2007

Teac Esoteric X01d: O Fim Do Arco-íris

Teac Esoteric X01d: O Fim Do Arco-íris


 


O X-01D2 constitui o pináculo tecnológico da gama X, composta pelos leitores SACD/CD X-01, X-01 Limited, e os “Universais” UX-1 e UX-1 Limited. Foi concebido para o audiófilo que, não aspirando aceder à performance superlativa dos conjuntos D/P (o estado da arte digital em transporte e conversor independente) pretende, mesmo assim, obter a máxima expressão sonora possível de SACD (estéreo e multicanal em DSD puro e não-adulterado por conversões múltiplas) e CD (PCM Multibit e Bitstream) a partir de um leitor integrado.


Não conheço outro leitor SACD/CD que ofereça uma tal flexibilidade de selecção do tipo de conversão a utilizar, com a vantagem adicional da escolha múltipla sequencial, por controlo remoto, sem interrupção da reprodução, o que permite a comparação praticamente instantânea A/B/C a partir do mesmo sinal PCM original. As diferenças são tão surpreendentes e a experiência de tal forma fascinante que se torna viciante, ao ponto de não resistirmos experimentar todas as hipóteses, até optarmos por aquela que nos parece a mais correcta. O que é curioso é que cada tipo de conversão se adapta melhor aos espírito deste ou daquele disco e ao nosso próprio estado de espírito. Quando Diane Schuur canta “I'm in a New York state of mind”, por exemplo, eu, uma vezes, estou num “Multibit state of mind”; outras, num DSD “state of mind”; e, mais raramente, ou nunca, num 1-bit “state of mind”...



Esta característica única constitui um ponto de viragem importante na filosofia da Esoteric. Para a conversão de sinais PCM (CD, DVD-Audio) Dolby Digital e DTS (DVD-Video), o DV-50 utilizava DACs Burr Brown PCM1738 24-bit/192kHz, numa configuração dual-diferencial (duas por canal), e tinha três tipos de filtragem comutáveis com upsampling variável e diferentes pendentes: RDOT (Refined Digital Output Technology), FIR (Finite Impulse Response) e RDOT+FIR. E para a conversão de sinais DSD (Super Audio CD) dispunha de um circuito independente optimizado com componentes passivos de primeira água - e sem «dodot». A Esoteric alega que optou pela complexa tecnologia RDOT para compensar o facto de não utilizar no DV-50 um dos fabulosos “drives” VRDS. Nos modelos X-01 e UX-1, que se seguiram, baralhou as cartas para atingir o mesmo objectivo: apostou tudo num transporte VRDS NEO e concluiu que o SACD soava ainda melhor após conversão prévia DSD para PCM. Assim, abandonou a tecnologia R-DOT e manteve os filtros FIR mas com frequência de upsampling fixa por default de 352.8kHz para o CD, e de 705.6kHz para o SACD.



Eu atribuí na altura ao DV-50 a classificação 19 em 20 para a reprodução de SACD (16 em 20 para o CD), assumindo assim uma posição algo cautelosa, porque, e cito: “não lhe dei o 20 só para não ficar desarmado: e se me aparece por aí outra coisa melhor?...”. Palavras proféticas. Em áudio, como na vida, a perfeição não é um fim em si, é antes a ilusão de que é possível lá chegar, passo a passo,.



Quando saiu o X-01, ainda acalentei a vã esperança de que iria finalmente chegar ao destino, ou melhor, ao meu destino, porque é este o objectivo último da minha vida audiófila: encontrar o Graal Sónico. O teste nunca chegou a ser publicado, pois achei o X-01 algo desprovido de sentimentos, um racionalista brilhante e consciente da sua superioridade tecnológica, sem dúvida, mas, talvez por isso, cínico e frio na sua forma de abordagem do processo musical. Ora, eu já tive uma boa dose de cínicos na minha vida, agora só estou interessado nas almas boas, cujo contacto pode contribuir para a melhorar.



É verdade que, com o auxílio precioso do Master Clock Generator G25U, o X-01 andou muito próximo da inefável perfeição, algo que nos escapa no preciso momento em que nos arrogamos tê-la alcançado, como o mítico fim do arco-íris, onde está enterrado o tesouro que, quando éramos crianças, perseguiamos fascinados e em sonhos acordados, sem percebermos por que motivo nunca acabava afinal onde parecia acabar.



