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Franco Serblin Lignea

Franco Serblin (2002)

A monitora Lignea é a obra póstuma do Mestre de Arcugnano, Vicenza, na linha de outros grandes artesãos como Amati, Guarneri e Stradivari.

Quando Franco Serblin revelou ao mundo as Ktêma, depois de 3 anos de silêncio monástico, escrevi isto na abertura da notícia:

‘Franco saiu da Sonus Faber em circunstâncias que nunca foram explicadas, mas que têm obviamente a ver com diferentes concepções de gestão do tempo – o de Franco, que é Moderato gracioso e o do mercado que é Presto’.

Agora sei porque saiu e também sei que foi convidado a ficar com garantia de autonomia criativa. Mas Franco era um espírito livre e a dor e o orgulho falaram mais alto. Tanto que, depois de nos ter dado as Ktêma e as Accordo, Franco faleceu, num Domingo de Páscoa – o dia da ressurreição...

No epitáfio que, então, escrevi pode ler-se:

‘De todos os grandes criadores audiófilos que conheci, ao longo da minha carreira de trinta anos, Franco Serblin terá sido aquele com quem estabeleci maior empatia, que se tornou com o tempo numa relação de amizade fraterna, alicerçada no respeito mútuo e, sobretudo, na minha admiração pela sua genialidade e personalidade cativante.’

Nota: pode ler texto integral do epitáfio aqui.

Franco Serblin Lignea, a obra póstuma do Mestre

Franco Serblin Lignea, no auditório da UAE, Benfica

Franco Serblin Lignea, no auditório da UAE, Benfica

Como outras grandes obras póstumas da cultura mundial, a coluna de som monitora Lignea foi acabada por Massimiliano Favella, genro e discípulo de Franco Serblin, cumprindo os desejos e seguindo os princípios do último grande mestre artesão de Arcugnano, que sempre foi um cultor dos pequenos monitores, tendo atingido o expoente máximo com as Electa Amator. Eu tenho ainda um par das Concertino originais que preservam a ‘memória acústica’ de Franco.

Lignea (especificações de fábrica)

Lignea (especificações de fábrica)


Trata-se de um mini monitor de apenas 4 litros, em forma de instrumento musical invertido, talvez um alaúde renascentista. Os detractores poderão alegar que se parece com uma cobra capelo, mas até essas têm uma forte conotação com a música - quem não conhece os encantadores de serpentes egípcios?...

Acontece que, neste caso particular, somos nós, os ouvintes, que ficamos ‘encantados’ pelo som das pequenas Lignea, que desaparecem de cena para nos deixar perante um espaço musical ao mesmo tempo intimista e sensual: ‘intimissi’, ou não fossem italianas.


As Lignea são construídas em madeira sólida, com uma câmara de refracção traseira concebida de forma a eliminar as ondas estacionárias. O ‘tweeter’ de cúpula de seda tratada de 27mm e o médio-grave de 110mm estão montados num ‘baffle’ estreito que proporciona o ‘vanishing act’, com boa integração das unidades graças a um filtro de 1ª ordem, criando uma imagem muito estável e com excelente definição.

A sensibilidade é baixa mas a impedância nominal permite a utilização de amplificadores de baixa potência, nomeadamente até tríodos de aquecimento directo capazes de gerar pouco mais de 20W. Mas, como sempre, um pouco mais de potência disponível é um factor de conforto e segurança adicional na audição.

As Lignea e os Accuphase na UAE

As Lignea e os Accuphase na UAE

As Lignea foram apresentadas ao mundo, no HighEnd 2016, de Munique. De forma inexplicável – eu diria mesmo, imperdoável – falhei a apresentação. Desde então, tenho andado a namorá-las na Ultimate Audio Elite, que é o actual distribuidor em Portugal e me proporcionou uma audição, em condições acústicas óptimas, no auditório mais pequeno da loja de Benfica, com amplificação Accuphase E-470 e fonte DD-500.

