltou levar o crítico Jonathan
Scull ao colo até lá: «Mais oui, José, I promise
to go there», disse ele. Não sei se apareceu.
Mas pelo menos Ken Kessler cumpriu a
promessa e esteve presente, mostrando-se interessado
e atento, segundo Luís Pires.


É mais difícil entrar neste mercado que entrar
no Céu, e há no mundo da altafidelidade
interesses tão ou mais poderosos que na baixa
política.


Mas com chá (perdão, café), simpatia e,
fundamentalmente, paixão é possível mover
montanhas. E eles moveram-nas, caramba!
(Bom, admito que o «Alvarinho» pode ter dado
uma ajuda...).


De uma vez por todas, temos de acabar,
em todas as áreas de actividade, com esta
história de sermos os coitadinhos da Europa.
Metam mãos à obra e vão ver/ouvir. Contem
comigo!