2003

Audioshow 2003: A Minha Avaliação - Parte 1



ALFIDA/JM LAB+CHORD



Há duas formas de olhar para o transporte Chord BLU: com o olhar do audiófilo apaixonado - and beauty is always in the eye of the beholder - ou com o olhar do cínico, circunstância em que parece uma daquelas caixas de esterilizar seringas que havia antigamente nos hospitais. E será a bela BLU a noiva ideal para o DAC64?

Com os anos aprendi a ouvir para lá da evidência imediata. Que som se ouviu na sala da Alfida? O do BLU, do DAC64 MkIV, do amplificador Chord ou das belas JM Lab Nova Utopia? Ou o da sala?


As Nova Utopia são colunas de banda larga e, na sexta-feira, o grave, mesmo a níveis baixos de pressão sonora, passeava-se pela sala com a desfaçatez de uma galdéria gorda, com o baixo do disco de Patrícia Barber a exibir o efeito anabolisante das ondas estacionárias e os estranhos modos de ressonância da sala. Mas bailava uma promessa de sonora felicidade nos olhos doces do tweeter de beryllium e nos médios amanteigados e naturais que tornavam as vozes dengosas e sensuais.


Eu teria escolhido outra parede de fundo, a da janela, por exemplo. Francisco Brito apercebeu-se disso tarde demais: «Calcule que descobri só agora que a parede por trás das colunas é de «pladur», lamentou-se. Em certas frequências, o som foi assim alegadamente reforçado por um diafragma de «pladur» que vibrava fora-de-fase em dissonância com o altifalante de graves e excitado pelo ar húmido de suor que o pórtico reflex respirava. Um pouco de espuma na «boca da Utopia» teria minimizado o problema, mas seria «politicamente pouco correcto»: poderia criar no espírito dos visitantes a ideia que se tratava de um erro de projecto. E as Nova Utopia estão próximas da perfeição acústica do estado da arte actual.


No Domingo, uma mudança de cabos (dos MIT para uns humildes Kimber Select) «segurou» os graves; ou talvez fosse porque os altifalantes tinham «acamado»; ou a inteligente opção por música barroca e antiga com pouco conteúdo de graves. Desta feita, foi possível ouvir música sem me preocupar com minudências acústicas.


O potencial das Nova Utopia está lá à espera que o descubram. Aquilo que me dá mais gozo é andar meses a «ensiná-las» a cantar: muda de sítio, muda de cabos, muda de amplificadores, muda de fontes. Num dia não se fazem milagres - já assisti a alguns em hifishows mas são mais acaso que saber. Não é a mesma coisa fazer comida para um ou para muitos. Num hifishow a sweet spot não é spot e muito menos é sweet: há pessoas que entram, pessoas que saem, pessoas de lado, sentadas, de pé; pessoas que conversam, que olham, que mexem, que caçam catálogos, que ... fotografam. Em minha casa, quando oiço música, o mundo pára de girar. É preciso coragem para apresentar um sistema de dezenas de milhares de euros num contexto destes - e isto é válido para todos os outros.


Digamos que a Alfida tinha (e tem) equipa para ganhar mas perdeu por culpa do... relvado. Acontece aos melhores.


Nota: A Alfida persistiu em manter o cabo coaxial como cordão umbilical digital entre BLU e DAC64, contrariando o conselho técnico do pai da noiva: Robert Watts. Preconceito audiófilo ou pragmatismo comercial? Terei de tirar isso a limpo em minha casa quando os noivos chegarem para a lua de mel. A cama está feita de lavado: fico à espera dos pombinhos.



VIASÓNICA/CLEARAUDIO+AYRE+AVALON



Este é um exemplo acabado de como bons produtos podem resultar num mau cozinhado. Um som anémico, sem graça, sem dinâmica, sem contraste tonal, sem conteúdo harmónico. Algo de muito errado se passava ali: alimentação de sector? erro na «carga» da célula? problemas de «tracking»? falta de corrente do amplificador para alimentar as colunas (julguei ouvir «clipping» no som de um piano de um disco de música brasileira? seria possível a um nível tão baixo?), problemas no filtro divisor? colunas «virgens»? cabos inadequados? declaro-me incompetente para adivinhar.


Fui lá na 6ª feira e no Domingo o problema persistia ainda. Crime of the Century foi a gota de água: os Supertramp não soam assim, nem em disco e muito menos ao vivo. Cheguei a pensar que se tratava de problemas de fase. Garantiram-me que não. E, de facto, na fila de trás, havia uma vaga sugestão de foco na imagem estéreo. O que mais me espanta é que alguns leitores tenham eleito esta instalação como o melhor som do Audioshow. Será que buscamos o mesmo Graal Sónico? Analógico nem sempre significa melhor...


Não vou cometer a injustiça de dizer que era o pior som (ouvi coisas de deixar os meus poucos cabelos em pé) mas eu gosto do Clearaudio, da Ayre e da Avalon (em especial as Eidolon Diamond) e as minhas expectativas eram muito grandes. Seria outra vez o «pladur»? Imbuído do meu espírito cristão, perdoo o deslize mas espero que não volte a acontecer.


Ainda tenho na memória o som das Avalon+Conrad Johnson Premier Eight naquela maravilhosa sala assimétrica do Hotel Alfa. Deixa lá, Zé Filipe, não podes ganhar sempre...



Continua