Com apenas 4 litros de volume interno, não se podem esperar grandes cometimentos no departamento dos graves, que contam com a ‘carga’ do tipo ventilada reflex para obter uns razoáveis 53Hz. Contudo, o acoplamento acústico com a sala faz-se de forma empática, pelo que a sensação de extensão é bem maior que a prescrita no papel.

As Lignea foram alimentadas na UAE pelo Accuphase E470 com fonte DD550

As Lignea foram alimentadas na UAE pelo Accuphase E470 com fonte DD550

Como é apanágio da marca, a reprodução da voz feminina e das cordas é sublime, sobretudo os violinos. A voz masculina e os violoncelos não denunciam omissões graves do…uh…grave, sendo reproduzidos com peito e corpo q.b.

O som é leve, com um bom compromisso entre a ‘doçura’ musical, que o nome de Franco Serblin contempla; e a maior ‘vivacidade’ e ‘luminosidade’ exigida pelos tempos modernos.

Os mais audazes poderão acoplar um par de subwoofers de pequeno porte, como os GoldenEar ForceField 3, se e quando a ocasião o exigir.

Duo clássico/moderno: Luxman L-505ux e Franco Serblin Lignea

Duo clássico/moderno: Luxman L-505ux e Franco Serblin Lignea

Mas para a audição da sua dose diária de música as Lignea a solo são quanto basta e vão proporcionar-lhe horas de prazer, pois o grave, embora limitado na extensão, tem excelente sentido rítmico e constitui fundamento bastante para sustentar a qualidade musical da gama média, que revelou ter o entrosamento que tornou famosas as LS35a; e a definição e transparência que atraiu durante anos milhares de fiéis para as Quad electrostáticas.



Com uma diferença: as Lignea tocam bem mais alto do que seria suposto com um corpo tão esbelto. E, por isso mesmo, são não apenas mais domésticas, constituem também uma mais valia decorativa, enquanto objecto de arte. Nem o velho ‘caixote de sabão’ das LS35a, nem o monólito desengraçado das Quad.

Programaçao musical via Tidal/Masters a partir de um BlueSound Node 2

Programaçao musical via Tidal/Masters a partir de um BlueSound Node 2

As colunas foram colocadas próximas de paredes nuas que contribuíram para alguns reflexos que tornaram os médios mais vivos e menos puros.

E as ressonâncias dos graves, tão bem controladas no auditório da UAE, ‘incharam’ as percussões, conferindo um poder inesperado – apesar de tudo, entusiasmante – à programação musical do meu filho Pedro Henriques que, depois de passar umas peças de Haydn, por Isabelle Faust e de um concerto de oboé de Bach, só para me agradar, abriu as hostilidades com Stimela, de Hugh Masekela, Back in Black, dos AC/DC e ‘Master Of Puppets’, dos Metallica, deslizando para o álbum ‘Private Dancer’, de Tina Turner e fechando com uma gravação notável: ‘Red River Blue’, de Blake Sheldon, tudo via Tidal/Masters a partir de um BlueSound Vault 2.

E não é que as pequenas Lignea se comportaram sempre na…linha!

As Lignea são uma mais-valia decorativa, enquanto objecto de arte funcional.

As Lignea são uma mais-valia decorativa, enquanto objecto de arte funcional.

Eis a Lignea, a coluna/escultura com elevado WAF que agrada a eles e a elas, curiosamente talvez pelos mesmos motivos: beleza e musicalidade. Tudo por um preço de peça de arte: 4500/4800 euros.

Para mais informações:
Ultimate Audio Elite

Franco Serblin (2002)

Franco Serblin Lignea, no auditório da UAE, Benfica

Lignea (especificações de fábrica)

As Lignea e os Accuphase na UAE

As Lignea foram alimentadas na UAE pelo Accuphase E470 com fonte DD550

Duo clássico/moderno: Luxman L-505ux e Franco Serblin Lignea

Programaçao musical via Tidal/Masters a partir de um BlueSound Node 2

As Lignea são uma mais-valia decorativa, enquanto objecto de arte funcional.