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Kronos Sparta no Ritz

Kronos Sparta, Nagra Phono, McIntosh C50/275 Anniversary, Vivid Giya 2, um sistema de sonho, num hotel de luxo, sob a luz da cidade branca.

Já tinha trocado umas palavras com Louis Desjardins por ocasião do Audioshow 2013. Louis voltou e, desta vez, trouxe a esposa e a filha. Lisboa é uma cidade linda, olhe elas têm andado por aí a fotografar tudo, comentou.


É pena é estar a chover, desculpei-me.


Ora, isto não é nada para nós, em Toronto está a nevar e faz um frio de rachar. Nós somos francófonos católicos, e a nossa cultura tem muito em comum com a vossa. A arquitectura e a ambiência de Lisboa é maravilhosa.


Sabia que este Sparta é o primeiro a ser construído e o primeiro a ser vendido no mundo?

Kronos Sparta: obra de arte moderna e de precisão mecânica.

Kronos Sparta: obra de arte moderna e de precisão mecânica.

Grande honra para os audiófilos portugueses amantes do vinil, elogiei. Quem será o feliz contemplado?


E que tal lhe soa o Sparta, em relação ao Kronos, que ouviu no Pestana Palace?


A minha primeira sensação, puramente subjectiva, é a de que o Kronos tem um patamar de silêncio ainda mais baixo: o negro é mais negro, como nos televisores de alto contraste. De resto, a dinâmica e a estabilidade são muito semelhantes. Claro que o sistema é totalmente diferente, a sala e as condições de audição jogam a favor do Sparta. E o preço também.


E embora o design seja menos elaborado, assim como a construção, vejo-o mais como uma peça de arte moderna e menos como um instrumento científico. Talvez porque a monitorização da velocidade seja mais discreta e dispensa os leds numéricos.


Faz-se por meio de um stroboled integrado na fonte de alimentação, montada atrás. Só precisa de ser afinado de seis em seis meses. E agora só tem um motor para os dois pratos em contrarotação.


Quer ouvir a diferença no som que faz o prato inferior? Vou retirar a cinta e deixar a rodar apenas o prato superior. Vamos ouvir um excerto de uma faixa de música clássica. Agora com os dois pratos. O que é que acha?

Kronos Sparta & Friends: McIntosh e Nagra

Kronos Sparta & Friends: McIntosh e Nagra

A diferença era tão óbvia que eu me pergunto porque ninguém tinha pensado nisto antes. Na extensão da resposta, sobretudo no grave, e no contraste dinâmico. Na cor e textura também. E na ausência de compressão. O som é mais expansivo, assim como o palco, cujas linhas de demarcação são mais “visíveis”.


Pois é, riu-se Louis. E só registei a patente nos EUA.


E na China?


Na China, não. Seria igual ao litro, de qualquer maneira, porque eles copiavam na mesma. Cópias de má qualidade, claro, que só enganam os tolos. E na Europa, nenhuma empresa séria se arriscaria a copiar. Primeiro, porque não podiam vender nos EUA. E depois, qual seria a desculpa? Ficavam mal vistos no mercado europeu também. Não estou preocupado. Eu faço o meu trabalho. E fico feliz por ter clientes que gostam e compram Kronos originais. E um distribuidor que sabe o que é um bom gira-discos. I like these guys, a lot! They know what they are doing...


O highend é o último reduto da criatividade num mundo onde tudo é cada vez mais igual e nivelado por baixo.


Olhe, na China, actualmente, são imbatíveis é a copiar as antigas válvulas Mullard e Telefunken. Nunca soaram tão bem. Por comparação, as originais soam nasaladas, imagine.


E entrámos ambos noutro reino tématico: as válvulas.


Não está a falar das Golden Dragon, pois não?


Não, é algo de novo e transcendente, fabricado por equipas especiais de trabalhadores chineses altamente qualificados. Cada válvula pode custar 100 dólares!

McIntosh MC275 50th Anniversary: kriptonite valvular

McIntosh MC275 50th Anniversary: kriptonite valvular

É que eu substitui as válvulas chinesas 12AX7 e 12AT7 de origem do meu velhinho McIntosh C2200 por raras ECC801S da Telefunken (produção especial alemã) e 12AX7S da Radiotecnique (francesas), cortesia do meu amigo José Martins. What a difference!...


