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Magico S1

Magico S1 cor de laranja na loja da Imacustica - Lisboa

I built a lot of loudspeakers in my time.


As caixas eram construídas em madeira prensada, que era mais barata. Depois eram forradas com folha de carvalho ou faia natural e envernizadas. Os altifalantes mandava-os vir de Inglaterra pelo correio. Volta e meia, lá tinha que ir justificar a encomenda à alfândega, em Lisboa, e pagar os custos e coimas respectivas.


Também sou do tempo em que só havia laranjas boas no Inverno, eram do Algarve. As melhores eram (ainda são) as “da Baía”, que tinham um “olho”, cujo conteúdo interno, uma espécie de filet mignon citrino, a que em criança chamávamos “os filhos”, se separava dos gomos como uma coroa real e era delicioso. Agora há laranjas todo o ano. Chegam-nos de todo o mundo. De Israel também.

As colunas de som, quando não eram de cor “natural”, eram pretas, quase sempre. Lacado piano. Os povos nórdicos preferem o branco. Deve ser para não fazerem demasiado contraste com a neve lá fora. Nós por cá, gostamos do xaile negro do fado. São coisas do destino....

Já não me recordo bem, mas creio que foi a Wilson Audio que lançou a moda de pintar as colunas com tinta de automóvel: vermelho Ferrari, azul Bugatti, amarelo Porsche. Tal como na canção dos Rolling Stones, “they come in colours everywhere, they are like a rainbow”.


A laranja mecânica está na moda. E o que antes era de madeira é agora de metal. Alumínio aeronáutico, melhor dizendo. Leve e rígido. Que se percute com a nós-dos-dedos e aos costumes diz nada. Há quem saiba escolher o melão e o queijo com uma palmada: o som resultante diz-nos se é bom ou não presta, mesmo antes de o provar.

Estrutura interna da Série S

Estrutura interna da Série S

Eu fazia isso com as colunas. Pelo som da caixa, sabia o que se passava lá dentro. Agora, não. Tenho de as ouvir primeiro. Com os dedos as Magico não soam a nada: são de metal rígido. Por dentro, a caixa esconde uma complexa estrutura tipo Meccano. Uma torre Eiffel. Uma ponte D. Luís. Por fora, são cor-de-laranja. Estas S1 pelo menos são. Porque as há nas cores do arco-íris.

Magico S1 burgundy: cores diferentes o mesmo paladar (foto de catálogo)

Magico S1 burgundy: cores diferentes o mesmo paladar (foto de catálogo)

Todas as laranjas sabem a laranja. Umas são mais doces, outras mais ácidas. E há as que têm mais sumo, e as que são preferidas pela textura ou pela facilidade com que se separam os gomos, todos iguais e perfeitos. Saborosos.


Na Magico, acredita-se que só o sumo da música pode ter sabor. O sumo da coluna deve ser como a água: incolor, insápido e inodoro. As colunas não podem definir-se como saborosas, antes como “sonborosas”, um termo que cunhei agora mesmo, quando me sentei para escrever sobre umas colunas – as Magico S1 – que já não tenho cá em casa há mais de 1 mês, calculem!...


Mas conheço-lhes a música de ouvido, leia-se, de memória. Os anglosaxões dizem “by heart”, porque eles, ao que parece, guardam as memórias no coração. Nós – logo nós, Portugueses, que somos emotivos e nada racionais - temos mais confiança no...cérebro, pois sabe-se que o coração tem razões que a razão desconhece. E é aqui que a coisa se complica.


As Magico são “cerebrais”, científicas, ou não fossem os israelitas os maiores especialistas do mundo em informática. São eles que fornecem os algoritmos para todos os casinos online do mundo. Que não podem falhar, ou a banca vai à glória.


As S1 são filhas do computador e da nanotecnologia.


Alon Wolf entende que o factor humano só deve fazer parte do ADN da música, não da herança genética da coluna de som. O computador diz-lhe como vão soar mesmo antes de as construir. É como saber o sexo da criança antes de nascer.

