HifiClube

Dan D'Agostino Momentum Stereo amplifier

Momentum, em latim, significa a força do movimento, não o movimento em si. Emocionalmente, pode entender-se como impetuosidade controlada. No plano filosófico, é o paradoxo do movimento num momento fixo no tempo. Na literatura, é o fluxo indefinido de consciência de Virginia Wolf.

Fernando Pessoa definiu o momento como algo parado no tempo, uma inércia idealizada, resistente à acção, mas, ao mesmo tempo, uma transição na vida:

Nem as sensações de momentos idos me são saudosas: o que se sente exige o momento; passado este, há um virar de página e a história continua, mas não o texto"

Fernando Pessoa

O amplificador Momentum é um momento alto e, ao mesmo tempo, uma transição na vida de Dan D’Agostino, na minha vida de crítico de áudio e na história do highend.

De facto, pela sua singularidade estética, o Momentum constitui um virar de página, que exige um outro texto, uma abordagem diferente da análise crítica tradicional, porque, parafraseando Pessoa: 

“Nem as sensações de momentos idos com a Krell me são saudosas. O que sinto agora exige o Momentum”.

Momentum é, por certo, um dos melhores amplificadores a transístores do mundo, e o melhor amplificador a transístores de um mundo por mim idealizado, enquanto audiófilo e crítico. Porque nunca como agora a análise crítica e a audição pessoal coincidiram tanto nos resultados obtidos: não é mais possível separar com clareza a razão da análise da emoção da audição.

John Atkinson declarou um dia, quando ainda era editor da revista Hifi News, que, e cito: “eu era virgem em áudio até ouvir um Krell a alimentar um par de Apogee Scintilla”. Neste contexto, eu perdi a ”virgindade” em Paris, quando ouvi pela primeira vez, não um, mas vários Krells, a alimentar um par de Apogee Full Range, no âmbito das Journées de la Haute Fidelité.

Do Krell KSA100 II ao Dan D’Agostino Momentum

Foi nesse dia que conheci Ricardo Franassovici e Manuel Dias. A partir daí, tornei-me um krelómano e tive vários pares de Apogee, sempre alimentadas por Krells, incluindo o famoso KSA100 II com arrefecimento a ventoinhas!...

Até que, na CES 2010, encontro Dan algo abatido num corredor do Venetian. Havia problemas na empresa com um investidor chinês, que teria forçado a saída de Dan. As questões legais não eram ainda claras, nem me interessavam. E agora?, perguntei-lhe. Agora só tens de esperar um ano que eu vou dar a volta por cima...

Na CES 2011, Dan apresentou com enorme sucesso, junto da imprensa especializada e os meios audiófilos, os monoblocos Momentum com um par de colunas Wilson Audio Sasha, reavivando uma relação comercial e de amizade de 30 anos com David Wilson.

No meu caso, confesso que não foi amor à primeira vista. A estética art déco deixou-me indeciso. E também não ajudou aquela ambiguidade vagamente andrógina, embora admire a coragem (e o engenho) para utilizar cobre cor-de-rosa nos dissipadores de “chaminé” cilíndrica altamente eficazes.

Já o impacto visual do “relógio” é tão forte que ninguém fica indiferente. Depois do choque inicial, a qualidade do design  entranha-se e já não se estranha, para parafrasear de novo Pessoa.

Contudo, havia qualquer coisa no som que também não correspondia às minhas expectativas. Era muito bom, claro. Mas o meu sentido auditivo “epidérmico”, o tal que, por vezes, nos dá pele de galinha, pressentiu - mais do que ouviu - uma granulação electrónica fina, que tornava a audição menos confortável que a de um Krell 302e, só para dar um exemplo.

Naquelas longitudes, o jetlag prega-nos partidas e, por isso, eu tendo a não dar demasiada importância às audições necessariamente breves que faço em Las Vegas. São apenas um de muitos outros pontos de referência para análise posterior.

Mas eis que voltei a ter a mesma sensação de desconforto “epidérmico” no Audioshow 2011, em Lisboa. Das duas salas principais da Imacústica, gostei claramente mais do som da electrónica Audio Research.