São essas Mullard/Telefunken (versão chinesa ultrahighend) a que me refiro. Soam ainda melhor que as originais. You should try some day... (Louis disse-me a marca, mas eu não me lembro qual).


Os McIntosh 275 Anniversary pareciam estar a ouvir a nossa conversa enquanto nós os ouvíamos a eles. Meteram-se em brios, puxaram pelas Vivid Giya e o som estava cada vez melhor, enchendo a sala e envolvendo os presentes num amplexo musical.


O nosso cérebro é um filtro digital maravilhoso. Uma hora depois de eu ter chegado já tinha escrutinado os parâmetros da reverberação da sala e as colorações do sistema a eliminar. Ficava a música, apenas a música. O piano de Keith Jarret soava poderoso e dinâmico, ora lírico ora romântico, clássico ou moderno, erudito ou progressista. O som estava alto e não incomodava nem perturbava minimamente o diálogo.


A minha irmã era pianista (eu toco violino). Cresci a ouvir um piano seis horas por dia em casa. Faz parte do meu ADN. E este conhecimento intrínseco ajudou-me imenso a afinar o Kronos.


Da música, passámos para os músicos.

As Vivid Giya são sempre convidadas de honra das apresentações públicas da Ajasom

As Vivid Giya são sempre convidadas de honra das apresentações públicas da Ajasom

Keith é um génio com mau feitio. E rimo-nos os dois. Um dia estava num concerto, e passados 45 minutos levantou-se e foi-se embora, praguejando que o piano não prestava! Ficámos todos a olhar uns para os outros, pensando que ele voltava. Não voltou...


Fez o mesmo em Portugal. Ameaçou ir-se embora por causa já não me lembro bem de quê. E não é que foi mesmo!...


Ouve-se um grito de autoincitamento de Keith no disco que estava a tocar. E o proverbial humming  autoacompanhamento rítmico do pianista. Do Keith, não do sistema.


Pois, com o Oscar Petersen era o mumbling. E o Glenn Gold também se acompanha a si próprio. Grandes pianistas todos. Aos grandes perdoa-se tudo!


Um dia fui ouvir o Bill Evans já em fim de carreira. Estariam 20 pessoas na sala. E ele já muito débil e andrajoso. Parecia um pedinte. Tinha por ele uma adoração enorme e fiquei chocado.


Life is a bitch! Olhe, por cá, há músicos que acham que temos o dever de os subsidiar até morrerem...


O círculo fechou-se e voltámos ao Sparta.

O Sparta é muito mais fácil de construir. O chassis é feito de uma única peça, que pode ser cortada por uma máquina. Tem um pouco mais de ressonância mas não afecta o desempenho por aí além. Eu diria que tem 90% da qualidade de som do Kronos. E não é só espartano no nome e na economia. Tem uma filosofia de produção rigorosa de base militar. Na fábrica há um grupo de “operações especiais” dedicado exclusivamente ao Sparta. São todos numerados e personalizados com uma chapa, e cada “soldado” responsabiliza-se pelo seu gira-discos. E o comprador tem direito a uma cópia dessa chapa de identificação com a respectiva corrente para guardar ou pôr ao pescoço, tipo “marine”.


Outra novidade é o braço de carbono Helena. Feito à mão, camada a camada. Ele só faz um por semana. São todos diferentes, porque não são feitos por uma máquina, mas mesmo assim cumprem rigorosamente as especificações de desempenho acústico. É uma obra prima, feita com paixão e engenho!


Fiquei por lá na Sala Camões mais de duas horas: a conversar, a ouvir música. Mais tempo ficaria 'se não fosse para tão grande amor tão curta a vida'.


E a filmar e fotografar, claro. Para vos poder transmitir a minha experiência. Porque o melhor é experimentá-lo, 'mas julgue-o quem não pode experimentá-lo...'.


Para mais informações: AJASOM

Kronos Sparta, Nagra Phono, McIntosh C50/275 Anniversary, Vivid Giya 2, um sistema de sonho, num hotel de luxo, sob a luz da cidade branca.

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