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Quad Artera Solus – recordista mundial de pista

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O leitor-CD do Quad Artera Solus tem o melhor sistema de transporte/leitura do mercado. Objetivamente, melhor!...

A Quad é uma marca britânica icónica com pergaminhos que foram respeitados pela IAG, o grupo chinês a que pertence atualmente. O Solus é a prova disso: no design e na performance, tanto objetiva como subjetiva.

Tal como Andy Warhol, eu defendo que é preferível ser criticado a ser ignorado e, nos anos 70, também tive um Receiver da Pioneer, promovido por ele, daqueles com aplicações de madeira, que vendi a um amigo e ainda funciona.

Mas foi quando, finalmente, consegui poupar o suficiente para comprar um conjunto Quad 33/303: Control, Tuner e amplificador, que eu comecei a sentir-me um audiófilo a sério.

Quad 33/303: Control, Tuner e amplificador stereo - those were the days: o tempo da inocência...

Quad 33/303: Control, Tuner e amplificador stereo - those were the days: o tempo da inocência...

A construção era um misto de design moderno com influências da indústria militar britânica e algumas soluções técnicas artesanais, como o cordel que o botão rotativo do Tuner utilizava para fazer deslocar a agulha de sintonia…

Mas o som era tão melhor que o da Pioneer (embora, já naquele tempo, as medidas dissessem o contrário) que eu comecei a acreditar na imprensa britânica da altura (lembram-se da Hi-Fi Answers?), que era subsidiada pelo Estado para promover a indústria britânica de áudio: A&R, Acoustic Energy, Exposure, Heybrook, kef, Linn, Mission, Wharfedale, etc…

Quad e Valentim de Carvalho

Lembro-me que (teria 16 anos...), sempre que tinha um furo no horário escolar, apanhava o comboio e ia para a Valentim de Carvalho ouvir os Quad com as Wharfedale e, mais raramente, com as ELS57, uma coluna perfeita dentro da suas limitações dinâmicas.

Depois, nasceram as ELS63, que muitos consideram ainda como a obra prima de Paul Walker, com a solução genial dos anéis concêntricos para reproduzir uma radiação point-source.

Ao nível da amplificação, a Quad criou ainda a tecnologia current dumping com realimentação positiva (feed forward) para utilizar nos modelos 405, 606 e seguintes.

Mas o ‘som Quad’ perdeu aquela magia dos 33/303; ou então, tudo não era mais que nostalgia, do mesmo modo que ainda há quem sonhe com os clássicos Quad II a válvulas. O homem quer evoluir sempre mas é incapaz de deixar para trás toda a tralha nostálgica que acumulou ao longo da vida.

Globalização divide mercado

A globalização veio baralhar o mercado do áudio, que hoje mais parece o mercado futebolístico: as grandes equipas ligadas a grupos financeiros compram os melhores ‘jogadores’ em todo o mundo, diluindo assim a origem nacional.

O poderoso IAG Group, de Hong Kong, tem a jogar na sua atual equipa: Wharfedale, Quad, Audiolab, Mission, Luxman, Leak e Castle.

A Sound United ‘contratou’ vedetas como a Denon, a Marantz e a B&W; e a Arcam faz agora parte do grupo Samsung, junto com a Harman.

Dança de distribuidores

Como resultado disto, a ‘dança de distribuidores e revendedores’ nos vários países, já de si acossados pela Amazon, é constante.

É assim que, da última vez que testei produtos Quad, já sob a égide da IAG: A Senhora dos Anéis/Lady of the Rings e ‘O Regresso da Senhora dos Anéis’ a marca ainda era da Esotérico.

Entretanto, a Sarte Audio (um empresa espanhola) assegurou a distribuição para a península ibérica da Quad, mantendo contratos de venda local com alguns dos principais distribuidores nacionais.

Por outras palavras, se pretender comprar o Quad Artera Solus em Portugal, não vai ter problemas em o encontrar à venda.

De cara limpa

Quad Artera Solus: simplicidade versátil, com  transporte de ranhura JVC, mostrador touch screen limitado e muito dependente do controlo remoto (não perca, evite deixá-lo cair...).  A tecla ‘Prog’ do remoto é a ‘pedra de toque’ a partir da qual se podem selecionar os filtros e múltiplas funções.

Quad Artera Solus: simplicidade versátil, com transporte de ranhura JVC, mostrador touch screen limitado e muito dependente do controlo remoto (não perca, evite deixá-lo cair...). A tecla ‘Prog’ do remoto é a ‘pedra de toque’ a partir da qual se podem selecionar os filtros e múltiplas funções.

