2010

Devialet D-premier: The Art Of French Kissing






Há muito tempo que a indústria áudio francesa não criava um produto tão mediático como o Devialet. A campanha de marketing foi montada de forma a criar um crescendo de interesse junto dos meios audiófilos.

Até a sede da empresa, localizada na Place Vendôme, paredes meias com os grandes criadores de moda, e não na Rive Gauche, de músicos e intelectuais, com muito gosto e pouco dinheiro, mostra que a aposta é elevada e destinada a um público adulto, de classe A (aqui refiro-me ao estatuto social, claro), com sensibilidade artística e paixão pela arte moderna.


Depois de quatro anos de investigação e desenvolvimento, registada a patente pelo seu criador Pierre-Emmanuel Calmel et alia, a cause des mouches, o Devialet D-Premier começou por ter apresentações discretas nos shows domésticos e internacionais. Em Janeiro de 2010, viajou quase incógnito até Las Vegas onde fez uma breve aparição na sala da Crystal, e continuou nesta senda de secretismo, com Mathias Moronvalle a visitar a Imacústica, no Porto, para apresentar pessoalmente o D-Premier.


Com receio de que o D-Premier fosse encarado como apenas mais um gadget para gente endinheirada, ou a concretização dos caprichos de mulheres de classe social alta, que sempre tiveram o secreto desejo de oferecer (ou tolerar) aos maridos um amplificador elegante, moderno, leve, que gasta pouca energia (logo, em sintonia com a actual tendência ecológica); que ocupa pouco espaço, não precisa de dissipadores rapa-canelas (e as respectivas meias de seda Dior), porque não aquece, e pode até ser colocado na vertical, sem que eles se queixem de falta de potência (honi soit qui mal y pense...), a Devialet optou por credibilizar primeiro o D-Premier, junto da crítica dita “científica”, que tem tendência para 'ouver' o som no monitor dos osciloscópios, deixando para segundas núpcias os “líricos”, como JVH.


Paul Miller, a quem foi atribuído o exclusivo no Reino Unido, em detrimento de Martin Colloms, muito crítico em relação à Classe D, assinou na Hi Fi News, de Maio, um parecer técnico que é uma autêntica “clean bill of health”, ou seja confirmou, não só todas as medidas laboratoriais do fabricante, como considerou que o Devialet é para já o amplificador no novo Milénio.

É verdade que Miller ouviu, sobretudo, discos em Blu-Ray e matrizes de alta resolução que, por si só, são meio caminho andado para um bom resultado sonoro. Mas o artigo é altamente encomiástico: “You know when you are witnessing a live, visceral performance...”, escreveu ele sobre o D-Premier.


O seu homólogo francês da revista Stereo&Image Prestige não se ficou atrás:


“Le D-Premier marque un tournant dans la vraie haute fidelité d’exception, capable d’exploiter toutes les sources actuelles et futures, tout en étant capable de driver des systems de haut-parleus de toute technologie et rendement, avec une transparence, une netteté, ume profondeurs, capable sur tous les genres musicaux de vous faire découvrir la vraie sensibilité des interpretations.”


Devialet D-Premier hybride de Classe AD: qu'est-ce que c'est?



Quando me chegou à mãos, fui confirmar na prática tudo o que já tinha lido sobre ele, incluindo o que acima se reproduz. E concluí que o Devialet D-Premier pode muito bem vir a ser o Amplificador Highend do Ano, da EISA (tudo aponta para isso), ou o Amplificador do Novo Milénio, atribuído por uma revista qualquer japonesa, assim como já ganhou em França a Estrela de L’Observeur du Design e o “Editor’s Choice”,da Hifi News.   O D-Premier é como aqueles intérpretes virtuosos de piano e violino russos e japoneses que foram treinados para ganhar concursos. E vai ganhar muitos.


Mas o Hificlube adianta-se e atribui-lhe já o galardão de Amplificador Mais Polémico do Ano, porque, independentemente dos seus méritos, que são muitos, é apresentado como “a descoberta da roda”, que torna todos os outros amplificadores obsoletos em termos de design, tecnologia e performance, ao ponto de, e cito do texto de apresentação, a nossa vida nunca mais ser a mesma...


