2007

Usher Dancer Be 718: To Be Or Not To Be



O meu primeiro contacto com as Usher Be 718 foi em Las Vegas (ver CES 2007). E logo ali fiquei com a desagradável sensação de que o Dr. Joseph D'Apollito, o homem que ajudou a transformar mais uma marca chinesa (Taiwan) de colunas num produto audiófilo de prestígio mundial, não tem o reconhecimento que merece. Aliás, só assim se compreende que, sendo ele o “afinador” do piano, perdão, do filtro divisor, este tenha sido “retocado” posteriormente por Danny Ritchie, da GR Research. Já que se pode meter a colher no trabalho dos outros, eu subia a frequência de corte dos 2,06kHz para os 2,5kHz e reduzia a pendente de passa-baixas do tweeter dos 18dB para os 12dB por oitava, rodando assim a fase de 180 graus. Estou a brincar, claro. Quem sou eu para mexer na obra do Mestre D'Appolito. Mas o Danny não se coibiu de o fazer...
CES 2007: as Usher Be 718, ainda em forma de protótipo, ao lado das 'dançarinas' mais velhas


As 718 foram apresentadas na CES 2007 como um produto da “globalização”, feito por medida, em resposta aos desejos expressos dos distribuidores, após inquérito realizado por Atul Kanagat: uma coluna fácil de colocar, pequena com um som grande para encher uma sala de estar americana típica (o dobro da europeia), com acabamentos de luxo inspirados nos clássicos mas não tão cara.
Usher 718 Be versão 'véu de noiva'(foto cortesia Usher)


Assim nasceram as Tiny Dancer, filhas mais novas da família Usher Dancer. Os altifalantes, incluindo a cúpula de berílio e o médio-grave, filtros e caixas foram projectados em casa por Tsai Lien Shui; nos EUA os filtros foram afinados por Joseph D'Appolito e depois “retocados” por Danny Richie com componentes de primeira água: cabos JPS Labs Alumiloy, bobinas Erse, resistências Mills e condensadores Sonicaps. Até parece um daqueles cabazes de Natal das lojas “Gourmet”!...
Usher be 718 de costas (foto cortesia Usher)


O preço das Tiny Dancers não reflecte, portanto, a origem chinesa (não esquecer que estamos a falar de Taiwan e não da China). Ainda que tanto os géneros como a confecção justifiquem o preço. Do corpo central impecavelmente lacado a negro, às bochechas laterais de madeira natural, ao painel frontal ligeiramente reclinado a la Sonus Faber, à qualidade dos bornes dos terminais, tudo teria passado com distinção até numa inspecção da ASAE. Mas é comendo-o que se prova o pudim. Comamo-lo, pois (em áudio como em linguística, há coisas que soam mal mesmo quando estão correctas).


A PROVA DO PUDIM

Se é um audiófilo cuja única pretensão na vida é ouvir música variada no seu dia-a-dia por mero prazer auditivo, o Prima Luna Dialogue é quanto basta para as Tiny Dancers. Mas as 718 são uma contradição entre termos: to be or not to be.
As Usher Be 718, no Sheraton-Porto


Sendo pequenas, são capazes de encher grandes espaços, e para isso precisam de amplificação sólida, leia-se, de estado sólido, como os Audionet que as acompanharam na aventura por terras do Norte. Coloque-as atrás de uma cortina, e ninguém será capaz de adivinhar que não passam afinal de pequenas monitoras de 2-vias.


O tweeter de berílio, que lhes dá o “ middle name”, é a estrela da companhia - e tem uma performance à altura da fama do material ultra leve e rígido - ainda que aqui e ali sofra de excesso de vedetismo, soando...eh..., eu não diria brilhante, porque a luz que dele emana nunca se torna ofuscante, diria antes cintilante, que é algo igualmente luminoso mas mais poético. Uma luminosidade que se acentua sobretudo em passagens de metais a abrir e nas vozes sopradas, sussurradas, sexuadas. Em inglês, designá-lo-ia por sparkling.


G'ANDA BAIXO


Contudo, é no grave que as 718 impressionam. É o tipo de monitora que faz esquecer os subwoofers. Vou mais longe: numa sala pequena, o grave pode tornar-se grandiloquente ao ponto de soar opressivo (nunca chega a ser “boomy”, sosseguem, pois cai rapidamente abaixo dos 40Hz), é apenas proeminente, como se fosse o primeiro a responder ao toque de marcha na parada musical.


O resultado é impressionante, sem dúvida: oiçam-se, por exemplo, discos de rock bem gravados ou com muita actividade na cave. Embora já não se possa dizer o mesmo em relação à música clássica, onde é a extensão do grave mais do que a sua intensidade que ajuda a recriar a assinatura acústica das salas de concertos. Aí, meus amigos, ainda não inventaram nada que chegue às colunas de banda larga.
Prima Luna Dialogue Two, uma delícia de amplificador(ler teste aqui)


Quando os “baixos” provam ser mais intensos que tensos e extensos, é altura de apelarmos à intervenção do estado... sólido. No Sheraton, ao segurar o grave pelos colarinhos, os Audionet conferiram tensão q.b. ao som sem lhe roubar intensidade, linearizando assim a resposta subjectiva e objectiva. Na minha sala, “tiny” também como elas (não as ouvi no estúdio), com o Prima Luna Dialogue, a resposta subjectiva tendia para médios vagamente laid-back, soando discretos no meio de um tweeter, que gosta de dar nas vistas lá em cima, e um “baixo-reflex” a fazer peito cá em baixo, apesar das inegáveis vantagens técnicas de acoplamento acústico com o ar da sala do pórtico de “slot” sobre o habitual cilindro. Para soltar a voz as 718 precisam de uma injecção de seiva eléctrica, um cocktail Molotov de amperes e watts.