O rosto prateado do Solus tem um mínimo de maquilhagem: um mostrador OLED circular, a ranhura do transporte CD, um botão de Eject e outro maior de Power/Standby. Por baixo, escondida está a saída para auscultadores (jack de 6,3mm) e  o receptor de infravermelhos do controlo remoto.

A saída para auscultadores tem um circuito de amplificação próprio em Classe A (desliga o andar de potência quando ativo) e provou ter músculo e qualidade suficientes para alimentar os meus Hifiman HE1000, embora já no último terço de ganho do potenciómetro.

O controlo remoto é uma peça fundamental do Solus. E não é propriamente um acessório de qualidade: grande, de plástico, confuso com letras e números quase ilegíveis para olhos cansados.

Mas não parece haver outra forma de ativar as diferentes funções até descobrirmos que o mostrador circular OLED é afinal um touch screen um pouco teimoso com algumas funções como Play/Pause, Source e Volume.

De referir que o controlo de volume tem gestão digital mas funciona no campo analógico.

A tecla ‘Prog’ do remoto é a ‘pedra de toque’ a partir da qual se podem selecionar os filtros e múltiplas funções.

Solus não é novidade

O Artera Solus vem com uma tampa de vidro espessa com pés de borracha para evitar vibrações, que confere ao conjunto um design moderno e apelativo.

O Artera Solus vem com uma tampa de vidro espessa com pés de borracha para evitar vibrações, que confere ao conjunto um design moderno e apelativo.

Normalmente, enviam-me novidades fresquinhas para testar, às vezes até antes de serem comercializadas. Não é este o caso.

O Quad Artera Solus é de 2018, pelo que já foi testado por toda a gente e mais alguém. Entretanto, já saiu a versão Solus/Play que, além das funções de Pre/Amp/DAC/CD Player, inclui wireless streaming, enquanto o Solus apenas oferece Bluetooth Aptx (48kHz).

O que se passa é que o Solus, apesar da ‘provecta idade’ digital de 3 anos e meio, não está ultrapassado, porque a qualidade de cada uma das suas ‘secções’ amp/dac/cd é muito boa, tanto objetiva como subjetivamente (já lá vamos).

Então e o streaming? pergunta o leitor. Se já comprou o Solus, sugiro que lhe junte o novo streamer acessível (abaixo de 400 euros) da iFI ZEN (um dos meus próximos projetos) e fica com o problema resolvido. Ou então, comprar antes o novo Solus/Play pode ser a solução. A base é a mesma a que se juntou um streamer.

Quad Artera Solus: painel traseiro. Saída USB para poder ligar ao seu PC (a entrada USB A é apenas para fazer updates via net ou flash drive). Curiosamente, o Solus tem saída de Pre RCA e XLR, mas não tem entrada balanceada.

Quad Artera Solus: painel traseiro. Saída USB para poder ligar ao seu PC (a entrada USB A é apenas para fazer updates via net ou flash drive). Curiosamente, o Solus tem saída de Pre RCA e XLR, mas não tem entrada balanceada.

Embora seja construído na China (where else?), o Artera Solus foi concebido de raiz em Huntingdon, por Jan Ertner, o engenheiro responsável pela mais recente eletrónica da Quad, que utilizou 4 placas de circuito independentes para cada secção e respetiva fonte estabilizada, com controlo de interferências eletromagnéticas e uma fonte de alimentação robusta (toroidal de 300VA) que permite ao amplificador de Classe A/B de 75W, quase dobrar a potência sobre 4 Ohm.

O amplificador não utiliza a tecnologia Quad current dumping mas é fortemente polarizado em Classe A: aquece e bem se for muito solicitado, dê-lhe espaço para respirar.

A placa de vidro do topo é uma solução estética interessante, mas não contribui em nada para a dissipação de calor. Se vai dar uma festa em casa, retire-a e guarde-a num sítio seguro. Em utilização diária normal pode deixá-la no sítio, porque é bonita e fica bem.

A secção de prévio é minimalista e tem até saídas balanceadas para atacar um amplificador externo, mas não tem entradas balanceadas, o que é pena, porque teriam muito mais utilidade prática que as saídas.