Pode um crítico da ignota Lusitânia, região em bancarrota iminente, ter a veleidade de pôr água na fervura desta alegada manifestação de chauvinismo tecnológico francês?


 1.    Design: J'adore


 


O D-Premier é de uma desarmante simplicidade estética. Anorético no aspecto, que não na potência; bem ao estilo das belas e delicadas manequins francesas da alta-costura: fininho, fininho, na sua caixa, com pouco mais de 3 cm de espessura, de alumínio polido, que é uma ratoeira para impressões digitais (os agentes da CSI agradecem no caso de alguém matar para o roubar, tal a dificuldade actual em conseguir comprar um D-Premier, apesar do preço de 11 900 euros).

Não há um único botão ou comando à vista, para além do mostrador LCD, também ele sóbrio e discreto, e um ledzinho que espreita envergonhado por baixo da fascia e muda de cor entre o vermelho e o ambar conforme a situação operacional.   Tudo o resto que pode vir a fazer-nos falta está disponível no controlo remoto. Se o design do amplificador prima pela diferença requintada, o controlo, então, está a anos-luz dos rotineiros modelos plásticos fabricados no Oriente. 

E não funciona por infravermelhos, mas sim por rádio frequência, pelo que pode regular o som de qualquer ponto da casa com o botão rotativo sobredimensionado, acolitado por 4 botões de pressão, lilliputianos por comparação: power, selector de entradas (tem de voltar a regular o volume), baixo (para controlo de um eventual subwoofer em aplicações de multiamplificação) e a abençoada Phase, cujo efeito nos amplificadores de Classe D é ainda mais evidente. Se continua a não ouvir a diferença entre fase absoluta e relativa, você, caro leitor, não merece ter um D-Premier.



O controlo, sendo de metal, é pesadote e foi concebido para colocar numa mesa e não para andar de mão em mão. Eu gosto de o colocar no colo, sobre a perna traçada, e conduzir depois o som com o polegar no enorme botão central, que podia ser mais suave e silencioso no seu movimento de rotação, do tipo flywheel. Porque a dinâmica é de tal ordem que pode criar situações inesperadas de aceleração brusca: do volume de som e do ritmo do coração...



A primeira impressão é a de um produto de luxo, moderno e sofisticado, com design original, na linha da Bang&Olufsen, que, hélas, nunca conseguiu ter prestígio junto dos audiófilos, e sempre os desdenhou, apostando antes nas revistas tipo Casa&Decoração, apesar de já me ter convidado muitas vezes para as suas festas privadas regadas a champanhe, em Las Vegas. Agradeci sempre, mas nunca fui. Até porque detesto o ambiente elitista.

A própria embalagem de cartão do D-Premier lembra a caixa de um vestido de noite da casa Dior. J’adore. Já estou a vê-las a chegar a casa sorridentes com o presente na mão:

Não vais acreditar no que eu comprei, querido! Mais um vestido caro, tou mesmo a ver?! Não, um amplificador de alta costura para ouvires a tua música sem me arruinares a decoração da sala...


A Devialet chegou a pensar comercializar o D-Premier nas grandes superfícies, como a FNAC, e em boa hora abandonou esta ideia, optando antes pela via da credibilização junto dos meios audiófilos. Nesta área, a nível mundial, não há ninguém melhor que Ricardo Franassovici, que ainda por cima tem passaporte francês. E a nível nacional, o Manuel Dias, da Imacústica.


Porque, na FNAC, o D-Premier arriscava-se a ser confundido pelas dondocas francesas como a balança de casa-de-banho mais cara do mundo! A beleza está como sempre nos olhos de quem vê... 

Ora as mulheres, que nunca viram os 'monstros' de Classe A com bons olhos, também nunca sonharam que fosse possível meter tanta potência sonora numa coisa tão pequena e tão bonita. Com o D-Premier, o tamanho deixou de ser importante.  


Colocado na horizontal, o mostrador, embora belo, não se vê, a não ser que nos levantemos da cadeira quando utilizamos o controlo. É verdade que o D-Premier se pode colocar na vertical pendurado na parede, mas, neste caso, não há espaço para os cabos correrem livres para os braços das colunas: a entrada das fichas dos bornes WBT faz-se por baixo (para permitir colocar a tampa amovível que os esconde) e cabos pouco flexíveis, terminados com fichas WBT, precisam de mais espaço que o disponibilizado pela espessura mínima da caixa.

