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Nagra Streamer – Em Estilo Suiço

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O Nagra Streamer é um transporte digital ou leitor de rede. Ponto. Será capaz de fazer um DAC tocar… melhor? JVH investiga.

Nagra Streamer: Introdução por JVH

O Nagra Streamer é um transporte digital ou leitor de rede puro. Recebe a música da rede (plataformas de streaming e ficheiros armazenados em pens ou discos rígidos) e entrega-a integralmente a um DAC externo via cabo coaxial, o que significa que a resolução máxima possível é de 24 bits/192 kHz e DSD64.

Quem já pertence ao clube exclusivo da Nagra pode aproveitar o ecossistema e ligá-lo por N-Link (cabo de fibra ótica incluído) a um DAC Nagra. Além do isolamento galvânico, passa a ter acesso à resolução PCM 384 kHz e DSD 256, com o Nagra Tube DAC, o HD DAC/X, o Reference DAC e ainda o Classic II DAC. Tudo brinquedos (muito) caros.

A AJASOM vende esta caixinha quadrada de alumínio sólido, com dimensões de 18,5 × 16,6 × 4,1 cm e peso de 1,9 kg, sem botões ou mostrador - apenas um simples LED - e sem app própria (funciona com mConnect), por 4.990€ (o que não é nada pelos padrões Nagra, diga-se!). A isto juntam-se mais 3.780€ pela Compact PSU. E ainda há uma plataforma ou base de isolamento VFS (1.470€). Mas já lá vamos.

Entrega integral de sinal

Em defesa da Nagra, poderia escrever aqui uma arenga sobre o prestígio desta marca suíça, há mais de 70 anos no mercado, ou sobre a qualidade da construção e dos componentes eletrónicos utilizados.

Contudo, a principal justificação para o preço reside, e repito, na “entrega integral do conteúdo musical” ao DAC. Por muito bom que um DAC seja, assim como os componentes no resto da cadeia: prévio, amplificador e colunas (além dos cabos, claro), se a fonte não cumprir “na íntegra” o seu dever, já nada pode salvar a música depois.

Ora, o Nagra Streamer, sendo um modelo compacto e transportável (com a sua PSU de origem), consegue mesmo assim preservar o sinal digital, e isso tem um custo.

Mas o cliente Nagra não olha para o preço, e sim para a qualidade.

Claro que também tem a opção de comprar na AJASOM streamers mais baratos de origem asiática, que funcionam muito bem, como os HiFi Rose.

Felizmente, sendo crítico de áudio, eu tive o privilégio de conviver com o Nagra Streamer durante algum tempo em minha casa, como se fosse meu. E só me vai custar quando tiver de devolvê-lo à AJASOM.

 

Plug & Play

Adoro testar estes produtos do tipo “Plug & Play”, que não me obrigam a fazer um mestrado para aprender a utilizar todas as funções, e acabo por perder mais tempo a ler o manual do que a ouvir música.

Basta ligar o Nagra à rede doméstica via Ethernet e ao DAC por cabo coaxial. Pronto. Mas tenha um telemóvel à mão (quem não tem?) porque vai precisar dele.

Já vimos que o streamer da Nagra não tem app própria. É compatível com Tidal e Spotify Connect, mas para o Qobuz, terá de instalar a app mConnect Control no telefone (que é gratuita). Pode ainda associá-lo ao Roon e ao Audirvana, se os tiver instalados no seu computador, sempre via Ethernet.

Versatilidade chinese vs. exclusividade suiça

Versatilidade chinese vs. exclusividade suiça

 

Os streamers têm um som próprio?

A qualidade do som? Por definição, os streamers são “bit-perfect” e não têm uma qualidade de som própria, pois depende muito do DAC que vamos utilizar. Para ser devidamente apreciado, o streamer da Nagra deve ser associado a um DAC da marca, com ligação por cabo ótico N-Link, que eu não tenho aqui.

Em vez disso, liguei o streamer da Nagra à entrada Coaxial 1 do Eversolo Z10, alternando com a secção de streamer de um Eversolo Play, também ligado ao Z10 na entrada Coaxial 2.

O Z10 funcionou assim como: DAC comum; prévio do amplificador single-ended a válvulas LAB12 Mighty, que alimentou um par de colunas Azzolina Quark; e ainda como amplificador para um par de auscultadores planarmagnéticos de alta resolução Hifiman HE1000.

Para comparar os dois streamers (com streaming a partir do Tidal Connect), bastou-me assim alternar as entradas coaxiais 1 e 2 no Z10, depois de ter igualado previamente o volume com um tom de 1 kHz.

