2007

Hifishow 2007 - Parte 2: Da Magia Das Elipsa Ao Mistério Das Olissipo



SONUS FABER ELIPSA
As Elipsa debutaram no Hifishow 2007 pela mão da Viasónica


Sobre este tema não me vou adiantar muito, até porque já disse quase tudo o que tinha a dizer. As Elipsa foram escalpelizadas no teste que publiquei recentemente no Hificlube e pode ser lido aqui.


Alguns leitores poderão argumentar com pertinência que o teste só está disponível online na versão em língua inglesa. Asseguro-vos que não o fiz por vaidade, arrogância intelectual ou falta de consideração pelos meus queridos leitores nacionais. Há 25 anos que faço o que posso - sem sucesso, é certo - para defender a nossa língua na comunidade audiófila internacional.


De facto, leio constantes referências e respectivos downloads por parte de distribuidores de testes de revistas internacionais; e são também frequentes as sugestões de fóristas e bloguistas de links directos para sites americanos sobre áudio, como Six Moons, Positive Feedback, StereoTimes, etc.


Não me parece, pois, que o inglês constitua assim um obstáculo intransponível para a compreensão integral do texto pelos audiófilos da ocidental praia, embora eu esteja disponível para prestar todos os esclarecimentos que me forem sendo solicitados.


Acredito ainda que quem tem capacidade financeira para comprar as Elipsa também terá sabido investir na sua cultura geral. Quanto mais não seja porque comprar as Elipsa é já, em si, um acto cultural.


Em contrapartida, o simples facto de o texto não ter sido escrito na bela - mas, hélas, incompreensível no mundo do áudio - língua de Camões, foi o suficiente para que o Hificlube ultrapassasse o pretendido record de acessos num só dia, com milhares de navegadores dos quatro cantos do mundo sulcando as três páginas da análise subjectiva e técnica vindos de todos os quadrantes (talvez por ter sido a primeira publicada online a nível mundial). Em especial dos EUA, curiosamente o país de onde são oriundos a maior parte dos críticos aclamados cá no burgo.


Talvez se eu a partir de agora escrevesse sempre em inglês e assinasse Joe V.Henry, como me foi sugerido com graça pelo amigo Vítor Torres, a minha cotação de mercado subisse...


AS ELIPSA NO HIFISHOW 2007
As Elipsa tocaram numa autêntica sala de concertos


Sala ampla - talvez demasiado, os verdadeiros artistas preferem o Coliseu ao Pavilhão Atlântico - e decorada com motivos musicais alusivos à génese das Elipsa: violinos e um violoncelo.
A Sonus Faber inspirou-se nas formas do violino para criar as Stradivari/Elipsa


O José Filipe consegue sempre dar um toque de diferença nas suas apresentações, motivo pelo qual a Imacústica lhe deu a benção para que fosse a Viasónica, um distribuidor que tem cumprido com sucesso a sua função na região de Lisboa, e não a casa-mãe, a ter a honra de acompanhar a debutante italiana.
Mesa com artilharia a válvulas da ARC


O equipamento complementar utilizado na demonstração também foi escolhido com judicioso critério: Audio Research CD7/LS26/Reference 110. Cabos: Transparent.


Quem leu o meu teste, sabe que eu teria preferido os Nordost Valhalla, porque “projectam” os registos médios das Elipsa, conferindo-lhes uma maior substância harmónica.


Quem leu o meu teste sabe também que eu nunca teria colocado as colunas tão afastadas entre si para evitar o efeito de buraco no meio. Comentei a questão com o José Filipe que defendeu que tinha sido uma solução de compromisso para evitar que as Elipsa excitassem os modos da sala nas baixas frequências, responsáveis mesmo assim por um “toque” de peito nas vozes masculinas mas mantendo incólume a pureza das vozes femininas.
A busca da sweet spot para ouvir as magnifícas Elipsa


Como resultado, só era possível obter uma imagem central sólida numa zona estreita da “sweet spot”, motivo porque houve quem avançasse a cadeira para se sentar lá quietinho. Bastava mover a cabeça para que a imagem fugisse para um dos lados.
Sentados lado a lado, moviam a cabeça na busca do foco mágico


Em todos os outros pontos da sala, incluindo as duas cadeiras localizadas na frente, lado a lado, ouvia-se melhor a coluna mais próxima, o que podia dar a ilusão errada de que apenas uma estava a tocar. Obviamente não era esse o caso, porque, embora instável, a imagem estereofónica permitiu reconstruir palcos de dimensões generosas, também no plano da profundidade, muito bem iluminados e com notável transparência, ao nível dos melhores painéis electrostáticos.


