2007

Ne Me Quitte Pas Lp



João Pedro, na sala da Delaudio, ajoelha-se no altar do deus analógico


«Retira-se o disco da capa com dois dedos leves, qual hóstia sagrada em acto litúrgico. Coloca-se o disco no prato e faz-se descer o braço. Há quem consiga apontar a agulha com a precisão do cirurgião, que segue depois pelo seu pé o tortuoso caminho até ao centro, lavrando sons enterrados na superfície ondulante das espiras hipnóticas, numa fritura branda e estranha para quem já nasceu na era digital.


A arte de baixar e levantar manualmente o braço do gira-discos devia ter um capítulo na Ars Amandi, de Ovídio. Quando a agulha penetra a espira em profundidade, inicia-se o coito musical, que pode durar apenas o tempo de uma faixa ou um lado completo: A ou B.

Virar o disco tem um efeito de suspensão narrativa, um sentimento de puro gozo de antecipação, que se perdeu com o CD e com o fim do intervalo no cinema.
Carlos Henriques (Interlux), O LP não é apenas música, é arte, cultura e história.


No final, o disco continua a girar, mesmo quando a música já deixou há muito de se ouvir, numa atitude lânguida de abandono: os puristas rejeitam os mecanismos de elevação automática do braço. O verdadeiro amante, satisfeito o desejo, nunca abandona a alcova sem uma última manifestação de carinho e limpa carinhosamente a agulha das trovas do tempo que passou.


Ao contrário do leitor-CD, o gira-discos não tem a função «repeat». Cada audição de um LP é, pois, um acto consciente e voluntário: todos os rituais se cumprem na repetição de gestos sagrados e imutáveis, ensinava Lèvy-Strauss.


A música do CD é uma complexa trama de números cabalísticos e o próprio acto de reprodução é regulado à distância por controlo remoto e asséptico: sem contacto físico entre a agulha de luz e o disco, sem desgaste e sem risco, no duplo sentido da palavra.


Eis porque vai haver sempre quem prefira sofrer os efeitos perversos da electricidade estática, o desespero dos empenos, a angústia da morte anunciada na fritura das espiras, em troca do prazer de ouvir e coleccionar LP raros, que são hoje objectos de colecção. Ou talvez mesmo por isso...
Rui Calado e o Linn LP12, na enésima versão de um clássico imortal.


No LP, a música é representada pelo tempo de actuação de uma bailarina, que evolui em pontas de diamante sobre a superfície ondulante do disco ao ritmo de 33 rpm, no espaço delimitado pelo raio de acção do braço.

No CD, tal como nos relógios digitais, o tempo musical é apenas uma representação numérica.

Nos gira-discos, tal como nos relógios analógicos, é o espaço percorrido pelos ponteiros que determina o tempo: o que já passou e o que ainda falta passar.

Enquanto no analógico o tempo existe em função do espaço, no digital só o tempo existe.


Daí a importância da precisão do «clock» e os efeitos perversos do «jitter» na performance dos leitores-CD.


Ora o tempo, em si, sem o espaço, não passa de uma abstracção. Ao determinar o tempo musical em função do espaço, o gira-discos tornou-se também, paradoxalmente, um objecto de arte intemporal.


O CD foi lançado no mercado com o arrogante slogan «perfect sound forever». Passados apenas 20 anos, o CD esteve prestes a ser substituído pelo Super Audio CD e pelo DVD-Audio. Com ele vai cair também o mito da eterna juventude.

E o LP, que se vestiu de preto para ir ao funeral do CD, vai continuar vivo: ele pode envelhecer, gastar-se, curvar-se; pode até a voz perder claridade, o catarro insinuar-se no discurso. Et pour cause, soará sempre mais natural, mais humano. Pura analogia?...»