Mesmo colocado numa prateleira, o problema persiste, e tem de ser encostado à parte de trás onde ela termina para ganhar espaço em altura; ou, em alternativa, colocado sobre pés mais altos. Tente lá montar uns Transparent (que não aconselho por causa do network filter), com fichas WBT e vai perceber o que eu quero dizer. Talvez os cabos fininhos da Crystal sejam a solução, além de serem os mais adequados esteticamente. Mas, pelo sim, pelo não, opte por cabos de bom diâmetro e baixa capacidade, por onde aquela avalanche eléctrica possa fluir sem obstáculos ou impedimentos.  


2 .   Tecnologia: au fur e à mesure  


O HIFICLUBE não se limita a divulgar aos leitores a informação técnica disponível nos sites da marca e dos distribuidores, ou até em revistas da especialidade, que se limitam a reproduzi-las nas respectivas línguas. O HIFICLUBE quer ir mais longe e revela alguns segredos sobre o funcionamento do D-Premier.


Já vimos que o Devialet D-Premier é a pedra filosofal que os alquimistas audiófilos procuravam em vão desde o século passado: a simbiose perfeita entre a pureza tímbrica da Classe A e a eficiência extrema da Classe D.


E é ao mesmo tempo um prévio e um DAC de alta qualidade. Se a esta trilogia mágica se juntar: o baixo consumo de energia e a alegada potência de 2 x 240W; o peso de menos de 9 quilos e o designmoderno e sofisticado, não admira que a concorrência esteja apreensiva. Sobretudo, quando se olha para a ficha técnica, com números nunca antes vistos quanto mais ouvidos: 


Distorção harmónica (THD+N)= 0,001%


Relação sinal-ruído (SNR)= 130dB (não ponderada)


Intermodulação (IMD SMPTE)=0, 001%


Impedância de saída (Zout) <0,001Ohm 


Nota: será 0,001 um número cabalístico ou apena o limite dos equipamentos de medida?  

3.    Classe D: les uns e les autres



Façamos primeiro uma breve revisão da matéria dada sobre a Classe D, gente com a qual a Devialet não gosta de se ver misturada, porque, segundo Pierre-Emmanuel Calmel, o D-Premier é fundamentalmente um amplificador analógico:
 


La technologie ADH (analog digital hybrid) est avant tout analogique, car on a une connexion directe entre le DAC -> l'ampli classe A -> bornier HP, ce qui fait que même si on enlève la carte DAMP (les 8 amplificateurs numériques), le d-premier continue de fonctionner et de faire de la musique sur ses sorties Haut Parleur.  


Ou seja: no D-Premier, o 'D' não está lá está para tocar o piano, está lá para carregar o piano tout court...  


Elementos sobre Classe D

A Classe D é, no fundo, uma forma mais sofisticada de Classe B: como a comutação entre positivo e negativo não depende da amplitude do sinal, já não precisa de ficar à espera do 'ponto-zero' (o chamado crossover point) e é regulada por PWM (modulação por largura de impulso=espaço/tempo). A comutação entre os dois circuitos simétricos faz-se ciclicamente a uma velocidade de 400 000 vezes por segundo, em qualquer ponto da onda. Na prática funciona como uma Classe A 'a duas mãos', na qual uma delas está sempre a segurar as rédeas das colunas de som: a impedância de saída é em teoria tipicamente zero (0,09 ohms aos 50Hz), pelo que o factor de amortecimento é extremamente elevado, em especial nas baixas frequências.

Quem segura, de facto, as rédeas é a própria fonte de alimentação (como há sempre um transístor a deixar passar corrente, o que a coluna 'vê' é o railpositivo ou negativo da fonte de alimentação e não o andar de saída).


O calcanhar de Aquiles dos amplificadores de Classe D reside, além da EMI e RFI, interferência electromagnética e por rádio frequência, são as características indutivas dos filtros de saída (as indispensáveis bobinas de filtragem) que fazem elevar a impedância de saída e a distorção por intermodulação em função da subida da frequência do sinal. 


