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Focal Utopia – auscultadores dinâmicos de referência absoluta

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Tudo começou em 2012, quando Françoise Bardon visitou o novo distribuidor em Portugal – a Esotérico, Consultores de Som. Numa pequena entrevista, que me concedeu in extremis, já na esplanada do aeroporto, Jean-Philippe Fontaine, que a acompanhava, deixou no ar que a Focal se preparava para entrar no mercado dos auscultadores, com um modelo designado por Spirit One, que tive mais tarde a oportunidade de testar (ver em Artigos Relacionados).

Para primeira tentativa, o Spirit One, entretanto substituído pela linha Listen, portou-se com dignidade audiófila q.b, até porque era um produto bem acessível.

Cinco anos depois, lançou o modelo Utopia é de 2017, que só agora me chega às mãos (e aos ouvidos). O salto qualitativo (não o quantitativo: 3999 euros!) pode parecer pequeno para a Focal, que produz colunas de 200 mil euros, e já nos propôs, ao longo dos últimos anos, modelos cada vez mais apurados, com os Clear, Elear (ler teste em Artigos Relacionados no final da página) e os mais recentes Stellia (topo de gama fechados), apresentados no Highend 2019, Munique.

A Focal apresentou modelo Stellia (topo-de-gama fechado) no Highend 2019 - Munique

A Focal apresentou modelo Stellia (topo-de-gama fechado) no Highend 2019 - Munique

Focal Utopia é um salto de gigante, se não para a humanidade, pois não está ao alcance de muitos, pelo menos para a irmandade audiófila...

Pequeno passo para a Focal, passo de gigante para os audiófilos

Mas é um salto de gigante, se não para a humanidade, pois não está ao alcance de muitos, pelo menos para a irmandade audiófila, que já desesperava para ouvir uns auscultadores dinâmicos capazes de se baterem com os modelos que utilizam tecnologias de transdução exóticas: electrostáticos e planar-magnéticos.

To make a long story short, os Focal Utopia são os melhores auscultadores dinâmicos abertos que estes olhos já viram - e ouvidos ouviram. E também são os mais caros. Não me perguntem se o som justifica o preço. Neste mundo, a única coisa que justifica o investimento é aquela que nos dá mais prazer que outras de igual preço. É este o caso dos Focal Utopia.

Mas o conceito de prazer é algo de demasiado pessoal para podermos garantir que os Utopia vão agradar a toda a gente, a ponto de não resistir adquiri-los, quando a concorrência de outras tecnologias a este nível é muito forte.

Tanto mais quanto ‘pessoal’ aqui não é apenas uma questão de gosto. Se o desempenho das colunas de som varia com a sala onde são colocadas, o dos auscultadores varia ainda mais com o tamanho, formato e relevo interno do pavilhão auricular de quem os utiliza.

Tocar de ouvido – ou de orelha

Por exemplo, o meu pavilhão auricular é de pequeno-médio formato e cabe praticamente todo dentro das cápsulas ogivais dos Utopia. Com orelhas de grande formato, uma parte maior ou menor do pavilhão será sempre ‘pisada’ pelas almofadas de espuma, fofas e macias, revestidas com pele de cordeiro natural e tecido aveludado no interior. São, aliás, as mais confortáveis que já experimentei. Mais agradável do que isto só o contacto morno da pele humana – mas isso seria ir longe demais…

Ora, a simples colocação circum-auricular ou parcialmente supra-auricular é suficiente para alterar a percepção tonal, próxima da perfeição possível dos Utopia.

Mas há mais: a posição das fichas do canal direito e esquerdo e a colocação dos auscultadores na cabeça, que em termos acústicos nunca é indiferente, pois a imagem pode ficar invertida, também não o é aqui em termos físicos. O ângulo de ataque dos auscultadores não é paralelo aos ouvidos, mas num ângulo mais aberto atrás, logo mais afastado do ouvido; e fechado à frente, logo mais próximo do ouvido. Outras marcas, como a Hifiman, utilizam almofadas mais espessas atrás do que à frente para obter o mesmo efeito de convergência.