Eu não conseguia entender o alcance do Proscenium (o painel côncavo que direcciona o fluxo de som dos woofers traseiros), tendo trocado abundante correspondência com Franco sobre o problema, que incluiu até gráficos da resposta em frequência das Ktêma.

O Proscenium adiciona 3dB aos graves, o que pode “sobrecarregar” as salas com frequências de ressonância próximas dos 40Hz.  Sem “costas” (o painel traseiro é amovível) as Ktêma “perdem” 3dB nos graves abaixo dos 60Hz e ganham de imediato, em articulação e definição, o que perdem em “peso” específico e “massa telúrica”. Por outro lado, ganha-se na focagem individual de cada interveniente o que se perde na imagem global e na dimensão do palco sonoro que habitam. Há mais consciência física da presença dos músicos e menos envolvimento do seu habitat natural.

Ao primeiro vagido do fruto sagrado deste casamento senti um baque no coração. O grão electrónico dos Momentum desaparecera por completo. O desconforto epidérmico, que sentira nas minhas audições anteriores,  dava agora lugar à sensação de prazer de um som macio e harmonicamente perfumado. Dan resolvera o problema sem deitar o proverbial bebé fora com a água suja do banho. Mais: tinha conseguido lavá-lo sem sequer sujar a água, que se mantinha agora pura e límpida.

As Ktêma soavam finalmente como Franco as tinha concebido, como um todo orgânico, no qual o Proscenium tinha um papel determinante. Com os Momentum, restabeleceu-se o equilíbrio entre “massa” e “espaço”, entre articulação e definição do grave, sem afectar o envolvimento físico dos músicos e o envolvimento emocional do ouvinte no processo musical em curso.

Dias depois, escrevi a Franco Serblin, dando-lhe a boa nova e pedindo-lhe desculpa, numa carta, que adaptei para um artigo que então publiquei em inglês no Hificlube, e que aqui resumo:

I have been listening for a month to the Ktêma, trying unsuccessfully to come to grips with its bass intricacies, and the Momentum finally showed the Ktêma sound in a new…eh… light.

They sound wonderful now. They fill both the room and the soul. Bass is powerful, informative  and tight, yet involving and ample in its acoustical embrace. Mids are creamy and magical. Highs are transcendental.

I don’t know if Dan did anything to the circuitry, but what I hear now is power and grace, transparency and sweetness, resolution and truthfulness, rhythm and pace, speed and control, and personality, without any character of its own.

I beg your forgiveness, Master Serblin, for having doubted your skill and artistry. I stand corrected: the “ Proscenium” is not just a marketing tool. It is there for a reason…

Conclusion: one should never doubt the Masters for they rule the universe of audio with their wisdom.

O mesmo se aplica a Master Dan’Agostinoque tinha tido, entretanto, a humildade de admitir que fizera algumas “transformações” no circuito e nos componentes dos Momentum, posteriormente à sua apresentação.

Dan deu a volta por cima, como me vaticinara em Las Vegas. É de homens com esta capacidade para renascer das cinzas que Portugal precisa, em vez de nos comprazermos nesta eterna esperança no regresso de D. Sebastião, qual Godot dos nossos dias.

A nossa vida depende sobretudo de nós próprios, e da forma como defendemos a nossa dignidade. Mestres Franco Serblin e Dan D’Agostino são exemplos a seguir. Exemplos que, aliás, toda a vida tentei seguir sem, hélas, o mesmo sucesso.

E, finalmente, chegamos ao objecto da nossa análise: a versão estéreo do Momentum, que escrevo no exacto dia em que foi divulgada uma foto da versão Momentum Integrated. Dan D’Agostino está imparável.

DAN D’AGOSTINO MOMENTUM STEREO AMPLIFIER

THE BLACK STALLION

O amplificador de estado sólido (transístores) Momentum estéreo chegou confortavelmente embalado numa mala de viagem de plástico rígido. Pois é disso que se trata também aqui: a minha viagem por um universo para muitos ainda desconhecido – o maravilhoso Universo do Highend.