Em termos acústicos, as principais queixas sobre o desempenho da Classe D referem-se à bidimensionalidade da imagem estéreo, à não-consonância harmónica do grave e à anorexia do agudo, que, nos piores casos, soa mais como uma manifestação eléctrica de ruído branco associada ao noise shaping que a algo de vagamente relacionado com música.
As virtudes mais óbvias para um leigo são o poder e controlo do grave, o enfoque e definição dos sons no primeiro plano e a abundância de detalhes e outras minudências sonoras. A inteligibilidade e dicção perfeita das vozes, masculinas e femininas, por exemplo, torna-os indispensáveis para quem quer aprender línguas ou deseja finalmente saber o que Bob Dylan diz aos 2 m e 30 s da faixa tal do disco tal. O agudo pode variar entre uma sensação subjectiva que, segundo os critérios, vai do doce ao abafado na última oitava (devido à filtragem agressiva) e algumas manifestações de mau génio (estridência) por vezes relacionadas com a má qualidade das gravações.   Há muitas variantes desta receita básica, umas mais complexas que outras. O Devialet D-Premier, baseando-se embora neste princípio, é um “híbrido” de ClasseAD, absolutamente revolucionário e genial na sua concepção.


 
Afinal o que distingue o Devialet D-Premier dos outros “Ds” híbridos do mercado? Resposta: un delicieux ménage à trois, no qual os amplificadores de Classe A fazem amor com as colunas de som e os de Classe D é que pagam a conta...


Já havia outras patentes registadas anteriormente de “híbridos” de Classe AD. Contudo, são as soluções técnicas encontradas por Pierre Calmel que se revelaram tão originais que mereceram ser patenteadas.


Os leitores de índole científica, com espírito de DIY, podem aceder, no final deste artigo, à mais técnica de todas as descrições possíveis: o texto integral da patente original, incluindo diagramas do circuito! Mas fica aqui um resumo:
 


An amplifier includes an output for feeding a load, a voltage generator presenting very high linearity and very low output impedance, and a current source having its output connected to the output of the voltage generator at a coupling point connected to the output. The output of the voltage generator is connected directly to the coupling point without any resistive element being interposed between them. A control stage controls the current source from the current delivered by the voltage generator. The control stage for controlling the current source includes current measurement elements for measuring the current delivered by the voltage generator, and the elements are disposed solely upstream from the output for feeding the load.


   


D-Premier (interior)

O módulo ADH é composto por um módulo de amplificação em Classe A por canal e quatro módulos digitais, um por cada fase do sinal, num total de 2 em Classe A e oito em Classe D. A tarefa dos módulos “D” é fornecer 99,9% da energia (corrente) necessária para o bom funcionamento dos módulos “A” (tensão). Digamos que funcionam como “boosters”digitais de um amplificador convencional e nunca estão no caminho do sinal. É assim que se consegue o rendimento de um amplificador de Classe D (85%) e as qualidades musicais de um amplificador de Classe A. 


O amplificador de Classe A praticamente não fornece corrente, apenas tensão. Foi assim possível construir um módulo com performances excepcionais ao nível da distorção. Contudo, na presença de transitórios de altas frequências, uma área reconhecidamente crítica para os módulos “D”, devido ao efeito de indução e ao tempo de subida mais lento dos amplificadores de corrente,  o módulo analógico gera a sua própria energia de trabalho até 5 amperes por períodos muito curtos.


E se mais provas fossem necessárias de que os módulo DSP (Classe D) só lá estão para produzir energia, e não têm qualquer interferência no sinal áudio, o cartão DAMP (8 amplificadores digitais) pode mesmo ser retirado e o D-Premier continua a funcionar, mas agora como um amplificador de Classe A pura de baixa potência! Claro que, sem a fonte de corrente da Classe D, que lhe permite atingir até 240W, não se pode puxar muito por ele, pois os módulos de Classe A entram em protecção para evitar o aquecimento.
O mais notável nesta arquitectura singular é que o módulo de Classe A “vê” sempre uma carga a alimentar 1000 vezes superior à que existe na realidade, o que o torna praticamente imune à impedância da coluna a alimentar. A carga 'aparente' é apenas de R=U/I=8V/0,001=8000 ohms, em vez dos 8 ohms nominais da coluna de som! Segundo a lei de Ohm, U=R*I implica que R=U/I.   