Assim, basta deslizar os auscultadores sobre as orelhas um pouco mais para trás ou para a frente para o som ganhar um equilíbrio tonal diferente: mais grave ou mais agudo. A diferença é audível por qualquer pessoa.

Portanto, coloque os auscultadores sempre na posição em relação aos seus ouvidos que lhe soar mais neutra. Só assim vai poder apreciar a ‘neutralidade utópica’. dos Utopia

A suspensão basculante dos auriculares está fixada a hastes de fibra de carbono, que deslizam para ajuste firme na bainha interior da cabeceira em alumínio, bem almofadada com espuma e forrada também a pele perfurada na parte inferior para facilitar a ventilação e a respiração do couro cabeludo (ou da careca). A boa distribuição do peso faz-nos (quase) esquecer que temos cerca de meio quilo sobre a cabeça.

Preto-e-prata                  

As cápsulas são fabricadas em plástico rígido preto, como preta é a cor geral dos Utopia, incluindo a grelha de protecção, por onde escapa o som emitido pelo sistema multi-reflex (vented system) de carga de graves do altifalante. Na zona central da grelha, paira uma espécie de esfera armilar, prateada e de malha mais aberta, através da qual se pode ver as costas do altifalante, por onde respira a sua onda traseira, que assim só encontra a do grave mais profundo dos ventiladores fora dos auscultadores.

O cabo amovível é de excelente qualidade, assim como as fichas Lemo de baioneta e jack dourado Neutrik, mas excessivamente longo (3 metros!) e tão pesado, que é impossível abstrair-mo-nos dele. A Focal devia fornecer um cabo alternativo mais curto, para quem como eu tem o DAC perto, e já agora com um jack compatível com o telefone, e não só: o Dragonfly Cobalt e o Naim Uniti Atom também só aceitam jacks de 3,5 mm, pelo que precisei de um adaptador.

Nota: no site da Focal, pode ler-se que os Utopia são fornecidos com um cabo balanceado (XLR-4 pinos) de 3 metros e outro de 1,2 m com jack de 6,35, além de um adaptador fêmea de 3,5mm. E há outras variantes como um cabo de 4 m.

Sim, porque o Focal Utopia tem uma sensibilidade de 104dB e qualquer brinquedo o põe a tocar. Como é óbvio, toca tanto melhor quanto melhor for o equipamento associado, nomeadamente o DAC/amplificador. No meu caso, obtive os melhores resultados com o Chord Hugo 2.

São os melhores auscultadores dinâmicos que já ouvi e batem-se com os melhores planar-magnéticos...

Do kevlar ao berílio

O segredo do som do Utopia reside sobretudo na unidade full-range desenvolvida pela Focal em exclusivo para este projecto, baseada nos tweeters de Kevlar dos sistemas car-audio da marca. A Focal aproveitou o revolucionário formato em M destas unidades de longa-excursão, construiu uma unidade de 40 mm em berílio, um metal ultra-leve e rígido, que tem uma enorme capacidade para deslocar ar, e conseguiu obter uma resposta em frequência entre os 5Hz e os 50kHz! O sistema magnético com os ímans-pétala, montados em forma de flor, e uma bobina ultra-leve fazem o resto.

Tratando-se um modelo ‘aberto’ do tipo dipolo, o Utopia não é ideal para ouvir em espaços fechados onde se exige silêncio; nem em espaços abertos com muito ruído ambiente. No primeiro caso, pode incomodar terceiros; no segundo, são os ‘terceiros’ a incomodá-lo a si. Contudo, a ‘fuga’ de som para o exterior é moderada e muito menos audível que com os modelos planar-magnéticos como o Hifiman.

Da surpresa ao êxtase

Que posso dizer? Os Utopia são extraordinários. São os melhores auscultadores dinâmicos abertos que já ouvi e batem-se com os melhores planar-magnéticos, embora aqui eu admita que a escolha não está só no conteúdo mas na forma.