Irritou-me, sobretudo, a veleidade da Esoteric de considerar, sem se dignar dar-nos uma alternativa, que SACD soava melhor em PCM que em DSD. Não é verdade, e a Esoteric sabe-o melhor que ninguém: a prova está no X-01D2.



Se “the taste of the pudding is in the eating”, como alegam os ingleses, então o X-01D2 é a “tábua de doces” com que os bons restaurantes brindam os clientes que estão na dúvida sobre qual é o melhor: Multibit, Bitstream ou DSD? A escolha é sua, o prazer também...



TEAC ESOTERIC X-01D2
 


Transporte VRDS-NEO

 


O D2, vamos passar a chamar-lhe assim por uma questão prática, além do VRDS-NEO especial - e, se não sabem, VRDS são as iniciais de Vibration Free Rigid Disc Clamping System - utiliza, tal como X-01 original, quatro DACs por canal (Burr Brown 1704 x 8), com circuitos independentes para o canal esquerdo e direito. A principal diferença do D2 reside no facto de utilizar também um conjunto de DACs Analog Devices AD1995 para a conversão DSD e 1-bit.



A construção do D2 é do tipo “full metal jacket”: parece ter sido esculpido a partir de um bloco de alumínio puro, tal o peso. Aqui só há plástico no isolamento das fichas. A gaveta, também em metal, é do tipo “língua afiada”, na boa tradição TEAC, e desliza suavemente como a plataforma de uma estação espacial sobre a qual aterram e descolam discos voadores, com o auxílio da grua composta pelo polegar e o indicador.



 

 
 
Atrás, há saídas RCA e balanceadas para estéreo, mas as saídas multicanal são todas RCA. Nota: este teste auditivo incide apenas sobre a performance em 2-canais, mas o D2 é também um excepcional reprodutor de SACD-Multicanal.


Vale a pena abrir o D2 só para ver a arrumação do interior, didivido em 3 partes distintas e isoladas, sendo que nave central é ocupada pelo fabuloso mecanismo de transporte/leitura, um autêntica obra prima da mecânica de precisão.
 
 





 
A escolha dos diferentes algoritmos faz-se no painel frontal (Mode) ou no controlo remoto. A verdade é que eu só consegui fazer isso no controlo e, mesmo assim, onde menos esperava: na tecla de avançar do botão múltiplo central tipo toggle. A principal função do botão Mode parece ser a opção por CD-layer no caso dos SACD híbridos. O default de fábrica é CD, pelo que é preciso ter atenção e seleccionar a SACD-layer antes de iniciar a audição, ou vai ouvir CD a pensar que está a ouvir SACD - não que a diferença seja dramática, tal a qualidade de reprodução PCM, mas lá que a diferença existe, existe. No Mode selecciona-se também Word On, quando se utiliza um Master Clock externo, ou Off. E se avançarmos lá aparece DAC Ref e, por vezes, Multi-bit, mas nem sempre (?)...


A função “Play Area” indicada no manual para a escolha múltipla Multi-bit, 1-bit, DSD, aos costumes disse nada, o que me leva a pensar que o controlo RC-1089 talvez tenha sido concebido para outros modelos e não especificamente para o D2. Na Play Area, isso sim, é possível seleccionar CD area ou SACD 2-Ch. I am a bit confused, to say the least....



Também posso ser eu que estou a perder a paciência para estas 'sofisticações'. A verdade é que, quando descobri que o Modo DAC Ref é uma espécie da caixa de velocidades automática, foi nessa 'mudança' que eu o deixei, e pronto. A partir daí, é só carregar no acelerador...



LES BEAUX ESPRITS



O D2 foi integrado numa equipa composta pelo Prima Luna Dialogue Two e as Sonus Faber Elipsa, que resolveram prolongar a sua visita para minha grande felicidade, pois os ouvidos habituaram-se ao som da sua voz cristalina e qualquer alteração mínima seria imediatamente detectada. Cabos: Nordost Valhalla. A meio do jogo aterraram na minha caixa do correio, vindos do Brasil, um par de interconnects da lavra de Mestre Holbein Menezes.