A impedância de saída do D-Premier é baixissima (da ordem dos 0,001 ohm) e constante em frequência. Ou seja, é igual à dos amplificadores de Classe A dividida por 1000, desde que os amplificadores de Classe D forneçam 99,9% da corrente, o que acontece na maior parte do tempo.   Aliás, segundo Calmel, a impedância de saída é apenas determinada pela resistência dos bornes!Assim, a única limitação para alimentar cargas de baixa impedância (tipicamente 2 ou mesmo 1 ohm) decorre da corrente máxima que o D-Premier pode gerar (cerca de 30A) e da potência em RMS da alimentação (na casa dos 500W).


Os módulos de Classe A funcionam por patamares de autopolarização, numa variante do “plateau biasing”, ou autobias, se preferir, mantendo-os sempre em Classe A, independentemente das ondulações de corrente do sinal de alta frequência dos módulos “D”.


Outra diferença fundamental e determinante no resultado final, entre o D-Premier e os outros híbridos, reside na ausência do filtro de passa-baixas (L/C), que degrada a qualidade do sinal, provocando rotações de fase, pois o módulo de Classe A, que é um simples seguidor de tensão sem ganho, funciona como único filtro analógico e “buffer” de impedância de saída de elevada qualidade, e constitui mais outra das muitas aplicações práticas neste projecto da Lei de Ohm: (U=RI, a diferença de potencial U, em volts, entre os bornes de uma resistência R é proporcional à intensidade da corrente eléctrica I, em amperes, que a atravessa).

Não há ainda, como se pode ler no texto integral da patente (em baixo), qualquer resistência entre a saída do gerador de tensão e o ponto de encontro no caminho até às colunas de som:
 
The output of the voltage generator is connected directly to the coupling point without any resistive element being interposed between them.

Contudo, a filtragem da portadora (a 300kHz, segundo Miller, e 1,5Mhz, segundo Calmel?) não impede a presença residual de alguma interferência rádio (RFI), típica dos amplificadores de Classe D, como prova o meu teste artesanal do Tivoli One, que é como o algodão – não engana. Mas nada tema: o D-Premier é totalmente silencioso. Sem sinal, mesmo com o potenciómetro no máximo não se ouve um suspiro sequer, nem com o ouvido encostado ao tweeter!



Muito engenhoso também é o facto de a resistência ultralinear de conversão corrente-tensão, necessária ao funcionamento dos DACs, da qual recebem directamente o sinal, estar localizada dentro do próprio módulo de Classe A apenas a dois centímetros dos bornes de saída: a corrente dos DAC passa por um circuito que 'reflecte' os electrões directamente para a resistência do conversor de corrente-tensão.

No D-Premier, o módulo de Classe A é o coração do sistema e os módulos de Classe D são os pulmões.  


O D-Premier aceita sinais analógicos (incluindo gira-discos MM/MC com regulação de impedância, resistência e capacidade, por exigência de um dos elementos da equipa técnica), que converte a 24-bit/96kHz (Miller diz que é a 48kHz, Calmel, lui-même, diz que é a 96kHz!), e digitais até 192kHz (incluindo Blu-ray), com DACs PCM 1792 da Texas Instruments. O sinal de relógio (eixo do tempo) é separado e transmitido em modo diferencial por um bus I2S até ao master clock interno para eliminar o jitter, o mais baixo jamias medido por Paul Miller: 50ps. Apesar disso, o D-Premier é muito sensível à qualidade do transporte e dos cabos digitais.


   


Todas as funções de selecção e regulação são processadas por um DSP de núcleo duplo, que efectua 300 milhões de operações por segundo, com recurso a vírgula flutuante. O poder de processamento disponível é tal que permite constituir um sistema multiamplificado, com filtragem activa de 8ª ordem, no qual cada amplificador D-Premier se encarrega apenas de uma parte do espectro.


A Devialet tem já um projecto avançado de abrir o D-Premier ao streaming Wi-Fi. Entretanto, os que não querem esperar têm soluções alternativas propostas pela Absolute Sounds.


