2007

Vivaldi Em Veneza



Grand Canal, visto da Ponte de Rialto


Veneza é uma cidade única: há canais no lugar de estradas, barcos no lugar de automóveis, e as pontes pedonais substituem as passadeiras de peões.
Gôndola transportando turistas


Em Veneza, não se morre atropelado, quando muito morre-se afogado. Mas será que isso justifica 15 milhões de turistas por ano?
Canal interior por entre o casario decrépito


A sereníssima cidade do Adriático tem a beleza decrépita única dos seus monumentos históricos, igrejas e campanários, admito; além dos famosos canais de água suja e casas com flores na varanda a ameaçar desmoronarem-se.
As pontes pedonais sobre os canais substituem as passagens de peões


No hotel de charme onde me hospedei, o soalho rangia à passagem dos hóspedes e, tendo-se com os sinos em má hora conluíado, mantinham-me à noite acordado, numa cama do tempo de Marco Polo, que chorava como o cordame de um junco no mar da minha insónia. O romantismo tem destas coisas...
Praça de S.Marcos


A Praça de S. Marcos é uma Babel de gente sem destino aparente. Os
privilegiados sentam-se nas esplanadas do Florian e do Lavena, enquanto bebericam champanhe rosé, bebem café e comem bolos e gelados requintados, ao som de música ao vivo. O cacau con panna do Florian é um barrete, o Tartufo affogato in caffé, do Lavena, é uma perdição.
Músicos na esplanada do Café Lavena


A ousadia fica-nos pelo preço de um jantar em Lisboa. Mas ao menos a música é mesmo ao vivo, sem amplificação! E tocam a pedido: Avril Au Portugal, conhece? E não é que o violinista “de Leste” conhecia!...
Palácio dos Doges: há uma cópia em Las Vegas, mas é só fachada...


Com metade do orçamento, os milhões de visitantes têm melhores condições hoteleiras e mais oferta turística no triângulo Lisboa-Cascais-Sintra. E no entanto preferem acotovelavar-se ali naquela praça, sentados no chão encardido a comer hambúrgueres, ao lado de ciganos romenos de mão estendida, assediados por senegaleses que vendem malas Gucci - eles próprios assediados pela polícia, os senegaleses, não os pedintes, que são controlados pelas máfias - ou fazendo filas intermináveis para entrar na Basílica de S. Marcos, subir à Torre ou visitar o Palácio dos Doges para ver os tectos sumptuosos.
Basílica de S.Marcos


Apetecia-me abordá-los um a um e perguntar-lhes: já foi a Cascais, Sintra, Óbidos? Já visitou os Jerónimos, a Batalha, os Palácios da Pena, Queluz, Mafra, já subiu aos Clérigos? A verdade é que eu moro em Cascais e também estava como eles em Veneza. And enjoying every minute, sem remorsos nacionalistas.
Gôndolas aguardam clientes no Grand Canal


Só não contribuí para o negócio das gôndolas - a 50 euros por cabeça!, ó freguês vai uma voltinha?! Porque será que os coches de Sintra não têm a mesma procura? Também são românticos...
Tendinhas com bugigangas turísticas


De resto, comportei-me como todos os outros turistas: fiz fotografias, usei chapéu de palha à gondoleiro para me proteger do sol abrasador, comprei bugigangas nas tendinhas e andei nos “cacilheiros” canal acima, canal abaixo, que lá se chamam vaporettos, mas que de ecológicos não têm nada, pois utilizam gasóleo poluente.
Ponte de Rialto, em dia de trovoada


Jantei mal e paguei bem, no Rialto à beirinha d'água; e comi a melhor pizza (regada com Pinot Grigio) e o melhor tiramisu da minha vida nas tascas escondidas dos becos esconsos e estreitos, a fazer lembrar os bairros de Lisboa, com roupa pendurada à janela e tudo. A minha esposa guiava-se pelo olfacto, eu pelo ouvido: se a comida cheirava bem, e na sala se ouvia falar maioritariamente italiano com sotaque veneziano, então entrávamos. Follow the natives, é uma regra que resulta sempre.
Igreja onde Vivaldi foi baptizado


Em Veneza, anda-se de barco ou a pé. E foi este segundo meio de locomoção sem destino marcado que me levou a desembocar inadvertidamente numa praça onde, na fachada de uma igreja marcada pela passagem dos séculos, se podia ver a seguinte placa de pedra:
Placa comemorativa de Antonio Vilvaldi,Il Prete Rosso


Ir a Veneza e não assistir a um concerto de Vivaldi, é o mesmo que ir a Roma e não ver o Papa. A oferta é variada e os preços variam entre os 25 e os 35 euros.
Maritan, o solista virtuoso(ver video)


Optei por um concerto daqueles para turista ver, no qual I Musici Veneziani - 6 mulheres e 1 homem - tocavam réplicas de instrumentos antigos e vestiam trajes do Séc. XVIII, com a cabeleira postiça de M. Anania Maritan, o solista virtuoso, em equilíbrio periclitante, ameaçando desabar nas passagens mais dinâmicas.
Os músicos vestiam trajes do Séc. XVIII


Depois de um jantar divino, nada melhor que um concerto sublime. Admito que o cenário, o guarda-roupa, o ambiente - e até o “grigio” fresquinho - terão contribuído para a minha apreciação global muito positiva. Mas o próprio Vivaldi, pese embora uma ou outra fífia ou entrada fora de tempo, teria gostado do que se ouviu na Scuola Grande di San Teodoro com direito a encore e tudo.
À direita, na foto, a Scuola Grande di San Teodoro


Primeiro ouviu-se um delicioso Concerto per archi e cembalo in Sol maggiore de Vivaldi, seguido do Adagio per archi e organo in Sol minore. A pièce de résistence, Le Quattro Stagioni, foi dividida em duas partes por um Canone de Pachelbel.
Nem o facto de o cravo ser electrónico, me conseguiu estragar a noite...
Franco Serblin e as Stradivari


Saí de lá com uma convicção antiga ainda mais reforçada: Franco Serblin assimilou de tal forma o espírito dos grandes mestre artesãos Guarneri, Amati e Stradivari que as colunas da Sonus Faber (Arcugnano fica ali próximo) são as que mais se aproximam da reprodução integral da paleta tonal e o perfume harmónico dos instrumentos de corda tocados no seu habitat acústico natural, escutados no campo próximo e sem um microfone à vista. Nem o facto de o cravo ser electrónico (travestiu-se de orgão no Adagio de Albinoni), me conseguiu estragar a noite...