2006

Bel Canto E.one Ref1000: Belo Canto



John Stronczer, na apresentação dos novos modelos com módulos ICE, na CES 2006


O Bel Canto REF1000 só não foi uma agradável surpresa, porque conheço John Stronczer há muitos anos, e sei que ele ama sobretudo a música, pelo que teria de lhe dar sempre o benefício da dúvida: depois de ser um adepto incondicional das válvulas, em especial as 845, Stronczer nunca aceitaria assinar o projecto de um amplificador com mau som. Além disso, o Melhor Som da CES 2006 teve importante participação dos Bel Canto REF1000. A verdade é que as Cabasse La Sphère já não soaram tão bem, no Highend 2006 em Munique com outra amplificação.



Não sei quando ocorreu na mente de Stronczer a necessidade imperiosa de viragem das válvulas em Classe A pura para os transístores em Classe D, mas lembro-me que a sua luta tinha sido sempre contra os transformadores, que, aparentemente, nunca o satisfaziam. Stronczer, tal como Levinson, defende que o segredo de um bom amplificador reside sobretudo na fonte de alimentação - onde o transformador é o coração do sistema. Ora, também há amplificadores que sofrem de ataques cardíacos. E as fontes comutadas são uma espécie de Pacemakers, que regulam o funcionamento dos Mosfets de potência como um relógio suíço: 80%de eficiência com um máximo de potência e um mínimo de dissipação de calor.



Parto também do princípio lógico que, sendo um fabricante, num mercado pouco menos que selvagem, na decisão da mudança drástica de Stronczer, pesaram as questões económicas e logísticas. O mundo está perigoso e o futuro do áudio não vai, hélas, ser, por certo, iluminado pelas válvulas e pela pouco eficiente Classe A.



Ora, como consta que, mais tarde ou mais cedo, todas as fontes de alimentação terão de ser comutadas por razões técnicas (ruído na rede) e de poupança de energia por causa do aquecimento global (já viram o filme do Al Gore?, assusta, não é?...), John Stronczer, que ainda é um homem novo, resolveu adiantar-se: acabou com os transformadores de uma vez por todas e optou pelas fontes comutadas. Bom, a fonte de alimentação SPS continua a utilizar um pequeno transformador.



Por outro lado, sendo um fabricante pequeno, sem disponibilidade financeira para a investigação própria, optou também por utilizar nos seus amplificadores módulos da Tripath, numa primeira fase, e enveredou agora, tal como Jeff Rowland, pela via dos ICEpower, da B&Olufsen, porque consegue com eles obter maior linearidade e dinâmica (120dB). Acontece que os ICE funcionam muito bem, e são tudo menos… frios.
Bel Canto Orfeo SET80


Tive o grato prazer de ser, nos anos noventa, consultor de John Stronczer, durante a difícil gestação do amplificador a válvulas Bel Canto Orfeo, um produto artesanal, que utilizava uma válvula 845 por canal, protegidas por bonitas grelha de dissipação douradas (ver foto). Lembro-me que o amplificador me chegou às mãos vindo de França, e tinha um canal pifado: as soldaduras manuais eram todas ponto-a-ponto e, durante o transporte, um condensador soltara-se. Lá soldei e afinei aquilo como pude, e utilizei-o depois com redobrado prazer durante dois meses ao mesmo tempo que enviava relatórios sobre o que ouvia. Quando o devolvi senti pena. O Orfeo tinha todos os defeitos e todas as virtudes dos amplificadores SE a válvulas: muito peso, muito calor, pouca potência, uns graves balofos e pouco definidos, agudos doces e uns médios líquidos (ah, o som das vozes femininas!...) que quase se podiam “mastigar”. Nunca mais ouvi nada parecido com aquilo. E eu adorava o som que faziam quando os ligava: as 845 acendiam com um sussurro audível, tão sensual como um bafo quente de mulher na nossa nuca ao acordar...



BEL CANTO REF1000

O Orfeo e o REF1000 não podiam ser mais diferentes. São filhos do mesmo pai, mas decididamente o DNA é outro. Contudo, o espírito é o mesmo, como se Stronczer não tivesse desistido nunca do seu sonho de juventude: o som está eivado de uma neutralidade doce e quente, nada típica da Classe D, que me traz à memória reminiscências das longas audições com o Orfeo, que enchia preguiçosamente a minha sala de música com uma luminosidade de velas devotas ao deus do Som. Aposto que foi utilizado como referência no voicing. Só que o REF1000 tem uma energia de atleta de alta competição e um fôlego inesgotável: 500W/8Ohm; 1000/4Ohm!