 


Para alimentar tudo isto há uma PSU comutada, com 20 regulações independentes, que tem ainda a particularidade de os rails positivo e negativo serem solidários no fornecimento de energia, reinjectando corrente um no outro, conforme as necessidades do sinal, numa configuração de vasos comunicantes.


4. Audição: the times they are a changin’…


   


Ao contrário de Miller, utilizei apenas o CD como fonte, até porque é esse actualmente o principal “fornecedor” de sinal digital doméstico. Com o transporte Sony ESD777ES, preferi o som com ligação óptica a todas as outras alternativas de cabos coaxiais RCA, pois todos eles “afiavam” o gume das sibilantes.  As colunas foram as mesmas utilizadas para a audição do NAD M2: Wilson Audio Sasha. A Devialet alega que o D-Premier está pronto a dar o máximo ao fim de 10 segundos, mas a performance melhorou muito à medida que o tempo passava.   A primeira impressão é, de facto, a de que o D-Premier não tem nada a ver com os outros concorrentes de Classe D. Para o bem e para o mal, como nos casamentos felizes. A grande gama média é de autêntico veludo negro. As vozes, sobretudo, soam com uma cativante natureza analógica, como se experimenta com as válvulas 300B. E, de tão recatadas, suscitam-nos o desejo de subir o volume em busca de mais presença.

Mesmo com colunas eficientes, como as Sasha, é preciso ir por aí acima até aos -20dB para se começar a sentir o prometido impacto dinâmico. E o D-Premier não se faz rogado, pois aparenta ter uma energia de reserva inesgotável. Os níveis de pressão sonora chegam a ser assustadores. A haver uma certa sensação de stress, de dureza, ela é-nos transmitida pelas colunas. O D-Premier mantém-se teoricamente impávido e sereno.


 

O D-Premier pode soar explosivo, quando instado a pronunciar-se nas situações difíceis de cenários desenhados a golpes de percussão e tuttiorquestrais. Cheguei a pensar que o tinham mergulhado na poção mágica dos gauleses!   Já a iluminação da planta do palco pareceu-me abaixo das expectativas criadas pela leitura de outras experiências. Muito bom o enfoque e estabilidade da imagem central.


A partir de um certo volume, o som ganha uma indefinível luminiscência no agudo, um ligeiro toque de acidez, que nunca chega a ser áspero ou abrasivo, muito menos crispado, antes soa como “um pingo de limão” na taça de deliciosas natas frescas dos registos médios que escorrem sobre o pão-de-ló dos graves.


Apesar da baixissima impedância de saída, e consequente elevado factor de amortecimento, o grave do D-Premier, pelo menos com as Sasha, não se exprimiu com a tradicional voz seca e autoritária dos Classe D, que se caracterizam pelo controlo férreo, a articulação e a ultradefinição (por vezes, excessiva). Achei-o até algo enfático, a lembrar um amplificador SE com válvulas 845 – no tom, não na energia, que a tem em barda.


Diz-se dos pianos que são a chave da alma dos sistemas de som. Porque os obrigam a revelar a sua natureza intrínseca. De facto, ao ouvir as prestações dos 3 primeiros premiados, num dos concursos anuais do festival de Jazz de Montreux, numa edição da Nagra, juro que estive quase tentado a associar-me ao coro de elogios sem reservas que cobriu a Europa, como as cinzas do vulcão islandês.


Contudo, no reencontro com um sistema convencional, composto por McIntosh C2200/Krell Evo 300, tendo como convidado de honra o AMR CD77, senti de imediato uma empatia, um envolvimento emocional e uma satisfação acústica geral, que, malgré-lui, o D-Premier não lograra até aí transmitir-me, pelo menos da mesma forma decisiva, em termos de: resolução, enquadramento espacial, textura, equilíbrio tonal, densidade harmónica e urgência rítmica. 

Cheguei a admitir que, depois de 20 anos a ouvir mais do mesmo, o meu cérebro já não teria a flexibilidade necessária para se adaptar de imediato a esta nova realidade, que é para todos os efeitos a maior revolução tecnológica no áudio do século XXI.


