Editorial

DSR - Direct Soundfield Recording

Eifell, a coluna romântica por excelência

No território do áudio, também há a “silly season”. Quando as lojas fecham e os audiófilos partem para férias, os críticos também “vão a águas”, e aproveitam para lavar o fígado, perdão, os ouvidos e limpar as gavetas, onde encontrei este disco esquecido, pois há poucas novidades realmente interessantes para testar, e as que há os distribuidores, que também foram para a praia – e não atendem o telefone - estão a “guardá-las” para os “shows” que se aproximam.

A “saison” do Hificlube começa em Outubro, com o Salon de Paris, nem que seja para ir ver a torre e outras colunas igualmente românticas pela enésima vez; e, claro, o Audioshow, de Lisboa, no início de Novembro, no Pestana Palace, que, tal como a democracia, não sendo perfeito, ainda não há melhor simplesmente, até porque não há outro...

Aliás, honra nos seja feita, ao contrário de outras áreas bem mais importantes, como saúde, educação, segurança e civismo, na divulgação e comercialização do áudio estamos ao melhor nível europeu. Só não conseguimos bater os alemães, mas isso nem no futebol...


Cá pelo burgo, enquanto estive de férias, fui ouvindo notícias com graves profundos: BES, Ucrânia, Gaza e o Ébola; registos médios da luta fraticida do PS que se pautam entre o falsete do Seguro e o tom escuro de barítono do Costa; e os agudos estridentes da DJ Paris Hilton, que não contribuem em nada para melhorar a péssima imagem internacional de um país sem estabilidade, foco, luz ou dinâmica, sequer grandeza, muito menos nobreza.


E não estou - antes estivesse - a referir-me às características da imagem stereo ou surround, de que vos vou falar a seguir. 


Todos os nossos políticos têm ideias geniais para resolver os problemas do país, mas como elas nunca vingam, enquanto eles singram, os mercados “vingam-se” nos suspeitos do costume - nós.


No áudio e no vídeo é igual. Nos últimos 30 anos, assisti ao nascimento de tantos formatos novos que lhes perdi a conta. A maior parte deles não “vingaram”, embora todos fossem apresentados como o Ovo de Colombo, que iria revolucionar o mercado e trazer a felicidade eterna aos audiófilos e videófilos.


Lembram-se do MiniDisc, da DCC (cassete digital), do DVD-Audio?...


Assisti também a guerras fraticidas entre SACD e DVD-Audio, HD-DVD e Blu-Ray. À morte e ressurreição do LP face ao CD, do stereo face ao surround, do 2D (agora em 4K) face ao 3D.


Que no meio desta baralhada ainda haja gente com coragem para propor (com o apoio de fundos da UE, pasme-se!) mais um formato áudio multicanal em disco óptico, é motivo para duvidar da sanidade mental de quem gere os fundos comunitários para a tecnologia e cultura. Aqui está uma boa pasta para o Moedas...


Claro que isto só podia ser uma proposta da França, habituada a mamar à grande e à francesa na teta da PAC! Lembram-se, por certo, ainda da HDTV analógica europeia também proposta pela – já adivinharam – França, que custou milhões aos contribuintes europeus e foi para o caixote do lixo tecnológico.


And yet, como diria Shakespeare, a ideia do DSR, Direct Soundfield Recording, em si própria, até tem lógica e algum fundamento audiófilo, apesar de utilizar um suporte físico defunto: o DVD-Audio, o que não abona muito em favor da visão (ou será audição?) dos seus promotores.


Direct Soundfield Recording

Capa do disco de promoção da DSR, nas versões CD e DVD-audio multicanal

Capa do disco de promoção da DSR, nas versões CD e DVD-audio multicanal

Nouvelle Vie”, do Vincent Bidal Trio (jazz francês), fazia parte do press-kit do Salon Hifi 2013, de Paris.


Na altura, pensei que era apenas mais um disco de promoção de uma editora, e dei mais atenção ao Blu-ray Pure Audio, da Universal, numa tentativa (também falhada) de “(re)vender” o catálogo da editora, agora a 96kHz-24bit, alegadamente a partir das matrizes originais, mas mantendo o suporte físico em detrimento da moda do “download”.


