2006

Highend Show Do Porto No Correio Da Manhã



MÚSICA NO CORAÇÃO



No último fim de semana, realizaram-se dois congressos simultâneos no Hotel Sheraton-Porto: um de cardiologistas, outro de audiófilos. No fundo, ambos tinham o mesmo objectivo: o culto do ritmo certo. E a relação entre razão e emoção, ou melhor, as razões do coração.



Cardiologistas e audiófilos sabem demasiado bem que a ciência não explica tudo. No computador, os gráficos podem parecer idênticos, mas não há forma de medir quem tem bom ou mau coração. A música também pode ser uma mera ilustração acústica ou a expressão profunda de um sentimento - e a diferença não se ouve, sente-se.



Quando se experimenta a sensação de plenitude acústica, já não há retorno possível. Ou a plenitude do amor: ela pode não ser a mais bonita, mas é a tal - basta um olhar, um gesto, um sussurro para nos encher a alma de uma alegria incontida.



Já ouvi Jacques Brell cantar Jojo mil vezes, todas iguais, todas diferentes: o disco é o mesmo, a voz também, mas só alguns sistemas de som deixam passar a emoção. E o que é a emoção? Mede-se? É possível reproduzi-la graficamente?...



Aos desportistas exige-se um electrocardiograma de esforço. No Highend Show do Porto, teria sido interessante propor aos cardiologistas presentes a seguinte experiência : ligar um audiófilo “à máquina”, submetê-lo sucessivamente ao som de diferentes sistemas e comparar depois os resultados.



É que há sons que nunca se esquecem. Será que ficam guardados no coração?…