Os planares são mais etéreos e abrangentes no seu abraço acústico, e têm uma forma de apresentar graves, médios e agudos tão peculiar quanto difícil de reproduzir com um altifalante dinâmico. Por outro lado, as membranas não conferem esta estrutura sólida ao som, transformando cada evento acústico numa entidade com surpreendente presença física, tangível, palpável, real.

A 'realidade' da membrana é supra-real (não confundir com artificial, pois é algo de mais transcendental), ainda que de grande beleza. O altifalante de berílio dos Utopia não embeleza, não recria, reproduz apenas. Tudo. Mesmo o que não é bonito. E ouvem-se coisas no fundo do palco, antes ocultas no nevoeiro da mistura, com uma claridade e detalhe que revela novos intervenientes, planos e dimensões antes desconhecidas.

Não, a imagem não tem a dimensão virtual recriada pelos planares ultra-abertos. Nem o ar que nela se respira. A imagem dos Utopia é mais compacta, mais contida, mas também mais precisa na especificidade dos múltiplos elementos que a compõem, perfeitamente definidos pelo tom, pelo timbre e pela estabilidade do seu posicionamento no palco sonoro.

A apresentação dos Utopia é franca e frontal. Já ouvi outros grandes auscultadores com esta capacidade para nos revelar o que se passa na primeira fila, sem rodeios, sem peias e sem receios. Mas já são muito poucos os que tratam a segunda, terceira fila, e por aí fora até ao fundo do palco, com o mesmo respeito e consideração, discriminando para não 'discriminar'.

Com os Utopia, vai passar a ter outro respeito pelo trabalho dos coros anónimos que acompanham cantores famosos, como Leonard Cohen. Porque vai passar a ouvir o que eles estão de facto a cantar. E é muito mais do que alguma vez pensou. E vai passar a reconhecer cada rosto de um coro clássico como entidades individuais com alma e personalidade própria, que apenas se submetem ao interesse colectivo e aos desígnios do maestro para nos poder transmitir assim o génio criador do compositor.

Esta informação adicional não contribui apenas para uma maior sensação de presença. Há também uma maior sensação de pertença. De participação. De fazer parte. De estar lá.

Os Utopia são tão coesos e o equilíbrio tonal tão próximo da perfeição que escalpelizar as diferentes gamas de graves, médios e agudos não passa de um exercício académico. Mas noblesse oblige. Crítico que é crítico tem de publicar este exercício, sob pena de o ‘criticarem’ por não ter feito o trabalho de casa.

Do grave ao agudo sem fronteiras acústicas

O grave é tenso e intenso. Não é particularmente notável pela pressão sonora ou extensão, antes pela intenção, pois tem um ritmo contagiante e um ataque impressionante, que nos arrasta para o processo musical em curso e espoleta os nossos mais ‘baixos instintos’.

As linhas de baixo soam todas bem definidas, com excelente nível de articulação e recorte. Há quem os ache algo ‘secos’ neste departamento, mas basta ouvir as congas na entrada de Hotel Califórnia, dos Eagles (Hell Freezes Over – Remaster 2018) e o exercício de percussão na entrada de ‘I Will Remember’, do álbum Tambu, por Toto, para perceber que estamos perante um produto superlativo. Ou o respirar pulsante e telúrico dos sintetizadores nos discos de Kendrik Lamar…

Os registos médios não sofrem de qualquer constrangimento dinâmico ou sequer tonal, pois o grave não se imiscui nesta ‘grande área’ mais do que aquilo que é exigido pela restrita lei da neutralidade. É frontal, limpo, claro, transparente, rico em pormenores e não sofre de colorações ou nasalidade. Trata as vozes femininas e masculinas sem outra discriminação de género que não seja a natureza biológica do ser cantante. Taylor Swift ou Gregory Porter, tanto lhe faz.