Eu admito que me deixo influenciar pela presença de um pingo que seja de “humanidade”, leia-se “defeito”, tanto nas pessoas como nos objectos. Não sou, portanto, imparcial. Penitencio-me por isso. Mea culpa. Mas lá vou seguindo em frente à minha maneira. I do it my way.


Há entre mim e Alon Wolf, entre mim e a Magico, uma relação que, não sendo antagónica, é de difícil compreensão. Sempre achei ambos “frios”. Em Wolf, sinto a falta de empatia. Mas admiro a sua competência técnica. Nas Magico sinto a falta do “gosto a madeira”. Da fruta madura. Do envelhecimento em “casco de carvalho”. E contudo, alimentadas pela Constellation, as S5 surpreenderam-me ao ponto de as considerar o melhor som do Audioshow 2012:

“As S5 são as únicas colunas da Magico que me levariam ao altar. São a consecução da filosofia da marca de que só é possível reproduzir arte (leia-se música gravada) a partir de uma sólida base científica”, escrevi na reportagem.


Já sobre as Q1, numa breve visita à Imacustica-Porto, onde as ouvi cantar Bruckner, tendo como acólito o Momentum Stereo, escrevi a propósito:

“Todos os audiófilos entendem a importância da boa reprodução de 'decay', a mítica 'visão' da cauda do meteoro acústico, na escuridão sideral da reverberação de uma catedral, enquanto cimento harmónico das vozes de um coro.


Bruckner não busca a harmonia per si, antes a cultiva a partir da 'suspensão' contrapontística. É esta 'arte da suspensão' que só pode ser correctamente reproduzida por um sistema de elevada resolução intrínseca (não confundir com o detalhe explícito e, quantas vezes, quase obsceno, neste contexto) e umas colunas, as Q1, que, pela sua concepção e construção, não armazenam energia.'

Mais recentemente as Q7 fizeram-me sentir pequeno, na Imacustica – Lisboa. Uma pequenez que não foi só fruto da imponência metálica do monstro. Era o poder intimidante que emanava delas.

Magico Q7, no auditório principal da Imacustica - Lisboa

Magico Q7, no auditório principal da Imacustica - Lisboa

Elas podem ser de metal, mas um homem não é de ferro perante aquela racionalidade científica do desempenho acústico; precisão musical: tímbrica e tonal. E também, hélas, a minha pequenez financeira. Tudo se conjugou para que tenha escrito isto:


“As Magico S1 e Q3 fazem parte de uma nova constelação de estrelas do áudio, todas elas brilhantes. As Q7 são de outra galáxia...”.


Afinal em que ficamos?

Magico S1, no Highend Show de Munique

Magico S1, no Highend Show de Munique

A verdade é que eu nunca tinha testado “formalmente” um par de colunas Magico. As S1 foram as escolhidas. São pequenas e leves e a minha coluna...vertebral agradece.


Fizeram-se acompanhar de um Devialet 240, potente e também levezinho, outra marca “científica”, com medidas perfeitas e mais medalhas que o general De Gaulle, incluindo o de Amplificador do ano da Stereophile.


A sua actuação no palco do Audioshow 2013, acompanhado pelas Wilson Audio Duette II, “humanizou-o” aos meus olhos (ouvidos) ao ponto de me tornar mais humilde e sábio, perante um desempenho que, em outras ocasiões, admito que nunca me convenceu completamente, ou talvez fosse o entusiasmo genuíno de Ricardo Polónia, que lhe concedeu a graça do tal 'pingo' de humanidade que transforma a ciência em arte, e me levou a escrever:


 “O Devialet 240 encontrou finalmente a sua cara-metade (Duette II). Já tinha privado durante duas semanas com este mesmo Devialet, que tentei acasalar sem o mesmo sucesso com as Magico S1”.

