2003

Ó Júlia Florista...



Ficámos ainda a saber também que a famosa Júlia Florista existiu mesmo, e que é possível ouvir de novo a voz de Armandinho ou até do seu mestre Petrolino!


O preço alegadamente exigido por Bastin é de 1 milhão de euros, ou seja, 200 euros ou 40 contos por disco. Nos circuitos internacionais, 200 a 300 dólares é o preço exigido por discos de colecção bem mais recentes, como a famosa versão «direct-cut», da Shefield, de «I've got the rhytm in me», de Thelma Houston; ou a versão «half-speed-cut», da Mobile Fidelity, em vinil de 180 gramas, de «Dark Side of The Moon», dos Pink Floyd (e pensar que ofereci o meu exemplar a um amigo!). Neste caso, os preços elevados resultam, não tanto da raridade, como da especulação no competitivo mercado americano.


No caso do espólio do fado, exige-se o preço da raridade - Moças refere a existência de registos em 78 rpm de gravações de 138 fados por um tal Reinaldo Varela em 1904 (!). É um espólio que interessa sobretudo - se não mesmo exclusivamente - a Portugal. O alegado interesse da Smithsonian Institution talvez não passa de uma forma de pressão. Os negociadores oficiais devem ter em consideração que, no final, somos todos nós, contribuintes, que vamos pagar os discos. A não ser que a Gulbenkian...


Na mesma peça, José Moças refere, e cito: «Até porque, entretanto, os próprios discos de vinil antigos ganharam uma nova valorização com o lançamento no mercado do ELP, um leitor japonês laser de discos de vinil e 78 rotações». Como é óbvio, é este pormenor particular da entrevista que interessa a Sons. Se bem se lembram, publiquei aqui um longo artigo sobre o ELP em 1999, depois de finalmente ter tido oportunidade de o ouvir no High-End Show, de Frankfurt, após dez anos de tentativas infrutíferas.


O CD realizou o sonho de se poder tocar um disco sem lhe... tocar. Mas para ouvir LP continua a ser necessária a inefável agulha para lavrar as espiras: «Ainda não há nada que chegue ao prego», é uma das afirmações favoritas do meu amigo Eduardo Rodrigues (o único possuidor em Portugal, creio, do disco de Thelma Houston acima referido). No caso dos velhos discos de 78 rpm, a agulha é, literalmente, um prego. Ouvir um 78 rpm de 1904 com um prego pode ser muito romântico, mas cada audição é mais um... prego no caixão (do disco). Com discos únicos e em mau estado, o problema da preservação acaba assim por ser tão ou mais importante que a própria audição. ELP, o gira-discos laser, veio resolver este angustiante problema: o de se poder comer o bolo e ficar com ele ao mesmo tempo, como dizem os anglosaxões.


Moças refere que ELP é japonês. De facto, foi Robert E. Stoddard, um jovem engenheiro americano, da Universidade de Stanford, quem o inventou em 1988. Os primeiros modelos foram comercializados sob a marca Finial sem grande sucesso. Na altura, o CD ganhava adeptos e o Finial tinha alguns problemas técnicos insolúveis. Além do financiamento, Stoddard debatia-se com os fracos índices de reflexão dos discos, os diferentes ângulos das cabeças de corte das matrizes analógicas e a sensibilidade à sujidade nas espiras. Stoddard acabou por vender a patente à ELP, empresa criada com o objectivo de melhorar e comercializar o único gira-discos do mundo capaz de «ler» LP com «agulhas» de luz. Eu ouvi o ELP e vivi para contar, e juro, por minha honra, que é verdade: resulta mesmo.


ELP utiliza cinco feixes laser para recuperar das espiras já gastas o som analógico original: um para o canal esquerdo, outro para o canal direito (nos LP estéreo), dois para garantir que o braço de leitura se mantém estável sobre o centro das espiras; e o quinto para manter o braço sempre à mesma distância do disco (no caso dos discos empenados, por exemplo). Fotodiodos medem a luz reflectida e traduzem a impressão óptica em sinal eléctrico. Não há qualquer processamento digital do sinal: é analógico puro.


ELP tem, contudo, algumas das vantagens que nos habituámos a associar ao CD: abre-se uma gaveta para colocar o disco, ao fim de uns segundos surgem no mostrador todas as informações habituais: tempo total, número de faixas, etc. Pressiona-se a tecla play e a audição começa: pode seleccionar faixas ou as funções repeat e pause e até ajustar a velocidade em passos de 0,1 rpm; no fim, desliga-se automaticamente.


Como não há contacto físico, ELP resolve muitos dos problemas que afligem os (alguns, não todos) gira-discos convencionais: ângulo de ataque horizontal e vertical da agulha, compensação do peso de apoio e da força centrípta, distorção por efeito geométrico das espiras mais próximas do centro do disco, desequilíbrio entre canais, «feedback» acústico, empenos (máximo 6mm) e excentricidade, etc. Um sonho que custa 10.000 a 15.000 euros!


Um problema se mantém ainda: o da sujidade nas espiras. Os discos têm de estar escrupulosamente lavados e limpos. De tal forma que a compra de uma máquina de lavar discos da VPI é indispensável: lava, escova e aspira. E os discos têm de ser pelos menos aspirados todas as vezes ou o som tem mais estalos que uma máquina de pipocas. Com discos de 78 rpm de 1904, o problema ganha, como se calcula, outra dimensão. Uma solução elegante é reproduzir o disco uma só vez e registar o som numa matriz digital para arquivo e posterior edição de CD. Embora ouvir uma ou mil vezes não produza qualquer efeito de desgaste no disco, o mesmo já não se pode dizer do processo agressivo de limpeza.


ELP é comercializado em três versões: LT-IIXA, LT-1XA e LT-1LA. As versões que têm a capacidade para reproduzir discos antigos de 78 rpm, além de dispensarem o andar «phono», têm ainda uma particularidade que as torna num instrumento indispensável para qualquer coleccionador: um selector das paredes das espiras. A maior parte dos discos monofónicos antigos tem a parede exterior das espiras em péssimo estado, pois é nesta que o «prego» das velhas grafonolas se apoiava no seu caminho para o centro do disco. O selector do ELP permite optar pela parede interior menos gasta: o som resultante de discos que se julgavam intocáveis chega assim a ser surpreendente de frescura acústica, como se Caruso tivesse ressuscitado.


Se o Ministério da Cultura decidir comprar este notável espólio discográfico deve incluir no orçamento a aquisição de um ELP LT-IIXA. Afinal, o que são mais uns euros se pode ajudar a preservar este tesouro discográfico?...

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