2006

Duette Vs Memento - Parte I - A Tese



No mundo do áudio, e em especial do highend, fala-se e escreve-se muito sobre o conceito de “som absoluto”. A revista americana The Absolut Sound, dirigida pelo guru Harry Pearson, cujo título e filosofia editorial derivam da defesa deste conceito de “absoluto”, é a expressão escrita de uma ideologia mais que de uma realidade. Georg Reisch, da revista Stereophile, chamou-lhe o “Absoluto” hegeliano.



Segundo Pearson, o som de um sistema ou componente áudio é tanto mais correcto quanto mais se identifica com o som de música ao vivo tocada por instrumentos reais, em tempo real e sem qualquer tipo de amplificação. Ou seja: apenas abarca 5% de toda a música que se vende registada em discos comerciais, o que à partida exclui 95% da música que se vende, e que afinal as pessoas gostam de facto de ouvir. Acresce que os géneros musicais maioritários são tocados ao vivo também com recurso a equipamento electrónico, com o som captado por múltiplos microfones, muitas vezes colocados dentro da garganta do instrumento ou encostado aos lábios do cantor, misturado por consolas promíscuas e reproduzido por PAs cuja qualidade está muito longe dos padrões do “absolutismo” audiófilo.



Nestes casos, o que se considera “som absoluto”? É o verdadeiro som do instrumento? Ou é o som desse mesmo instrumento tal como se ouviu no concerto ao vivo, com reforço electrónico e as inevitáveis colorações de toda a cadeia de amplificação? E, mesmo quando se trata do som natural de instrumentos não-electrificados, qual a importância da acústica da sala? O Concertgebouw, de Amsterdão, tem o mesmo som do Lincoln Center ou do Carneggie Hall? E se o som for captado numa câmara anecóica?


Uma banda a tocar durante a tarde no coreto da aldeia tem o mesmo som que no concerto nocturno no salão da sociedade recreativa, com os mesmos músicos, o mesmo maestro e o mesmo programa? E até no coreto ao ar livre: o som é igual quando a aldeia se situa num vale, num planalto ou numa colina?



Já ouviram como os corredores do metropolitano por essa Europa fora amplificam o som dos saxofones, guitarras e violinos dos músicos ambulantes (por cá é mais o acordeão do ceguinho ou o gemido da criança romena suja, desidratada e maltratada), funcionando como gigantescas linhas de transmissão?



Em 1996, em S. Francisco da Califórnia, por ocasião da reportagem que fui fazer ao Stereophile Show, tive de telefonar para a recepção do selecto hotel Westin St. Francis, porque um saxofonista de ocasião que tocava à noite na rua 15 andares mais abaixo não me deixava dormir: o som do instrumento ecoava na praça vazia como se fosse tocado pelo Ciclope gigante da mitologia grega. Vi-o uns anos depois numa reportagem turística da SIC sobre S. Francisco. Ainda lá estava, no mesmo sítio: na televisão o som do saxofone era diferente, claro. Contudo, reconheci-lhe logo o timbre e o estilo.



É esta capacidade do cérebro para processar informação acústica complexa que nos permite reconhecer a voz de uma pessoa ao telefone ou de tolerar o MP3. Em última análise, é também ela que nos leva a considerar que o som do nosso sistema é bom apenas porque nos habituámos a ouvi-lo - daí a necessidade imperiosa de ouvir regularmente outros sistemas em ambientes acústicos estranhos.



A actividade de crítico de áudio não é mais que um constante exercício desta notável capacidade humana para separar o essencial do acessório, concentrando-se no primeiro e absorvendo do segundo apenas aquilo que é relevante. As diferenças de opinião dependem sobretudo do peso dessa “relevância” na equação, ou seja, da subjectividade.



Assim, apesar de breve, e em ambiente acústico diverso, que não adverso, com equipamento complementar que me era estranho, além de substancialmente diferente tanto na génese como na filosofia, tendo como único denominador comum algumas faixas do “CD-sampler” Burmester CD-03, foi-me possível identificar, sem grande margem de erro, ainda que sujeito a revisão futura, as características acústicas fundamentais das Duette e das Memento.



Aceito já que haja quem alegue que um teste auditivo só é válido se eu conviver com as colunas no meu habitat natural. Mas, apesar do tratamento acústico, o meu pequeno estúdio privado, tem uma assinatura própria, que é diferente de todas as assinaturas das salas de todos e de cada um dos meus leitores, pelo que a audição no contexto e nas condições propostas pela Imacústica, nos seus novos auditórios, tem pelo menos a vantagem inegável de ser mais um denominador comum para juntar ao programa musical que foi inteiramente seleccionado pelo demonstrador Luís Campos e, portanto, repetível: os potenciais interessados vão assim poder ouvir o mesmo que eu ouvi. A única variável passa a ser a interpretação subjectiva daquilo que cada um ouve ou julga ouvir. Mas isso é, qualquer que seja a situação, um dado adquirido: cada cabeça sua sentença.


Wilson Audio Duette
Sonus Faber Memento


Pode gostar-se mais das Duette ou das Memento, por razões acessórias, como a empatia que, num contexto específico de audição, se estabelece entre o ouvinte (a sua formação, os seus gostos, as suas expectativas, etc.) e o código genético que cada um dos fabricantes inocula na sua obra ao atribuir-lhe traços familiares, acústicos e visuais, imediatamente reconhecíveis, e não só por quem faz do áudio o seu mister.



As Wilson Audio Duette e as Sonus Faber Memento são o que são, e não podiam ser outra coisa, sendo filhas de quem são, porque quem sai aos seus não degenera…



Continua (ver Parte II: O confronto em Artigos Relacionados )