Há outros amplificadores de preço e qualidade equivalente. Mas nenhum outro tem a assinatura de Dan D’Agostino, o que só por si tem valor de mercado. Quem investe 30 000 euros num amplificador estéreo quer a garantia de que ele vai continuar a valer uma elevada percentagem do seu preço de custo original, durante toda sua vida activa - e afectiva (a eterna insatisfação do audiófilo). Não é só pela qualidade – e pelo status - que se compram Audi, BMW e Mercedes. É também pelo valor comercial.

Por outro lado, há o valor estimativo e sentimental a ter em conta também. O Apple iPhone5 não faz nada que o Samsung Galaxys não faça talvez melhor. Mas as pessoas não se importam de esperar horas na fila para o comprar. Há como que um desejo intrínseco de pertencer a um clube, neste caso ao very exclusiveDan D’Agostino Highend Club, ao qual não pertence quem quer, apenas quem pode – e sabe. Porque há muitos quem podem e não sabem, e são mais ainda os que, sabendo, hélas, não podem

Já tinha, entretanto, ouvido o Momentum estéreo, na Imacústica/Porto, acolitando um par de Magico Q1, numa visita inesquecível, na qual as Aida também foram alimentadas por monoblocos Momentum.

Momentum veste-se de preto

O Momentum apresentou-se vestido de gala para o encontro com as Ktêma. O “relógio” de agulha-dupla é o único indicador de que estamos perante um amplificador estéreo. Por contraste com o brilho dos monoblocos prata-rosa, o preto até lhe fica bem e dá-lhe um ar mais macho, uma virilidade e agilidade de garanhão árabe, que ele não se faz rogado em alardear sempre que a ocasião musical o exige. Só muito raramente senti alguma falta da potência extra dos monoblocos (as Ktêma não são pêra-doce e 100W fazem muita diferença).

De resto, considero o amplificador estéreo superior aos monoblocos: na tonalidade, nos timbres, na densidade das texturas - sem perda de transparência - na estabilidade e especificidade da imagem, na ilusão de espaço e pureza atmosférica do palco sonoro, na microdinâmica que realça as subtilezas harmónicas e tímbricas; enfim, em quase todos os parâmetros que enaltecem o prazer da audição.

Nota: até um ligeiro “hum” dos transformadores toroidais dos monoblocos está ausente neste modelo estéreo.

Atenção: escrevo de memória, e admito que todos os monoblocos terão sido submetidos, antes da comercialização, aos mesmos requisitos técnicos dos mais recentes modelos estéreo, circunstância em que, garantida a mesma qualidade sonora, a potência extra (300W contra 200W) pode ser um factor determinante em algumas aplicações mais exigentes.

Aliás, os monoblocos Momentum já tinham sido utilizados, posteriormente também, com enorme sucesso, numa audição inesquecível na Imacústica, conduzida pela experiente batuta de Mestre Luís Campos.

O grito de Ipiranga de Dan

Em termos estéticos, os Momentum são uma declaração de independência de Dan em relação à Krell, um verdadeiro grito de Ipiranga, tal a diferença visual que os separa. Já na tipologia do circuito, Dan afastou-se apenas de tudo aquilo que, tendo sido por ele concebido, deve estar agora bem arrependido de ter patenteado em nome da Krell: CAST, polarização variável, etc., que tantos prémios lhe granjearam, mas que nunca me convenceram totalmente por complicarem o princípio do “fio-com-ganho”.

De resto, manteve a filosofia que sempre o caracterizou: uma fonte de alimentação quase inesgotável, que permite ao Momentum aumentar a potência na razão inversa da impedância a alimentar.

Por outro lado, Dan nunca foi defensor de certos dogmas audiófilos como a relação entre impedância de saída muito baixa e o controlo do grave das colunas, nem o radicalismo fundamentalista dos que renegam as vantagens da utilização judiciosa (localizada e não global) de alguns dB de realimentação negativa.