A mesma faixa de um disco (SACD/CD) pode ser reproduzida pelos diferentes algoritmos de 3 tipos de conversão:



1. Multibit



2. 1-bit (Delta-sigma)



3. DSD



Há ainda um Modo Reference que constituiu para mim um mistério durante algum tempo, pois o manual não especifica se é Multibit, 1-Bit ou DSD. Como o próprio nome indica, é o preferido do fabricante. A mim soa-me como Multibit. Aliás, não consegui ouvir diferença nenhuma entre um e outro para ser honesto. Já as diferenças entre Multibit, 1-Bit e DSD são óbvias. A dificuldade está na escolha. Depois percebi que o Modo Reference corresponde afinal a Auto. Ou seja: se introduzir um CD na gaveta, ele “engrena” os Burr-Brown Multibit; se o disco for SACD, ele activa os Analog Devices e os algoritmos DSD.



Não admira, pois, que com CD eu não notasse qualquer diferença entre Multibit e Ref; enquanto com SACD, Reference e DSD eram como duas gotas de água (aliás, basta ver a posição da luz piloto no painel que não se altera).



O mesmo já não posso dizer de um crítico com “ouvidos de ouro”, chamado Ray Coleman, que, pensando que o Modo Reference utilizava ainda um outro algoritmo diferente, chegou à brilhante conclusão que tinha, e cito: “weakest harmonics, lightest tone”. Caramba, a sugestão tem muita força...



Numa primeira fase, preferi o Multibit, e já expliquei isso num artigo exploratório que publiquei aqui:



“No modo Multibit, este é um dos melhores leitores-CD/SACD do mundo. Agora que o Reimyo CDP-777 foi descontinuado, não sei mesmo se não será também o melhor leitor-CD tout court . Quando o recebi, tinha o modo 1-bit (Bistream/DeltaSigma) como default , e admito que terá sido assim que foi demonstrado no Hifishow (isto, partindo do princípio que é o mesmo exemplar).



E comprende-se porquê: no modo 1-bit, o X-01 D2 é mais redondo, cativante e expansivo ou, para utilizar um lugar comum, é mais “musical”. Mas perde para o Multibit em todos os parâmetros que a mim me satisfazem: dinâmica, ataque, presença, detalhe, ar, transparência e, sobretudo, “decay” , essa arte sublime dos sons morrerem em palco, lentamente e com dignidade, como a chama de uma vela (Out, out brief candle! ), afogando-se no oceano negro do silêncio.



Ao princípio, optei pelo DSD, mesmo para reproduzir CD, mas o Dialogue ajudou-me a perceber que o som, embora harmonicamente requintado e leve, perdia densidade e substância. A voz de Mariza ganhava em luz o que perdia em palpabilidade (honi soit qui mal y pense...). Contudo, tal como já tinha concluído, quando testei o Denon DCD SA1, a conversão DSD é a minha primeira escolha para ouvir SACD. E assim será enquanto o SACD existir.”



Mantenho o que escrevi então, mas admito que tenho dado comigo a ouvir cada vez mais o Modo DSD, também com CD, talvez influenciado pela excepcional reprodução dos SACD. Sobretudo, porque DSD parece preservar melhor o relacionamento espacial e temporal dos músicos no palco sonoro (mesmo quando virtual e recriado em estúdio).



Pouco a pouco, comecei a aperceber-me também de que a menor densidade específica dos corpos se deve, não à ausência de matéria orgânica, mas à textura mais fina do ar que a envolve. Com registos mais densos, leia-se menos transparentes, esta textura mais delicada ajuda-nos a seguir melhor o processo musical em curso. Mas quando os CD são de boa qualidade, o Multibit oferece o grau último de resolução, patente, como já referi, nos pormenores ínfimos escondidos na mistura e, sobretudo, no decay, que morre mais lentamente no patamar negro do silêncio. Só tem de ter o cuidado de subir muito ligeiramente o volume para compensar.



Se o programa for SACD, os termos invertem-se: a maior dinâmica e extensão em frequência dá a ilusão inicial de que o som está mais baixo e menos presente do que com Multibit, que soa mais compacto e sólido. Os músicos parecem envolvidos num casulo transparente de dimensões algo limitadas, enquanto com DSD gozam de total liberdade de movimentos.