Nota: No Eversolo Play, o volume foi definido para MAX e todas as configurações DSP/EQ/Calibração da sala foram definidas para OFF, funcionando apenas como streamer.

Eversolo Z10 DAC

Eversolo Z10 DAC

 

Valor percebido

Ouve-se mais música com o Nagra do que com o streamer interno do Eversolo Play, com ambos ligados ao mesmo DAC por cabo coaxial? Não. Ouve-se melhor a música? Provavelmente, sim. Chame-lhe transparência se precisa de uma única palavra para definir o que os distingue.

A primeira impressão é que o ruído de fundo do Nagra é menos opaco e as notas surgem “lá de dentro” mais limpas, com contornos mais naturais e arestas polidas.

A diferença é mais óbvia com a Compact PSU ligada, mas será tanto mais evidente quanto melhor for o sistema de som associado, atingindo o zénite audiófilo com um DAC Nagra e ligação N-Link. Felizes os que podem comprar um sistema completo da Nagra. Mas também pode ir ouvi-lo de graça na AJASOM.

Intrinsecamente correto

A sensação de que há algo “intrinsecamente correto” na forma como o sinal digital é entregue ao DAC - e que torna até a Spotify gratuita aceitável – só a costumo ter com produtos ultra high-end, como o sistema dCS Varèse e o streamer Antipodes Oladra, sobretudo quando alimentei o Nagra com a Compact PSU, que eleva o preço para os 9.000€, ainda assim, longe das dezenas ou mesmo centenas de milhares que custam os modelos referidos.

A AJASOM comercializa outro streamer suiço, o Wattson Madison LE, que também possui essa característica de “organicidade” e, pelo mesmo preço (4.995 €), oferece também prévio e DAC. É, pois, uma alternativa a considerar.

Ouvir e saber ouvir

Quando se quer justificar uma diferença de preço, por vezes obscena, o truque é dizer ao leitor que “tem mais detalhe”. Mas isso qualquer folheto promocional promete. Assim, o leitor deve ser guiado para conseguir ouvir coisas específicas — e a perceber por que agora ouve o que não ouvia antes.

O que separa algo bom (e caro) de algo menos bom (e mais barato) é a microdinâmica (variações mínimas de intensidade), a coerência temporal (a respiração orgânica da música), além do ataque (como a nota começa), a sustentação ou decay (tempo de vida da nota) e a libertação (como a nota termina: de forma harmoniosa ou súbita). Finalmente, o ar ou espaço entre notas.

Mas nada disto é fácil de identificar num teste cego. As condições de audição e o estado de espírito do ouvinte são fatores fundamentais. Não basta ouvir; é preciso saber ouvir.

O ruído de fundo do Nagra é menos opaco e as notas surgem “lá de dentro” mais limpas, com contornos mais naturais e arestas polidas.

 

A verdade sibilina

A reprodução de consoantes é, assim, uma forma mais fácil de abordagem, sobretudo os sons sibilantes: “s", “sh”; e as fricativas: "f", que vêm muitas vezes “embrulhadas” em distorção por intermodulação, que o ouvido humano tem dificuldade em identificar como distorção e interpreta apenas como um evento fonético estranho ao som musical.

As sibilantes vivem numa zona do espetro onde o ouvido é muito sensível e é fácil confundir claridade com transparência, tornando a dicção de uma sibilante num evento exterior à palavra, e não numa componente dela.

E quem diz palavras diz sons de pratos e metais, que ganham um “spray” de alta frequência estranho à nota fundamental, cujos harmónicos o cérebro tenta integrar como naturais, mas nunca parecem “encaixar”, o que resulta em fadiga auditiva.

O diabo está no detalhe

É por isso que muita gente confunde resolução com excesso de detalhe. Quando há distorção — ou, mais subtilmente, granulação e intermodulação — as sibilantes denunciam tudo: o “s” deixa de ser uma consoante e passa a ser um efeito espúrio exterior à palavra. Em vez de suave, sensual e integrado, o “s” torna-se “spitty” e “projetado”, podendo até soar mais alto do que o resto da palavra.

Claro que estou a exagerar para facilitar a compreensão do leitor, porque, na prática, as diferenças entre streamers não são assim tão óbvias. Mas existem. Daí a diferença de preços.

Compact PSU - VFS

Nas audições comparativas, utilizei o Nagra Streamer com a Compact PSU montados sobre a plataforma VFS.

A VFS é a base de desacoplamento desenhada para a linha compacta. Pode parecer um acessório “de luxo”, mas a lógica é conhecida: ao reduzir a influência de vibrações (da sala, do móvel, de transformadores próximos, do próprio equipamento) num circuito que vive da estabilidade, melhora a qualidade do som.

