2006

Anthony Gallo Reference 3.1_ Parte 3: O Segredo Das Gallo



Já todos sabemos que as caixas acústicas são um compromisso. O ideal seria que os altifalantes estivessem montados numa prancha plana com superfície bastante para impedir o cancelamento mútuo das radiações frontal e traseira. Aliás, o termo “infinit baffle” refere-se a esta solução e não à “caixa fechada”, por oposição à “reflex”, a que é erradamente associado. Mas as dimensões da prancha são inaceitáveis em termos domésticos. Como sempre acontece, quando a solução não é natural mas imposta pelas circunstâncias, logo surgiram mil variantes: técnicas, decorativas ou apenas delirantes.



A caixa mais fácil de construir, e com menor custo de produção, logo a mais comum, é o paralelepípedo rectângulo, mais conhecido por caixote: aparafusam-se os altifalantes numa das faces, enche-se o interior de um material absorvente barato, espuma de poliuretano, por exemplo, fazem-se as ligações ao filtro, e bum-bum, já está. O projecto é aparentemente tão simples que qualquer leigo consegue construir umas colunas - eu construí muitas…



Os “caixotes” têm muitos inconvenientes: colorações, devidas às vibrações dos painéis; ondas estacionárias, devidas aos reflexos múltiplos nas paredes interiores paralelas (“efeito de espelho”); difracção, devida aos reflexos de ondas de reduzido comprimento das altas-frequências reproduzidas pelo “tweeter” montado num painel frontal demasiado largo para poder albergar também o altifalante de graves.



Ao longo de décadas, foram sendo encontradas saídas airosas para estes problemas - e só estou a falar aqui de altifalantes dinâmicos - que vão desde manter o volume interno reduzindo a largura e aumentando a profundidade, optar por formas elípticas ou arredondadas, ou a mais radical: caixas independentes de diferentes dimensões para cada tipo de altifalante.
B&W 802D


E, contudo, todos sabiam que a caixa acústica ideal já existia: a esfera, que elimina à partida os problemas de difracção, ondas estacionárias, colorações e ressonâncias, estas com origem nas vibrações dos materiais utilizados. Só que não é prático construir esferas perfeitas em madeira, além de que a espessura da parede as tornaria demasiado bojudas e incómodas. Com o advento de novos materiais: plásticos rígidos, cerâmicos e resinosos (como o corian e o merlan da B&W), e a maquinaria necessária para trabalhar metais como o alumínio e o aço inoxidável de forma eficaz, surgiram as primeiras tentativas sérias - e não apenas esotéricas - de fabricar colunas esféricas, de que La Sphère, da Cabasse, é o exemplo máximo que conheço.
Cabasse La Sphère


Esta é uma coluna com que eu vou muito “à bola”, mas só o preço do bilhete assusta: 150 000 euros!


Gallo Micro


Ao optar pela esfera como base de trabalho, Anthony Gallo não descobriu a pólvora, portanto. Começou por fabricar “bombinhas de Carnaval” em alumínio, como as Micro e as Diva, que explodiram no mercado com as deslumbrantes cores do fogo de artifício, e agora criou esta “bomba musical” em aço inoxidável chamada Nucleus Reference 3.1.



O que Anthony conseguiu foi conjugar a esfera e o cilindro (the next best thing, embora pareça uma panela de sopa) e levar à prática a teoria da coluna de caixa virtual, ou seja, uma coluna que não sendo “aberta” (dipolo), também não tem caixa, no sentido mais vulgar do termo.



GALLO REFERENCE 3.1

As Ref. 3.1 são compostas por uma “coluna vertebral” em metal, um pilar de 90 cm de altura, em forma de rampa de esqui, oco para deixar passar a “espinal medula”(a cablagem interna) - e não só, como veremos. A base de madeira rectangular tem uma superfície de apenas 35 x 20: ocupa pouco espaço portanto. Esta é uma coluna que se impõe mais pelo aspecto (e pelo som!) que pelo físico.


Na parte superior, está montado um conjunto, em forma de haltere, de dois altifalantes de médios de 4 polegadas em fibra de carbono e um “tweeter” piezzo eléctrico cilíndrico CDT, numa configuração d'Apollito.