Há, contudo, uma forma prática, ainda que pouco ortodoxa, de controlar o grave das 718 em salas pequenas: reduzir o tamanho da ranhura-reflex. E como? Basta introduzir lá dentro uma caixa de CD para ouvir a diferença. Depois é só optar por algo diferente: um pouco de espuma compacta, por exemplo. Não tape a ranhura por completo, limite-se a obstruí-la em parte da sua extensão até encontrar o equilíbrio entre grave e médio. E nunca faça experiências definitivas. Utilize sempre algo que possa retirar com facilidade sem alterar as características originais da coluna. É que este é o tipo de grave que primeiro se estranha e depois se entranha. E mais tarde ou mais cedo vai acabar por aceitá-lo tal como ele é: personalizado e forte. Na verdade, nada disto parece ser necessário em salas de maiores dimensões, como ficou provado no Sheraton (parto do princípio que o bom som que lá se ouviu não se ficou a dever apenas aos acessórios mágicos...).


COM A VERDADE ME ENGANAS


As 718 são falsas monitoras, pois batem-se no escuro com colunas-de-chão com o dobro do tamanho; falsas ainda porque, sendo apenas de 2-vias, ao perto soam menos integradas e coesas que ao longe, tal como as colunas de 3-vias. A três metros, o ligeiro “recuo” dos médios, perceptível no campo próximo, não é tão evidente, e as 718 passam a soar mais cheias e harmonicamente ricas, prenhes de detalhes musicais e com uma paleta tonal mais ampla nas cores quentes.

Admito que, quanto maior é a distância ao ouvinte, mais se ouve a sala. Contudo, creio que, neste caso, isso se deve principalmente à integração no espaço da dupla resposta polar pelo efeito combinado do padrão de dispersão das duas unidades activas; e, sobretudo, ao alinhamento de fase geométrico proporcionado pela inclinação do painel frontal, que é mais eficaz numa “sweet spot” afastada, desde que o som directo não seja demasiado afectado por reflexos secundários das paredes laterais, que devem estar afastadas ou tratadas.
Gaborlink: ciência ou bruxaria? Será que afinal o 'skin effect' existe também na banda áudio e pode servir para corrigir as descontinuidades temporais? Não perca os próximos capítulos...


De facto, recorrendo ao Gaborlink Nº1 (teste na forja) consegui simular no campo próximo o mesmo tempo de atraso das altas frequências, obtendo resultados sonoros muito idênticos. Nas condições ideais, contudo, as 718 são das monitoras mais lineares do mercado, com ou sem Gaborlink.


Outra “falsidade” é a pressão sonora possível de obter com estes brinquedos, apesar da baixa sensibilidade, mesmo com um amplificador de potência limitada, como o Prima Luna Dialogue Two, que se traduz num notável efeito de escala, algo muito raro de obter com este volume interno.


As “Tiny Dancers” 718 Be cumprem cabalmente o objectivo anunciado de construir uma coluna pequena com som grande que, garantidas as condições aqui expressas, o Hificlube recomenda.


Em inglês antigo, “usher” era o tipo que estava à porta da igreja, assembleia religiosa ou teatral e incentivava (empurrava) as pessoas para entrar, assim como nos velhos restaurantes e barracas da feira Popular: vai um tirinho ò freguês? No áudio, o crítico é por vezes visto com uma espécie de “usher”, pois também incentiva o leitor a entrar para... dar um tirinho (quantas vezes no pé!), e é por isso acusado de ser o vendilhão do templo do som. Felizmente a palavra não deriva do verbo homófono “to hush” que significa “calar”, “sossegar”. É que “hush-money”, por exemplo, significa “suborno”, estilo “toma lá, e cala-te”. Ora às Usher Be 718 ninguém as cala! A mim também não, digo sempre o que tenho a dizer para o bem e para o mal...
As saudosas Sonus Faber Extrema


Só tive pena de não ter ainda aqui os novos Krells à mão, porque as 718 lembram-me uma versão reduzida das saudosas Sonus Faber Extrema, que comiam amplificadores ao pequeno-almoço, engolindo watts como quem bebe leite directamente da teta da vaca: quanto mais potência lhes dava, melhor soavam. E se elas adoravam ser bi-amplificadas!...


Eu acho que o Paulo e o Rui, da SoundEclipse, deviam dar a estas “Tiny Dancers” a oportunidade de “dançar” com os Audionet AMP II, cujo teste eu publiquei em Abril de 2005, sob o título “Sturm Und Drang”. Um título que diz tudo e se adapta também a elas: paixão e energia...


Produto: Usher “Tiny Dancer” Be 718


Distribuidor: Soundeclipse


Preço: 2 500 euros/par