O Devialet D-Premier é um excelente amplificador integrado+DAC, híbrido de Classe A/D, com características e potencialidades futuras e presentes únicas, que o colocam numa categoria à parte no panorama audiófilo mundial: il n’y a plus rien dans le royaume des amplis integré hybride de technologie numérique.


Mas, hélas, no meu coração, eu sentia que o D-Premier não tinha conseguido substituir definitivamente o velho som dos Audio Research, DarTZeel e Krells (para citar apenas marcas da Imacústica), da mesma forma que para muitos o CD não conseguiu reformar o velho LP.   Será que a antiguidade continua a ser um posto na hierarquia do highend? Ou era apenas uma reacção emocional, a denegação da constatação óbvia de que: the times they are a changin’?...


FOLLOW-UP  


Tendo tomado conhecimento das minhas reservas sobre alguns dos aspectos da performance do Devialet D-Premier, Ricardo Franassovici atribuiu os resultados à má qualidade do relógio do transporte utilizado no teste (Sony ESD-777ES), e Manuel Dias fez-me chegar em tempo recorde um transporte Metronome T3.   O T3 fez cair o mito de que bits são bits e conferiu ao grave do D-Premier o corpo e a alma que lhe faltava. O som ganhou ainda mais autoridade, articulação e definição e a imagem estereofónica passou a desenhar-se num espaço mais amplo e arejado, rico de pormenores acústicos e deixas ambientais. Foi como se eu tivesse instalado um 'turbo' no sistema de propulsão das Sasha. Fiquei até com a impressão que elas me sorriram agradecidas: até que enfim, pá!   Com esta simples alteração, o som do D-Premier aproximou-se perigosamente da perfeição acústica. Mas eu continuei a preferir marginalmente as válvulas e a Classe A convencional, sobretudo na reprodução natural das sibilantes e fricativas da voz humana. E parecia persistir ainda uma inefável sensação de endurecimento a níveis de pressão sonora elevados.

Será a tecnologia do vácuo que esconde, afinal, debaixo do tapete auditivo, a derradeira manifestação de artificialidade, que eu julgava pressentir no som do D-Premier? Em desespero de causa, ousei atribui-la, não ao circuito de amplificação (c'était pas possible, mon Dieu!), mas ao upsampling, depois de ter sido exposto recentemente à conversão sem filtragem digital do AMR.

Será por isso que o D-Premier soa alegadamente muito melhor com resoluções nativas de 192kHz?, pensei.





O D-Premier, em Munique (pop/folk/clássica)  


Ricardo tinha avisado que o T3 era novo. Deixa-o a girar, pá! Deixei. No outro dia, aquilo que antes era um brilho artificial, ganhava agora uma luminosidade natural. Contudo, o sol ainda ia alto. Numa última tentativa, substituí o cabo digital coaxial Siltech (a única saída óptica do T3 é do tipo AT&T) por um protótipo da Nordost de 75 ohms garantidos e 1,5 m de comprimento para eliminar os reflexos internos, que me foi oferecido pelo fabricante em 2002, depois de ter sido utilizado durante todo o Entertainment Show, de Nova Iorque, e que tinha posto de parte nem sei porquê.  


Foi como observar um pôr-de-sol na praia. Numa primeira fase, o brilho da luz nas ondas ofusca-nos, e obriga-nos a semicerrar os olhos, tornando indefinida a vasta paisagem líquida em permanente mutação dinâmica. Depois o sol derrama-se sobre o horizonte, inunda-nos de uma luminosidade quente, e já não conseguimos apartar os olhos da beleza daquele milagre cósmico diário.  


É assim também agora com o Devialet D-Premier. CD após CD, ele revela-se e revela-nos tesouros harmónicos escondidos, tons perdidos em visitas antes pouco gratificantes; e dinâmicas avassaladoras, em paisagens outrora estáticas, nas quais nos queremos dissolver. Ou, como escreveu o grande Camões: ouvir música com o D-Premier é um não querer mais que bem querer...  


Et voici l' Atlantique Longue houle qui roule au vent Et ronronne sa musique Jusq'aux îles doit devant Et que l'on veuille absoudre Si lá-bas bien que plus qu'ailleurs Vous tentez de vous dissoudre                                                


Jacques Brel    


Nota: todas as fotos cortesia da Devialet.  


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