Editorial

As sombras de Grey

Sony HAP-Z1 ES Music Player

Irá o Hificlube revelar o segredo da relação entre boa música e bom sexo? Não seria o primeiro a tentar tal desidério...


Mark Levinson, ele próprio, e Kim Catrall (essa mesmo, a Samantha de “Sexo e a Cidade”) escreveram um livro juntos sobre a importância da alta fidelidade no sexo, com o sugestivo título: “Satisfaction: the art of female orgasm”; e não senhor, o tema associado não era a fidelidade conjugal (ela divorciou-se pouco depois, e levou-lhe a massa toda!...) mas a fidelidade do... som (ver Sexo e a Cidade, em Artigos Relacionados).


Quando estamos a falar de ficheiros DSD e PCM HD, isso corresponderia grosso modo ao “até que a morte nos separe”, tal a jura de fidelidade ao original dos servidores de net que os fornecem a preços de luxo.


O problema é que a actual moda da “alta definição” em áudio pode sair mais cara que uma mulher como a Samantha. Os discos virtuais em DSD são poucos, caros, e é preciso um “apartamento” digital num condomínio fechado de terabytes para os alojar, tal o “peso” da informação. E depois exigem um sistema de som tão transparente como um negligé Dior para se poder ouvir a diferença que justifica o investimento.


Portanto, “antes que cases vê o que fazes”, até porque depois, na cama, perdão, na sala de audição, se o “sistema” não estiver à altura, o tamanho não interessa para nada – refiro-me ao tamanho do ficheiro, claro.


A única vantagem é que, quando a relação acaba, hoje não há nada de físico e palpável, passe a expressão, para partilhar. Dantes ainda se podia discutir quem ficava com a colecção de LPs e de CDs, agora tudo não passa de memórias virtuais, que se vão deteriorando de cada vez que se copiam, e nem sequer restam as fotografias dos álbuns para mais tarde recordar.


Tal como o highend, a música em alta resolução é – e será sempre – um mercado gourmet de nicho. Não é para quem quer, é para quem pode. As poucas empresas online que a disponibilizam no mercado são elas próprias “de nicho”, com estruturas pequenas, que só precisam de acesso a servidores e de um contrato com as editoras em regime de outsourcing. Três tipos dedicados num escritório com um bom serviço de internet, é quanto basta para montar uma start-up.


E tanto assim é que, se formos ao suposto site da Sony (ver notícia infra), pelos menos por enquanto, o que lá encontramos para fazer download são os discos virtuais das tais editoras gourmet: Acoustics Sounds, Blue Coast Records, HD Tracks, iTrax, o que não deixa de ser irónico. Da Sony, nem o hardware, nem o software estão ainda disponíveis no mercado. São só promessas de amor...


Para a maior parte dos utilizadores a qualidade do iTunes, Spotify e outros “fys” é mais do que suficiente para ouvir música no iPod ou smartphone, com auriculares chinocas de 10 euros. E para a malta nova, se for de borla tanto melhor. Nem de propósito: li hoje a notícia de que a Microsoft vai lançar a Xbox Music, com uma funcionalidade de acesso a música gratuita via internet.


Gratuito” é música para os ouvidos dos internautas


Convencer depois esta rapaziada a pagar, “quando forem grandes”, 5 euros por uma única faixa, ou entre 25 e 50 euros por um disco virtual, que, ainda por cima, demora uma eternidade a descarregar e ocupa espaço que se farta, além de precisar de um sistema de som sofisticado para ser reproduzida com qualidade, é um exercício de pura utopia audiófila.


Não é por acaso que Neil Young tem tido tanta dificuldade em levar para a frente o seu projecto Pono (ler em Artigos Relacionados: Meridian Explorer, o Ovo da Páscoa).

Sony aposta na música em alta resolução


Neste contexto, a anunciada aposta da Sony na música em alta resolução via internet, a reboque das 'indies', é, no mínimo, surpreendente, depois do relativo insucesso do SACD e do Blu-Ray audio pelas mesmissimas razões apontadas acima. Num ghettoblaster, também conhecido por tijolo, ninguém ouve a diferença entre CD e SACD, muito menos num smartphone...

A Sony anunciou que vai lançar no mercado dois modelos de Hi-Res HDD Music Player: HAP-Z1ES, com disco de 1 terabyte e um preço abaixo dos 2 mil dólares; e HAP-S1 com disco de 500 gigabyte e um preço inferior a mil dólares.


E foi ainda mais longe: com o apoio da Warner e da Universal, que contraditoriamente lançou este ano a sua própria colecção de Blu-ray audio a 96/24 (Breakfast in America, dos Supertramp, é um dos 36 títulos disponíveis, e eu vou comprá-lo!), anunciou também o Sony’s Hi-Res Music site, que vai ser um dos temas fortes da apresentação na CES 2014, em Las Vegas.


Ou seja: quem está a pensar investir num Music Player highend, como o Lumin, ou num DAC amp de alta resolução como o Wadia Intuition (ler em Artigos Relacionados) vai ter finalmente música em quantidade e qualidade para os “alimentar” a pão-de-ló.


Aproveitem enquanto podem, porque eu não acredito que as majors, cujo negócio só faz sentido nos hipermercados da música digital de baixa resolução, mantenham durante muito tempo as suas lojas gourmet abertas.


A razão é simples: não há mercado para alimentar mais este elefante branco. Ainda se lembram do MiniDisc? E a DCC, da Philips, sabem o que é? DVD-Audio anyone? 


As vendas de música clássica são – sempre foram e hão-de ser – residuais. O resto vai ser a enésima reedição dos mesmos discos, dos mesmos músicos, que transitaram do LP para o CD, deste para o MD, DVD-Audio, SACD, Blu-ray et alia ad nauseam...


Quanto à música de dança que se vende hoje, já nasceu no tempo da “guerra do ruído”, leia-se, quanto mais alto e com menos dinâmica melhor, para se poder ouvir no carro e no metropolitano; e é tão processada electronicamente que mais bit menos bit é igual ao litro.


Lembrem-se dos ensinamentos da história recente: a Sony e a Philips foram as primeiras a abandonar o SACD, que elas próprias criaram! Deixaram o filho abandonado na roda, e fomos nós, audiófilos, que tomámos conta dele, não por consciência social, mas por consciência musical e espírito de missão. O Hificlube até podia chamar-se 'O Missionário do Highend'.


Hélas, no final, lá ficamos nós, os audiófilos, eu e os meus leitores - os verdadeiros guardiães do templo do som - para manter viva a tradição da qualidade, enquanto outros demandam as pastagens mais verdes da electrónica de consumo de massas que dão mais 'margem'...


É essa a missão sagrada do Hificlube: publicar a história e os ensinamentos do highend, mesmo sabendo que, como nos filmes de ficção científica, produzidos pela Sony e pela Warner, a nossa tribo vai acabar por ficar sozinha à face da Terra, depois do ruído alienígena da música actual ter destruído o sentido de audição da raça humana.

Sony HAP Z1 ES Music Player