Quem leu o meu teste, sabe ainda que o realismo impressionante desta 3ª dimensão se deve fundamentalmente à tecnologia quasi-dipolo com base no pórtico superior, que funciona, não como reforço dos registos graves (essa função está atribuída ao pórtico do meio), mas como “respirador” do “Revelator” da ScanSpeak. Ao contrário do que escreve João Zeferino, na Audio, que, registe-se a efeméride, está de parabéns pelos seus 200 números, as Elipsa não têm um pórtico por altifalante, a não ser em número, até porque o tweeter Ring Radiator tem uma câmara própria de amortecimento da onda traseira.


Tratando-se de uma sala muito ampla, e estando as colunas tão afastadas entre si, eu teria apontado as Elipsa para um ponto virtual situado a 1 metro à frente do primeiro grupo de cadeiras, seguindo, aliás, o conselho do próprio construtor, Paolo Tezzon (ver teste). Só no caso de salas pequenas, se justifica um mínimo de “toe-in”. Se quer saber as razões técnicas, leia aqui.


Apesar de tudo, fiquei feliz por verificar que as Elipsa em pouco ou nada alteraram o seu carácter, mesmo em condições bem diferentes daquelas em que eu as testei, ainda que acolitadas também pelo amplificador ARC Ref 110, pautando-se como um dos grandes sons do Hifishow 2007: classe audiófla pura.

O “brilhozinho maroto nos olhos” estava lá, mas até isso contribuiu para beleza do sorriso desta bela italiana por quem é fácil um homem apaixonar-se.


LP OLISSIPO
LP Olissipo


Olissipo foi o nome dado pelos romanos a Lisboa, a Cidade Feliz (os tempos eram outros, admito). Mas Lisboa, cuja luz branca e doce cativa cineastas e fotógrafos, é também a cidade do fado. Luís Pires conseguiu com o som das Olissipo ilustrar esta misteriosa simbiose entre a luz de Lisboa e a melancolia dos seus habitantes.

Não vamos discutir o design que, apesar de original, é obviamente fruto da imaginação de um engenheiro mecânico e não de um arquitecto ou designer: o projecto assenta num conceito de robustez que é extensivo ao som que delas emana e à opção de cabos de aço verdadeiros para a grelha de protecção (não acredito que não vibrem a certas frequências - e tudo o que vibra...).


Aquela sensação de dor contida, sofrida, que vive no fundo da alma fadista, e se solta das entranhas num grito que se abafa envergonhado, primeiro estranha-se; depois entranha-se, it grows on you, dizem os anglo-saxónicos, porque quanto mais as ouvimos mais gostamos delas - é um não querer mais que bem querer escreveu Camões - e eu ouvi o bastante (melhor no Domingo que no Sábado): de LPs de Sting a Jennifer Warnes até blues tocados com o mesmo sentimento lânguido do fado.
Gira-discos Basis c/célula Benz LP


Tenho esta faixa em CD, e não há comparação possível, o Basis, com célula Benz LP (também concebida por Luís Pires - ler artigo) é o grande responsável pelo merecido sucesso da LP Olissipo que, mesmo em apertos de quarto com vista sobre a cidade (os escombros da defunta Feira Popular), e com o Plinius pronto para assar sardinhas, apresentaram uma imagem sólida, estável, coerente, habitada por músicos de carne e osso, sem necessidade da actual filosofia acústico-pirotécnica que vive das chispas de fogo colorido que se derramam sobre a música, iluminando a plácida quietude das audições nocturnas.


E não é de noite, apenas com a luz do luar, que o amor sabe melhor?...
Luís Pires e as Olissipo: um homem e a sua obra


Diz-se que um homem é a sua obra: a personalidade introvertida e o saber de experiências feito de Luís Pires estão gravadas indelevelmente na alma sónica das Olissipo.


A audição das LP Olissipo constitui um choque para todos os que nasceram e cresceram ao som do hifi. As Olissipo são, como canta Jorge Palma, o outro lado da noite...