Como acontece com todos os amplificadores de Classe D, o factor de amortecimento nas baixas frequências é muito elevado. E a não ser que o utilizador queira levar umas colunas Apogee ao orgasmo e à perdição, obrigando o amplificador a entrar em clipping audível (algo que eu nunca consegui) a THD é negligenciável a níveis domésticos. O que temos aqui é potência de qualidade numa embalagem pequena: uma espécie de fusão fria do átomo.



O REF1000 não sofre do desagradável ruído de comutação (um simples clic) e tem a RFI sob controle (só afecta a sintonia AM do meu Tivoli se o colocar mesmo em cima do amplificador).

Livres da opressão dos transformadores de corrente ( e do maldito hum), os amplificadores de Classe D são leves e maneirinhos: os REF1000 têm pouco mais de seis quilos cada, e 32 x 22 x 8 cm. Além disso, não aquecem e gastam pouca energia. O designé escorreito e limpo: uma caixa negra com um discreto led azul na frente; e atrás, as entradas (XLR e RCA) e os bornes de saída para as colunas. Os bornes WBT são daqueles muito bons e muito chatos de utilizar. A protecção plástica tem a aprovação de um qualquer manga de alpaca da nossa querida UE, e só têm um ângulo, normalmente o pior, de entrada possível para as forquilhas dos cabos, pelo que são a real pain in the ass. No painel posterior, estão ainda montadas a entrada de corrente de sector e o botão on/off.



É sobretudo a fachada de alumínio escovado (inspirada nos Spectral?), com o logótipo da marca gravado bem fundo na parte superior, que lhes dá uma ar de graça e classe.



São fáceis de transportar (a minha pobre coluna - refiro-me à vertebral - agradece), fáceis de colocar e fáceis de ligar ao equipamento complementar. Deram-se muito bem (eu não disse que havia uma empatia qualquer entre as válvulas e a Classe D?) com o prévio McIntosh C2200 (valvulado por Mestre José Martins, da JM Audio, que é também o orgulhoso distribuidor da Bel Canto em Portugal) interligados com cabos Siltech S 60S de prata pura balanceados. A fonte principal foi o excelente Krell CD/SACD 555, que muito contribuiu para melhorar a performance do par Bel Canto/Gallo.



A Bel Canto sugere que os deixemos ficar sempre ligados - foi o que fiz (15W em descanso). Uma semana de utilização intensiva foi quanto bastou para atingirem o ponto de fusão. A partir daí mantiveram sempre a mesma postura musical, independentemente do programa a reproduzir, sem variações de temperamento.



Liguei-os às Gallo Nucleus Reference 3.1 com cabos Nordost Valhalla e foi amor ao primeiro som: foram feitos um para o outro. Admito que gostei tanto que nem me dei ao trabalho de os testar com outras colunas, pelo que a minha análise auditiva está comprometida se não for devidamente equacionada com os resultados das 3.1 (ver teste).


Nota: fiz uma breve audição com as Sonus Faber Concertino Home para poder ter um termo de comparação com os NuForce.


Sou todo ouvidos


Um teste auditivo não passa de uma experiência pessoal e subjectiva, até porque, objectivamente, não podemos excluir da equação a influência fundamental da sala, equipamento complementar, incluindo cabos, discos utilizados e, sobretudo, não me posso excluir a mim e ao meu estado de espírito.



No final, o que fica, são pistas, que cada leitor pode seguir à sua maneira nas suas condições específicas de audição. Mas não pensem que é tudo apenas uma questão de gosto: há um denominador comum constituído por parâmetros acústicos objectivos sem os quais a crítica áudio não passaria de um horóscopo.



Há por aí muito quem utilize a técnica do horóscopo: tem um baralho de cartas com chavões, clichés, expressões e descrições sampladas; depois é só baralhar e distribuir pelas páginas em branco. Se por razões comerciais o produto tiver de ganhar o jogo, deixam-se só as cartas boas no baralho, não vá sair a carta da Morte ao editor…



BELO CANTO

A potência disponível aliada ao elevado factor de amortecimento confere aos graves um ataque e ritmo que só estou habituado a ouvir com amplificadores bem mais pesados (e caros). Refiro-me aos Krell, claro, cujo slam é proverbial, ao ponto de poder soar enfático. No REF1000, o grave está muito bem enquadrado com o resto do espectro e a passagem de testemunho para os médios faz-se sem dramas e, sobretudo, sem dor ou endurecimento tonal. O agudo é, pelos padrões da Classe D, discreto. O quadro geral é, pois, como já sugeri, o de um som encorpado e quente sem arestas vivas - dir-se-ia quase de génese valvular.


Da Classe D partilha o fundo de silêncio negro e o notável controlo de graves e sentido rítmico, particularmente evidentes com sons de percussão ou música de raiz africana. Apesar da conotação, aliás errada, da Classe D com amplificação digital, o REF1000 não sofre de digitalite: é basicamente neutro, tanto tímbrica como tonalmente, a todos os níveis de volume, sem colorações evidentes, embora a noção de presença, em especial nas vozes, seja mais marcada e agradável a partir do meio-gás.


