2003

Tentação Absoluta



Crise, qual crise? Era o título de um dos álbuns dos Supertramp. A pergunta aplica-se igualmente ao áudio. Nos E.U.A., depois do embate inicial, literalmente, do 11 de Setembro, em que se verificou uma retracção no consumo, nunca se vendeu tanto equipamento de áudio e vídeo como agora. Talvez porque as pessoas viajam menos, logo têm de se entreter com qualquer coisa em casa. Em Portugal, que está de tanga, a dar crédito às palavras do nosso primeiro, deve passar-se o mesmo, porque, sendo Lisboa uma cidade onde já não faltava nada em termos de high-end (hifi de ultra alta qualidade), abriu ali na Pinheiro Chagas, 17, a Absolut Sound/Vision, uma nova loja que pouco fica a dever às suas congéneres de Nova Iorque - até no nome. E no atendimento. Absolutamente.


O lema é: o cliente tem sempre razão, mesmo que seja possível provar-lhe que está enganado, porque a possibilidade de ouvir/comparar quase tudo o que o mercado tem para oferecer existe ali. É como na farmácia - e se nós, audiófilos, somos doentes! Algumas pessoas chegam a pensar que eu sou um lunático que escreve sobre sonhos. Estas lojas provam que tudo isto existe, tudo isto é áudio.


Do mais barato ao mais caro. Do áudio ao vídeo. Da televisão aos superprojectores. Das câmaras de vídeo à fotografia digital. Ninguém sai de mãos abanar, muito menos de ouvidos a zunir. Porque ali gosta-se de boa música. E de jazz em particular. O Carlos Abreu, que, junto com o Carlos Delgado, são o rosto visível da empresa, (nos bastidores está um anónimo apaixonado por tudo o que é bom e belo), acompanhou-me ao auditório principal e saiu pouco depois, deixando-me a sós com Diana Krall amplificada pela ...Krell.


Na «Absolut», não há pressão absolutamente nenhuma: o cliente gere o seu tempo (e a sua carteira) e faz as suas escolhas. Se precisa de ajuda, basta estalar os dedos.


Além do espaço de exposição, a «Absolut» dispõe de três pequenos auditórios: Cannes, Hollywood e Las Vegas. Os nomes denunciam a aguda consciência comercial da actual tendência videófila do mercado, mas todas as combinações áudio/vídeo/surround com ou sem imagem são possíveis: dos clássicos amplificadores a válvulas aos mais sofisticados processadores digitais. A «Absolut» só têm um defeito: há exemplares de revistas de áudio para ler mas não vi lá o DNA/Sons...


O que me pode ter levado a uma loja de hifi (onde não o DNA não existe!), quando só precisa de estalar os dedos para ouvir os equipamentos em casa?


O auditório Las Vegas da Absolut Sound/Video funciona como «teatro aberto», um palco privilegiado onde os principais importadores podem demonstrar equipamentos de referência ao público em geral que, de outro modo, estariam reservados apenas a alguns privilegiados. Depois das deliciosas Martin Logan (tenho um par de Martin Logan Odyssey a tocar para mim, enquanto vos escrevo), foi a vez das portuguesas Harpa Lusitana (a propósito: a minha reportagem sobre o sucesso das Harpa no Audioshow de Lisboa sempre acabou por ser publicado na Stereophile de Março, a versão digital está disponível em www.harpaspeakers.com).


Desta feita, o que me atraiu foi a demonstração das Dynaudio Temptation, um espectáculo acústico a que pode assistir gratuitamente - sem compromisso - até meados de Maio.


As Temptation são as irmãs mais novas das Evidence, alegadamente uma das cinco melhores colunas de som do mundo - uma obra prima de design e simetria.


Compostas por três módulos independentes, são uma coluna na verdadeira acepção do termo: altas e esguias, de uma elegância e beleza nórdicas. No módulo central, com rosto de alumínio moldado, estão montados dois médio-graves e dois (!) tweeters de cúpula mole. Cada um dos módulos superior e inferior exibem dois altifalantes de graves que em conjunção com o filtro divisor são a base da tecnologia DCD, Dynaudio Directivity Control: controla a dispersão e direccionalidade das ondas sonoras em relação ao tecto e ao soalho eliminando assim uma das principais causas de colorações de origem ambiental - a sala de audição. Esta notável escultura audiófila está montada sobre uma base que lhe garante a necessária estabilidade e o resultado estético final é perfeito: nunca uma coluna com tanto volume físico ocupou tão pouco espaço psicológico.


A Dynaudio chama ao conceito arquitectura dos sentidos e alega ter-se inspirado na leveza monumental das pirâmides egípcias. Marketing à parte, com um toque de esoterismo à mistura, a ideia está bem desenvolvida na excelente brochura das Temptation.


O Carlos Abreu avisou logo que o equipamento ainda estava em fase de instalação, como um «maître» que se desculpa por o môlho não estar ainda apurado, pelo que me limitei a ouvir meia-dúzia de faixas de vozes femininas em belissimos exercícios jazzísticos (Diana Krall e Jacintha) nas não menos belas Temptation, acolitadas por um poderoso amplificador Krell FPB600c através de um insuspeito cordão umbilical Transparent Audio. Como fonte um Krell 280CD. Curiosamente, o Carlos optou nesta fase por um prévio a válvulas da Audio Research, em detrimento da escolha lógica: o Krell KCT com ligação CAST (em breve volto a este assunto a propósito na nova série X de amplificadores Krell).


Esta é, sem dúvida, uma coluna de som de alta resolução com uma foco estéreo de elevada precisão e excelente controlo de graves. Mas pouco mais posso acrescentar. A presença de muitas outras colunas na sala vibrando em consonância com as Dynaudio talvez perturbe a sua performance absoluta. Talvez. Mas como não paga nada para ouvir aconselho uma audição urgente.


Deixe-se cair em tentação. Amar não é pecado.