PCM 384kHz/24 bit e DSD 256

O DAC é um ESS ES9018, que continua up-to-date, pois é compatível com PCM 384kHz/32 bit e DSD256, especificações que tive oportunidade de comprovar na audição, com ficheiros nativos de alta resolução, depois de instalar a indispensável Asio Driver (no JRiver é identificada como IUSB). Tudo funcionou sem problemas ou hesitações.

O DAC não é compatível com MQA, o que para muitos é uma mais-valia, depois das mais recentes polémicas sobre se o MQA é lossless ou apenas lossy.

Roon Ready? Oficialmente, não. Mas é compatível…

O Solus também não é Roon Ready, mas com o Solus ligado ao meu PC via USB-B, eu não tive qualquer problema em ouvir Tidal/MQA via Roon, utilizando o DAC do Solus apenas como Renderer (máx: 88/96kHz/24 bit), sendo a configuração muito fácil. E não tive dificuldade em aceder aos meus ficheiros de alta resolução no NAS da Synology.

A Quad aproveitou as especificações do chip ESS ao máximo e oferece a possibilidade de escolher 4 filtros PCM com pendentes e respostas diferentes: Smooth (default), Wide, Narrow e Fast; e 4 filtros DSD, para filtrar o ruído ultrassónico a partir dos 30 (Normal), 50, 60 ou 70 kHz.

A diferença entre os filtros PCM é audível, o mesmo já não posso dizer dos filtros DSD, embora seja sensato eliminar ruído ultrassónico que possa de algum modo colocar o amplificador em oscilação. Pelo sim, pelo não opte por DSD Bandwidth (Normal).

Cada cor seu paladar

O filtro ‘Narrow’ não está disponível para CD apenas USB. De qualquer modo, esqueça-o, porque tem um comportamento diverso com USB (banda larga) e fontes digitais externas (SPDIF), com pendente demasiado rápida, logo a partir dos 10kHz (audível), portanto.

O ‘Smooth’ como o nome indica tem uma pendente ligeira nas altas frequências com CD e mais efetiva com alta resolução.

Na dúvida, opte por este filtro (default). Aliás, se não selecionar e ativar o filtro corretamente, fixando-o com o controlo remoto, ele volta sempre para ‘Smooth’ e está sempre a ouvir o mesmo sem se aperceber num teste A/B.

Eu gostei do ‘Wide’ porque é o mais correto no domínio do tempo, e muito semelhante ao utilizado nos DACs da Pioneer (legato link) e da Wadia/Digimaster(lembram-se ainda?).

Quanto ao ‘Fast’, a pendente é demasiado ‘rápida’ com CD, mas talvez seja o ideal para quem acredita (eu não) que nos ficheiros áudio de alta resolução, acima dos 20kHz só há ‘lixo ultrasónico’ e zero música.

O melhor transporte/leitor CD do mercado. Objetivamente, melhor!...

Quad Artera Solus: nunca em tempo algum, um transporte digital conseguiu ultrapassar todos os obstáculos digitais do Disco teste da Pièrre Verany. O Solus é o novo recordista mundial de pista!...

Quad Artera Solus: nunca em tempo algum, um transporte digital conseguiu ultrapassar todos os obstáculos digitais do Disco teste da Pièrre Verany. O Solus é o novo recordista mundial de pista!...

O duplo CD ‘Digital Test’ da Pièrre Verany (o original, há muito esgotado), editado por ‘La revue du disque laser’ (1988) é, ainda hoje, o melhor instrumento para testar a qualidade de um sistema de transporte/leitura digital e respetivo DAC.

Além de testes de separação entre canais, resposta em frequência, relação sinal ruído, distorção harmónica e por intermodulação, resposta transitória, intermodulação por diafonia e diferenças (audíveis) de quantificação a 16, 15, 14 e 8 bits, tem algo tão raro que já ninguém se preocupa em verificar: o circuito de desacentuação.

O leitor-CD do Solus cumpre a norma de desacentuação: 1kHz: -0,37 dB; 5kHz: -4,53 dB; 11kHz: -9,04 dB, independentemente do filtro selecionado.

Nota: nos anos 80 alguns CDs eram registados com pré-ênfase de altas frequências para melhorar a relação sinal ruído, que eram depois (des)compensadas na leitura, um pouco como a norma RIIA nos LPs. Um bom exemplo é o famoso ‘Toros e Toreros’ que, se for reproduzido por um leitor-CD sem circuito de desacentuação (quase todos atualmente) vai soar demasiado brilhante.