Da Pure Audio Series, da Universal, faz parte o famoso Breakfast in America, dos Supertramp, que hélas não foi incluído no “sampler” de demonstração, tendo sido substituídos entre outros por Jacques Brel, Serge Gainsbourg e Johnny Hallyday, todos eles enfants de la patrie...

Capa do Blu-Ray de promoção da Pure Audio (catálogo da Universal a 96/24)

Capa do Blu-Ray de promoção da Pure Audio (catálogo da Universal a 96/24)

Com tempo de sobra na “silly season”, descobri que a editora Passavant Music pretendia afinal promover a tecnologia de registo/reprodução DSR, comercializando o resultado num pacote duplo, que inclui um CD estéreo (a gravação é excelente, sem dúvida) e um DVD-Audio com a versão multicanal (5-canais).


DSR vs. DTS/Dolby Surround


Qual a diferença então entre estes formatos? Para já, a ausência do 5.1, ou seja o sinal específico para subwoofers. Por outro lado, o DSR não tem canais “traseiros” de “ambiência, “envolvência”, “espacialidade”, numa palavra: “surround”.


No DSR, todos os cinco canais são reproduzidos por colunas iguais, colocadas a espaços regulares em semi-círculo, em frente do ouvinte e nunca atrás, embora se possam colocar duas colunas lateralmente.

DSR - proposta de configuração ideal para audição multicanal de música

DSR - proposta de configuração ideal para audição multicanal de música

As colunas são colocadas na sala no espaço virtual correspondente à posição dos microfones, de tal forma que cada coluna que constitui o quarto de círculo esquerdo forma um par estéreo com a coluna correspondente do quarto de círculo direito (sendo a central comum a ambos).


Nota: não confundir os quartos de círculo com canal esquerdo e canal direito, pois todos os microfones captam som directo e ambiente de todos os instrumentos, tal como ao vivo.


Se considerarmos todas as combinações possíveis, com apenas cinco colunas obtemos uma instalação composta por dez pares estéreo entrelaçados!


Nota: para aplicações de cinema em casa pode adicionar um par traseiro de ambiência e um subwoofer para assim constituir um sistema 7.1 convencional de reprodução de filmes em DVD e Blu-Ray.

Sistema estéreo convencional com área ideal (sweet spot) de audição limitada

Sistema estéreo convencional com área ideal (sweet spot) de audição limitada

A principal vantagem da DSR está na reconstituição real do palco sonoro. A configuração estéreo limita o palco ao espaço entre as duas colunas frontais e exagera muitas vezes a ilusão de profundidade. Por outro lado, o “surround” cria uma ambiência artificial, quando não mesmo coloca instrumentos nas nossas costas.

Configuração surround com colunas traseiras, ambiência artitifical e área de audição ideal limitada ao centro

Configuração surround com colunas traseiras, ambiência artitifical e área de audição ideal limitada ao centro

Quanto ao ponto ideal de escuta, a DSR substitui a “sweet spot” por uma vasta área, podendo o ouvinte sentar-se no meio, mais à frente ou atrás, ou até sobre um dos lados, tal como acontece numa sala de espectáculos, sem deixar de ouvir o que se passa no lado oposto.


Pelo menos isto é o que vem explicado no folheto que acompanha o disco, onde fui também buscar as fotos aqui utilizadas.


E funciona?, pergunta o leitor. Não sei. Não tenho 5 colunas iguais, nem espaço para as colocar.


Mas se houver por aí alguém disposto a montar cinco colunas iguais em configuração DSR num bom auditório, com um processador/amplificador de 5-canais e um leitor-Universal (que leia DVD-Audio), que se apresente, faça os convites aos clientes e amigos e ofereça as bebidas.


Eu levo disco e não cobro nada pela deslocação...


 


 


 

Eifell, a coluna romântica por excelência

Capa do disco de promoção da DSR, nas versões CD e DVD-audio multicanal

Capa do Blu-Ray de promoção da Pure Audio (catálogo da Universal a 96/24)

DSR - proposta de configuração ideal para audição multicanal de música

Sistema estéreo convencional com área ideal (sweet spot) de audição limitada

Configuração surround com colunas traseiras, ambiência artitifical e área de audição ideal limitada ao centro