Magico S1, pormenor dos altifalantes

Magico S1, pormenor dos altifalantes

A presente análise subjectiva das S1 tem assim a vantagem nada dispicienda de ser escrita, não em cima do acontecimento, mas já com toda a informação das reais capacidades de ambos os componentes, testadas em múltiplas situações, por outros mais competentes do que eu, assimiladas pela “razão” e pelo “coração”, restabelecendo assim a imparcialidade que o “gosto pessoal” teima em contrariar, quando só ouvimos aquilo que queremos ouvir, porque não ouvimos ainda o suficiente para sermos realmente justos.


As Magico S1 são uma duas-vias montadas numa caixa fechada, tipo cofre-forte de linhas arredondadas. Finas, altas e elegantes. Isto significa normalmente que o construtor, sem a ajuda da carga “reflex”, para tapar a cabeça tem de destapar os pés. Ou então, tem de se socorrer de altifalantes excepcionais para fintar as leis da física.


O tweeter é o conhecido MB30 com cúpula de berílio e o médio-grave solitário M390, é uma versão ligeiramente maior do M380 das S5. A Magico já tinha feito uma experiência semelhante com as Q1, pelo que o filtro divisor é muito parecido, tal como a resposta em frequência, com a vantagem do maior volume interno das S1.


O movimento de pistão do altifalante de médio-graves é de longo curso e o filtro de passa baixas deixa-o ir ao limite da sua capacidade (32Hz) para suprir a ausência da parelha de woofers das S5. Às S1 pode faltar a gravitas das S5, mas não o grave.

Magico S1: diagrama e especificações

Magico S1: diagrama e especificações

Como consequência, as S1 não são “laranja-doce” para os amplificadores, pois exigem muita corrente para alimentar a opção pela baixa impedância necessária para garantir uma boa “união” entre apenas dois altifalantes, com funções e características tão diferentes, que têm de partilhar a difícil tarefa de reproduzir toda a banda áudio sem a ajuda externa de outras unidades activas e a interna de um sistema reflex.


Talvez por isso eu tenha preferido ouvi-las com o Krell S550i, na loja da Imacustica – Lisboa; e com o Plinius Hautonga, aqui em casa. O Devialet 240, sucessor do D-Premier, tem mais potência declarada, e é alegadamente imune à carga imposta pelos altifalantes, mas uma coisa é a imunidade eléctrica, outra é a imunidade musical.


E voltamos à empatia e à “humanidade”. Com as Duette II, o Devialet 240 é uma escolha óbvia. Com as S1, eu optava pelo Krell, ou pelo Dan D’Agostino Momentum Stereo, se e quando a bolsa o permitir.


Tal como Alon Wolf, as S1 não são colunas “simpáticas”. São neutras e pouco dadas a manifestações de eufonia para agradar ao ouvinte. Como todas as Magico, não sofrem de coloração, nasalidade ou distorção audível, o que nos permite ouvir pormenores que escapam a colunas com mais “caixa torácica” e menos “garganta”. As Magico são um hábito adquirido. Como as electrostáticas...

Magico S3, novo modelo que vai ser apresentado na CES 2014, Las Vegas

Magico S3, novo modelo que vai ser apresentado na CES 2014, Las Vegas

As S1 têm uma “velocidade de cruzeiro”, a partir da qual sentimos a falta da maior envergadura acústica das S5 (talvez por isso a Magico vá apresentar este ano em Las Vegas as S3).


A resposta em fase das S1 é perfeita e garante uma imagem sólida, estável e com excelente focagem, típica das colunas de duas vias, embora com um preço bem mais “típico” de colunas de 3 e mais vias. Life is a bitch!...


Neste contexto, a resposta de graves das S1 é do tipo q.b.plus, com a vantagem de nunca “implicar” com a sala, pois não lhe excita os “maus modos” de ressonância. Mesmo a tocar muito alto!


E posso garantir-vos, por experiência própria, que não é fácil conviver em ambiente doméstico com colunas de banda larga. As Q7, por exemplo, precisam de um auditório como o da Imacustica-Lisboa para mostrar o que valem sem “danos colaterais” na vizinhança.

Magico S1 cor de laranja na loja da Imacustica Lisboa

Estrutura interna da Série S

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Magico Q7, no auditório principal da Imacustica - Lisboa

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