Tal como Hervé Deletraz, da DarTZeel, Dan dá também mais importância à largura de banda (200kHz) e à uniformidade da distorção em toda a banda áudio até à máxima potência (antes do ponto de corte=clipping). Ao contrário dos que alardeiam níveis de distorção infinitamente baixo mas que, ao variar com a frequência e a potência, roubam coerência musical ao projecto. É aqui que reside o segredo do têmpero (e do temperamento) do Momentum.

O Momentum é integralmente simétrico e apenas aceita cabos balanceados (XLR). É pena, porque eu tendo a preferir o prévio McIntosh C2200, que utilizei para o excitar (é o termo), com cabos simples (RCA). Também o ouvi excitado por um prévio Soulution 720. Sempre com cabos balanceados Siltech Classic de 3 metros e as Ktêma na outra ponta dos Black Sixteen. Gostaria de os ter ouvido com cablagem integral Nordost Odin, mas essa situação ideal não se proporcionou. Maybe some other time...

O Momentum soou excelente com ambos, não revelando nem mais nem menos que as diferenças entre eles e, claro, entre estado sólido e tecnologia de vácuo (ver teste do Soulution 720). Soará ainda melhor, arrisco-me a especular, com o prévio Momentum já anunciado. Quem sai aos seus...

Da filosofia burguesa americana à classe da aristocracia europeia

Num contexto evolutivo, o Momentum constitui um quantum leap na obra de Dan D’Agostino. Não é neutro, no sentido de neutralidade que tantas vezes se confunde com a esterilidade associada a medidas de laboratório irrepreensíveis. Em última análise, arrisco-me a posicioná-lo até “on the dark side of neutral”, mas com uma luminosidade interior que permite ver a luz da verdade para além das sombras enganadoras da caverna platónica.

Uma verdade que não choca nem ofusca antes nos liberta o corpo e enaltece o espírito, porque nos ajuda a compreender melhor o mundo musical que nos rodeia. A riqueza de informação é-nos apresentada com uma naturalidade que, na vida real, só se experimenta com a luz de Veneza, ou o morno aconchego das tardes de Outono, em Lisboa, quando cada pedra nos conta a sua história em pormenor, e os contornos da outra margem parecem desenhados numa tela gigante pela mão firme de um artista consumado.

A vida obrigou Dan a perder alguma da arrogante bonomia que transparecia na sua postura e na sua obra, que se revelava, por vezes, de forma carismática, num exibicionismo gratuito fundado na alegada superioridade técnica e intelectual – a modéstia nunca foi o seu forte. Um pouco como se verificou na passagem das Wilson Watt Puppies para as Sasha.

Os Momentum são mais sábios, sensatos e humanos, na sua abordagem do processo musical em curso. Há neles uma magnificência harmónica e uma grandiosidade dinâmica de raiz europeia, aristocrática e conservadora (Classe A/B); enquanto a Krell se continua a reger pelos princípios do poder a qualquer custo da grande burguesia americana endinheirada (Classe A).

O famoso “Krell kick” dá lugar no Momentum ao absolutismo iluminado de quem governa em nome da música e para a música, ainda com pulso de ferro, mas sem demagogia nem populismo.

Sobretudo, os Momentum são mais coerentes e previsíveis na uniformidade das suas reacções, e tratam consistentemente como igual o que é igual e como diferente o que é diferente, como se exige a um instrumento perfeito dedicado à reprodução da complexidade e diversidade da música.

No actual estado da arte, fora das fronteiras da tecnologia de vácuo (os Audio Research Ref250 são um bom exemplo), há outras propostas igualmente boas: da Ayre, DarTZeel, Krell, Pass, Soulution, Vitus, Gryphon, para citar apenas alguns concorrentes de respeito, mas nenhum outro, na minha vasta experiência, se aproximou tanto da “natureza das coisas” que fazem parte do meu imaginário audiófilo, tal como eu o idealizo hoje.

A bola está agora do lado da concorrência que, por certo, vai estudar a táctica para responder a este golo de bandeira de Dan D’Agostino, que levantou o estádio do áudio. A mim, enquanto espectador privilegiado e participante activo, o que interessa é que o jogo seja empolgante e bem disputado.

Viva a Liga do Highend! Viva Dan D’Agostino!


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