Já a Compact PSU faz três coisas que o leitor percebe de imediato quando ouve música:

  1. Aumenta o contraste

Entre notas há mais ‘preto’ — não um vazio estéril, mas um silêncio fértil, que realça o contorno dos instrumentos.

  1. Aumenta a estabilidade temporal

O som faz mais sentido no tempo e no espaço.

  1. O grave ganha intencionalidade

O grave torna-se mais firme e legível. Não é necessariamente mais profundo — é mais informativo. A nota nasce, desenvolve-se e termina com maior clareza, e isso melhora o ritmo sem induzir “peso”.

Faixas para exercícios de audição

Deixo alguns exemplos com faixas que todos conhecem para fazerem os vossos próprios exercícios auditivos:

  • Norah Jones – “Don’t Know Why” (Come Away With Me)

Esta faixa é um teste simples: se a voz soa humana, tudo o resto tende a alinhar-se.

O que ouvir: as consoantes (“s”, “sh”), o ar à volta da voz e o piano (harmónicos), as vassouras na tarola e o contrabaixo.

Nagra vs Play: com o Nagra, Norah Jones parece ter menos corpo e mais presença; as consoantes soam mais recortadas, mas sem agressividade; as vassouras “varrem” sem aspereza e o contrabaixo marca o ritmo dengoso e constante. Com o Play, tudo parece igual, apenas mais polido e também mais “processado”, talvez menos orgânico.

  • Leonard Cohen – “You Want It Darker”

Não é a extensão que interessa, mas sim a densidade e a textura.

O que ouvir: a aspereza grave da voz, cheia de dramatismo; o coro ao fundo e a sensação de espaço. O ar que paira e depois “assenta” no chão do estúdio.

Nagra vs Play: o Nagra consegue dar densidade à voz sem a “engrossar” demasiado – Cohen tem “gravitas”, mas não peso artificial. E, sobretudo, separa melhor a voz e o coro, ganhando credibilidade e verosimilhança.

  • Keith Jarrett – “The Köln Concert, Part I”

O piano solo é impiedoso para os sistemas de som. Se houver grão, ouve-se. Se houver jitter, ouve-se. Se houver desafinação, idem. (E o piano de Jarrett estava desafinado, mas até isso ele ultrapassou com classe…)

O que ouvir: o martelo (ataque) e os harmónicos que se seguem como bolas de sabão a pairar no ar até morrerem no escuro da sala; e o pedal (a ligação entre notas).

Nagra vs Play: com o Nagra, há mais continuidade nas notas: ataque, corpo, cauda, sem interrupções. Com o Play, o ataque parece igualmente rápido, mas a nota morre mais cedo.

  • Martha Argerich (Chopin) — Polonaise

Argerich é velocidade, contraste e controlo.

O que ouvir: ataques fulminantes e variações microdinâmicas (a intencionalidade por trás do virtuosismo).

Nagra vs Play: o Nagra tende a soar mais limpo sem endurecer: a aresta dos transitórios é polida sem perder poder de ataque. Os fortíssimos não perdem a compostura nem se retraem. O Play tem mais corpo, mas menos “matéria”.

  • Dave Brubeck – “Take Five” (Time Out)

Já ouvimos isto mil vezes, mas com o sistema certo, a faixa ganha vida própria.

O que ouvir: o saxofone e o piano, claro, mas sobretudo a forma como a bateria desenha o tempo sem forçar a nota.

Nagra vs Play: no Nagra, o ritmo parece mais assente, com o swing a surgir naturalmente, mesmo quando a atenção se dirige para o trabalho do baterista. Com o Play, a música é a mesma, claro, mas o swing é menos fluido.

  • Massive Attack – “Angel” (Mezzanine)

O que ouvir: a sustentação do grave e a construção em camadas da faixa; a voz em surdina soprada em contraste com a voz mais grave.

Nagra vs Play: a diferença não é grande. O Nagra parece ter mais controlo sobre o grave, deixando o campo limpo para as vozes e a percussão eletrónica. Há menos compressão e a mistura é mais legível. Mas não é a minha praia, decididamente.

Sugestão final

Os críticos de áudio são como os analistas políticos: quando acertam, parecem génios; quando falham, dizem que “o contexto mudou” – e, no fim, quem decide é sempre o eleitor… ou o ouvinte. Boas audições.

 

Nagra Streamer Swiss landscape 1 copy

Versatilidade chinese vs. exclusividade suiça

Eversolo Z10 DAC


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