A comparação (não-presencial, apenas de memória) com o notável NuForce 9.02, que prefiro marginalmente ao 9SE (por razões que já deixei bem claras no teste aqui publicado), era inevitável.


O Bel Canto REF1000 não é tão transparente como o NuForce, em especial na difícil área do grave onde a transparência não abunda em nenhuma classe de amplificação. O REF1000 tem obviamente mais poder e corpo, mas paradoxalmente soa menos enérgico (ou será apenas menos eufórico?). Por poder, entenda-se a capacidade do Bel Canto para levar as colunas até ao limite; por energia, entenda-se a extraordinária capacidade de pára-arranca do NuForce.


O grave do NuForce é mais informativo (mais claro?) mas também mais seco ou isento de adiposidades se preferir. Na ligação com a gama média, o REF1000 exibe melhor entrosamento que o SE, por exemplo, mas o ar é mais denso e o palco mais recuado mas igualmente amplo, até onde as 3.1 o permitem avaliar. A profundidade não parece ser apanágio da Classe D, ou talvez seja afinal um subproduto dos desvios de fase de outras tecnologias de amplificação.


O NuForce soa como nenhum outro amplificador do mundo em certos aspectos da reprodução: a elasticidade dos graves, luminosidade e incrível riqueza de micro informação dos registos médios, por exemplo, o que pode ser uma coisa boa ou má, depende do ponto de… eh… vista. Há quem os ache analíticos, artificialmente nítidos, com excesso de detalhe, brilho e contraste.


O som do REF1000 é mais texturado, menos permeável à luz, no sentido em que as imagens parecem ter menos definição nos contornos mas mais substância. Talvez por isso apresentem os intérpretes com mais densidade física e psicológica. Isto é particularmente evidente com música clássica, onde o NuForce esmiúça os naipes e os timbres, enquanto o Bel Canto se compraz em nos oferecer os tons (dos instrumentos) e os dons (dos intérpretes). Os sons fundamentais são-nos apresentados interligados por uma fina teia harmónica que os individualiza sem afectar a perspectiva de conjunto.


O Bel Canto é subjectivamente mais escuro que o NuForce, sobretudo no agudo, que, em contrapartida, funciona como uma extensão natural dos registos médios e não como uma entidade autónoma, tal como num bom amplificador de Classe A (um elogio a este nível de preço), embora numa comparação directa não atinja o patamar de performance da secção de amplificação do Krell FBI (by-pass ao prévio), nem em termos de liquidez dos médios nem de slam dos graves. Apesar do elevado factor de amortecimento (1000 aos 100Hz) lhes conferir definição, controlo e recorte acima da média, falta ali a força bruta de um transformador de 3000VA com todos os inconvenientes que isso possa ter.


O BelCanto REF1000 é, por outro lado, menos caprichoso que o NuForce no funcionamento e no acasalamento com prévios a válvulas, talvez porque a RFI está mais bem controlada (filtrada?). Um americano diria que é'less fussy'.


É isso: o REF1000 liga-se, e esquece-se. Já o NuForce exige mais atenção na cablagem e restante equipamento complementar, e impõe-nos a sua presença, até pela forma única como reproduz a música.


O REF1000 está tonalmente mais próximo do 9 SE que do 9.02, guardando deste a pujança e o ritmo. A diferença está na potência disponível e na qualidade de construção, aspecto em que o REF1000 dá cartas. E também num certo conceito de musicalidade que, com o REF1000, se aproxima dos míticos Orfeo Single Ended Tube, enquanto os NuForce iludem qualquer tipo de definição.


Se acha o som dos NuForce demasiado 'diferente', não deixe de experimentar os BelCanto eOne. Talvez nem precise de tanta potência e o modelo M300, ou até o S300, será quanto baste para alimentar as suas colunas. O som dos amplificadores de Classe D é viciante e torna-se um hábito adquirido. De tal forma, que eu já tenho agendado um novo teste do duo DAC3/REF1000.


Quando voltamos para a amplificação convencional, ficamos, por vezes, com a sensação de que há algo que está lá e não devia estar: as flutuações de corrente que afectam a definição dos graves, por exemplo. E depois aquela ausência de ruído de fundo, de tão fantasmagórica, deixa-nos a casa assombrada.


De facto, a Classe D, quando bem implementada, é uma coisa do outro mundo!...


Distribuidor: JM Audio, Av. Arsenal do Alfeite, 64, 1º A . 93 649 47 93 . jmaudio@netvisao.pt


Fabricante: BELCANTO


Preços:


S300: 1800


M300 (cada): 1 600 euros


REF1000 (cada): 2 260 euros