O que continua a deixar-me fascinado é a diferença de perspectiva entre Multi-bit, 1-bit e DSD, isto é, o posicionamento do solista em relação aos acompanhantes, e a forma como estes são distribuídos no palco. Com música clássica, isso é imediatamente óbvio. Com pop ou rock, opte por músicos que gostam de gravar juntos, como Van Morrison.



Podia ser mais específico, mas não quero roubar ao potencial comprador o prazer da descoberta. Não espere, claro, que Van Morrison lhe apareça alternadamente à esquerda ou à direita, é de algo muito mais subtil que se trata aqui, e sobretudo evidente no plano da profundidade: por exemplo, mais perto da boca do palco e destacado dos acompanhantes, ou um passo atrás e mais integrado no conjunto.



Há quem defenda que só as colunas de som podem alterar as relações espaciais, por obra e graça dos diferentes padrões de dispersão polar, fase eléctrica e geométrica, aliadas à deficiente resposta impulsiva, difracção e reflexos secundários nas paredes, chão, tecto e objectos colocados no espaço envolvente. Pois juntem-lhe agora também os algoritmos utilizados pelos diferentes tipos de conversão. Cada cor seu paladar.



Ao contrário do X-01, que me soou ultradetalhado mas algo estéril, o D2 é muito neutro, ainda que deva a sua musicalidade também à verdadeira orgia de informação que recupera do disco (cortesia do VRDS NEO). Aquilo que com o meu amado DAC64 está implícito no discurso musical com o D2 é dito na cara com todas as sílabas. A verdade dói? Talvez, mas não conheço ninguém que depois de ver imagens a 1080p queira voltar atrás.



O D2 é assim um autêntico “projector” full-HD e a ferramenta ideal para qualquer estudante de guitarra baixo ou percussão, tal a precisão das sucessivas e, por vezes, simultâneas, linhas rítmicas, separadas uma a uma, tocando sem se tocarem, com a segurança de um neurocirurgião que tem nas mãos a espinal medula de um atleta de alta competição: o som é dinâmico, tenso e musculado.



Esta capacidade de esmiuçar cada nervo, cada músculo dos registos graves que, com um leitor-CD vulgar, não passam de uma massa informe de gordura indiferenciada, é a base sólida sobre a qual assenta toda a estrutura harmónica desse instrumento por excelência que é o piano. Cada corda do Bosendörfer Grand, de Valentina Lisitja, ressoa em êxtase ao impacto dos martelos, ora suave ora violento, ora calmo ora frenético, sem que a evidente natureza mecânica do instrumento interfira na posse mediúnica da intérprete por Liszt, na séance espírita que se desenrola perante os olhos atónitos do ouvinte, fazendo-o esquecer que as quatro KT 88 do Dialogue, quais velas acesas, estão no limite teórico da sua capacidade de resistência, quais cavalos suados que puxam à beira da exaustão a carruagem da ilusão acústica por montes e vales de paisagem musical.



Chegado ao cume, fui recebido por Anne Sophie Von Otter e Emma Kirkby. Diz-se das vozes de burro que não chegam ao Céu. E as dos anjos? Creio que até o Todo Poderoso aprovaria, embora Ele preferisse quiçá ouvi-las numas Soundlab alimentadas por um conjunto ARC REF3/110 (o teste que se segue - dos ARC, nãohélas, das divinas Soundlab). Ou talvez esperasse pacientemente que elas subissem ao assento etéreo, para lhes ouvir a voz da alma, porque a obra do Homem é nada perante o sopro de Deus. E consta que, lá em cima, a verdade se transmite pelo sussurro do vento e as nuvens não provocam reflexos secundários.



Significa isto que desta vez vou dar nota 20? Não, fico-me apenas pelo 19, tanto com CD como SACD, porque Delfim Yanez acabou de me confessar ao telefone que o conjunto Esoteric P03/D03 é ainda melhor.



Será que o lugar mítico do fim do arco-íris afinal não existe mesmo?...



Distribuidor: DELAUDIO



Produto: Leitor SACD/CD TEAC Esoteric X-01D2



Preço: contactar distribuidor


Teac Esoteric X01d: O Fim Do Arco íris