Os “médios”, na nova versão 3.1, têm ímans de Neodymium: mais poderosos mas muito mais pequenos, deixando mais espaço para o volume de ar dentro das pequenas esferas de aço inoxidável (segundo Anthony soa melhor que alumínio e aço normal), rígidos e indeformáveis, portanto, eliminando à partida colorações “de caixa”, e muito rápidos para poderem acompanhar a velocidade de resposta do fabuloso “tweeter”.

O tweeter CDT (agora na versão Mk II) é a estrela da companhia. É um projecto original que se assemelha a um painel Martin Logan em miniatura. De facto, embora utilize também uma membrana como diafragama, não funciona segundo o princípio electrostático e a grelha exterior em favo não é um eléctrodo, serve apenas para protecção.



O CDT, é um “tweeter” piezzo eléctrico revolucionário concebido pelo génio de Anthony Gallo e sujeito a patente internacional.



Uma membrana ultrafina e resistente de Kynar, um material termoplástico à base de um polímero de PVDF, tornada condutora por vaporização de prata, é enrolada à volta de um cilindro de aço e separada deste por uma suspensão de espuma especial de elasticidade controlada, sendo que as pontas são apenas fixadas atrás. Modulada por uma corrente eléctrica, a membrana expande-se e contrai-se, formando um “cilindro pulsante” perfeito, com uma dispersão polar de 360 graus, aqui limitada aos 300 graus devido ao ângulo de fixação ao pilar.



As elevadas tensões de funcionamento (até 5 200 volts, tal como as electrostáticas) são fornecidas por um transformador que regula também a largura de banda (que pode ir até 1MHz!) limitada aqui por razões técnicas: 3kHz-50kHz, o que o torna praticamente indestrutível.



Na versão Ref.3 original, o nível do tweeter podia ser regulado para + ou - 2dB por meio de um “toggle switch” que foi eliminado - e bem - na versão 3.1. Anthony considera - e eu também - que isto afectava a transparência das altas frequências.



A membrana de Kynar, que em termos eléctricos actua como um condensador, conjugada com o transformador,
funciona como um filtro natural de passa-altas de 6dB/oitava, que corta aos 3kHz, a mesma frequência de transição dos altifalantes de médios, cuja pendente é obtida de forma mecânica, fazendo-se a passagem de testemunho de forma “natural” sem necessidade de filtro divisor. Não admira que a “empatia” acústica entre ambos seja tão perfeita.



Na panela dos graves, cuja tampa é um “woofer” de 10 polegadas de longo curso, está escondido outro dos segredos: o duplo enrolamento independente da bobina do altifalante, que permite uma espécie de “biamplificação”, sendo que o par de bornes inferior “Sub-In” só pode ser atacado por um amplificador especial de graves que faz baixar a resposta de uns já de si notáveis 35Hz para uns telúricos 22Hz (sobre esta configuração será publicado um artigo especial).



O “subwoofer” que corta aos 125Hz (filtro de primeira ordem), deixando ao cuidado do “haltere” composto por médios e tweeter tudo o resto, dispara para o lado e mata assim dois coelhos com o mesmo tiro: torna a coluna mais equilibrada em termos de design e permite montá-las com os “woofers” montados “para fora” ou “ para dentro” para um melhor acoplamento acústico com a sala. A “panela” está mecanicamente acoplada ao pilar através de dois orifícios para aproveitar o volume de ar disponível na cavidade oca e melhorar assim ainda mais a resposta de graves.



Mas isto não explica tudo. Como é possível uma coluna tão pequena ter uma resposta de banda larga que desce abaixo dos 40Hz? Mais: como é possível que dois altifalantes de graves de 4 polegadas montados em esferas com 5 polegadas de diâmetro cubram todo o espectro a partir dos 125Hz? A resposta é: S2.



S2 é um material absorvente patenteado por Anthony Gallo à base de filme de poliuretano que afecta a “eficiência” do volume de ar dentro de recipientes fechados. A explicação parece-me vaga, mas, na prática não deve ser muito diferente do material utilizado pela KEF nos modelos ACE: um material absorvente à base de carvão vegetal absorve a radiação traseira quando o altifalante recua comprimindo o ar e solta toda a energia retida quando o altifalante avança.



No próximo capítulo: “Gallo 3.1- Parte 4: a panela de pressão”