Ao princípio, achei o agudo seco e fechado, nunca áspero ou árido. Habituei-me com o tempo a considerá-lo apenas como a extensão legítima dos médios. Está lá, sem estar, estando…

Basta ouvir uma das minhas peças religiosas preferidas, o magnífico Magnificat, de Kim André Arnesen (352 kHz/24-bit) para entender o que é ‘valor percebido’ de um produto que ronda os 4 mil euros, e está fora do alcance da maior parte dos audiófilos, incluindo este vosso escriba.

No fim da audição, já conhecemos o ‘rosto’ de cada uma das jovens cantoras que compõem o Nidaros Cathedral Girl’s Choir’ e qual a sua posição relativa no palco.

E é curioso comparar depois com o rosto real que nos é dado a ver no vídeo disponível no You Tube. Já sei que não se pode comparar um registo em muito alta resolução com a versão em MP3 do You Tube. Mas a imagem ajuda-nos a ‘engolir’ a diferença. Prepare-se para sentir um arrepio na espinha…

É um facto que os críticos têm uma natural tendência elitista para listar discos raros que, tal como os Utopia, nem sempre estão ao alcance dos leitores, deixando-os na contingência de aceitar como válida a opinião alheia. Por isso, decidi fechar esta crítica com três concertos Tiny Desk, gravados ao vivo, num dos escritórios da Rádio Nacional Americana, com uma qualidade de som e imagem excepcional, se considerarmos que chegam até nós via You Tube.

A audição destes concertos com os Utopia é um acontecimento em si mesmo.

Ao vivo e sem rede na Tiny Desk, em Washington DC

São concertos intimistas e breves (15 a 25 minutos), com os artistas a dirigirem-se às poucas dezenas de pessoas presentes, em tom coloquial, acompanhados com recato e parcimónia quase in sotto voce; ou a solo, tocando vários instrumentos, que nos permitem aquilatar da qualidade dos Utopia na reprodução de voz (discurso e canto) e uma variedade de instrumentos, com um nível de pormenor acústico que não cessa de me encantar, independentemente da apreciação pessoal do estilo e género musical.

Só o risco que os artistas correm por se apresentarem assim em público ‘sem rede’ justifica o meu aplauso. Os Utopia fizeram o resto.

Taylor Swift

Ninguém chega ao topo sem talento. E Taylor revela-o aqui sem precisar do apoio de uma super produção de palco: sem bailarinos e orquestra, como ela própria reconhece. Além disso, é bonita. De uma perfeição de Barbie, daí também o seu enorme sucesso, talvez. A captação da voz - falada e cantada - é notável de claridade e detalhe. Passe à frente, se não lhe interessa a 'conversa da treta' para agradar aos fãs, e oiça-a tocar e cantar como se estivesse em casa com um grupo de amigos.

Erykah Bad 

O protótipo da cantora excêntrica de jazz-soul-blues, em caldo de fusão étnica, com os seus olhos verdes - e lábios roxos - de piercings improváveis e rastas abundantes, como abundante é o seu talento, utilizando a voz como mais um instrumento. Um concerto rico de pormenores e pequenos detalhes acústicos, revelados pelos Utopia, que faz as delícias de qualquer audiófilo. E pensar que perdi um concerto de Erykah Badu, em Las Vegas, por um dia...

Gregory Porter

Piano e voz rouca, ora poderosa ora sussurrante, de barítono negro. Dois notáveis instrumentos que os Utopia reproduziram com cativante qualidade e naturalidade. Fantástico, é dizer pouco. Nem quero pensar no que seria ter acesso às matrizes originais destes concertos (como tenho do Magnificat) para as ouvir com os Utopia. Pai Natal, estás a ouvir-me?...

Para mais informações:

Telefone: +351 219 839 550
E-mail: geral@esoterico.pt

Praceta Alves Redol, 2 (Fanqueiro)
2670-353 Loures – Portugal

https://esoterico.pt/empresa/

 

Focal Utopia headphones 2

A Focal apresentou modelo Stellia (topo-de-gama fechado) no Highend 2019 - Munique