Recordista mundial na pista de obstáculos

Mas não é só o DAC que é posto à prova, o sistema de transporte/leitura: um raro JVC de ‘carregar pela boca’ (ranhura/slot) atingiu a pontuação máxima em todos os itens: diferença de velocidade linear, variação de velocidade e distância entre-pistas, variação de distância entre-pistas, capacidade de deteção do sinal digital; e, last but no least, ultrapassagem de drop-outs simples e sucessivos (ausência de informação no disco por motivo de ranhuras, riscos ou mesmo buracos).

Nos drop-outs, a norma é entre 0,05mm e 0,20mm. O anterior recorde chez JVH é de 2,50mm/1,50 mm (Playback Designs MP5). E, se bem me lembro, o Reimyo 777 de 14 mil euros não conseguiu ultrapassar 1mm...

O Quad Artera Solus ultrapassou drop-outs simples e sucessivos de 4,00mm (o máximo) sem uma hesitação ou soluço sequer!

Esta performance é de tal modo incrível e rara, se não mesmo única, que não pode dever-se apenas ao hardware JVC mas também ao software e ao circuito digital da Quad.

De facto, o Solus utiliza uma memória buffer como o DAC 64 original da Chord e o famoso Memory Player que facilita a vida ao sistema de correção de erros e contribui assim para a redução de jitter, já de si residual.

Eis como o leitor-CD do Quad Artera Solus, com uma idade digital (3 anos) correspondente à idade futebolística de Ronaldo (36 anos), ainda pode fazer a diferença para quem não desistiu do CD.

Música e fogo de artifício

O disco da Pièrre Verany não tem só sinais de teste, tem também faixas musicais diversificadas que o Solus reproduziu com agrado: desde o som de fogo de artifício gravado ao ar livre para avaliar a resposta transitória e a reprodução da ambiência; música folclórica romena com múltiplos instrumentos de sopro e percussão; guitarra clássica solo para ouvir o som da caixa e a vibração das cordas; um grupo de country/jazz americano com banjo, guitarra e baixo; metais e percussões; a soprano Anne Marie Lasla, acompanhada por viola de gamba e baixo contínuo (órgão); um concerto para flauta, uma grande orquestra interpretando a Sinfonia do Novo Mundo, enfim, uma vasta paleta de música, suficiente para não deixar dúvidas quanto à competência do Solus.

Conclusão: por um preço de cerca de 1800€, o Quad Artera Solus é um quase-tudo-em-um que cumpre as promessas do fabricante e satisfaz os desejos do potencial comprador, composto por Pre/Amp/DAC/CD, a que só falta juntar um streamer, embora possa ser ligado por USB ao computador e tenha ligação Bluetooth, que funcionou bem, ainda que fosse necessário puxar bastante o volume.

Para quem nunca desistiu do CD, como suporte musical de preferência, de realçar a excecional performance do sistema de transporte/leitura, além, claro, da qualidade do DAC interno de alta resolução e baixo jitter. E nunca me desiludiu como amplificador analógico.

Nota: a mais recente versão Solus Play (não-testada) já oferece streaming com base na plataforma DT Play-Fi da DTS, a mesma utilizada na série de amplificadores Veena II.

Produto: Quad Artera Solus

Preço médio: 1800€

Distribuidor (Ibérico): Sarte Audio

Produtos da marca Quad (e Audiolab) podem ser adquiridos em Portugal na IMACUSTICA

Quad Artera Solus Facebook JVH

Quad 33/303: Control, Tuner e amplificador stereo - those were the days: o tempo da inocência...

Quad Artera Solus: simplicidade versátil, com transporte de ranhura JVC, mostrador touch screen limitado e muito dependente do controlo remoto (não perca, evite deixá-lo cair...). A tecla ‘Prog’ do remoto é a ‘pedra de toque’ a partir da qual se podem selecionar os filtros e múltiplas funções.

O Artera Solus vem com uma tampa de vidro espessa com pés de borracha para evitar vibrações, que confere ao conjunto um design moderno e apelativo.

Quad Artera Solus: painel traseiro. Saída USB para poder ligar ao seu PC (a entrada USB A é apenas para fazer updates via net ou flash drive). Curiosamente, o Solus tem saída de Pre RCA e XLR, mas não tem entrada balanceada.

Quad Artera Solus: nunca em tempo algum, um transporte digital conseguiu ultrapassar todos os obstáculos digitais do Disco teste da Pièrre Verany. O Solus é o novo recordista mundial de pista!...


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