2005

Poema De Amor: Sonus Faber Domus Concertino



Transformar produtos comerciais em obras de arte, que consignam em si séculos de história, de cultura e beleza estética, aliás patente em toda a região onde vive e trabalha, a poucos quilómetros de Veneza. É esta a magia de Franco Serblin.
Ricardo Franassovici e Franco Serblin, na primeira exibição mundial privada das Stradivari, na fábrica da Sonus Faber, em Arcugnano (ver reportagem nos Artigos Relacionados)


Como todos os poetas, Franco perde-se em ditirambos, idealismos utópicos e perfeccionismos obsessivos, burilando o “poema” até à exaustão antes de o oferecer à crítica e ao mundo.


O poeta é um escultor da palavra, as colunas Sonus Faber são esculturas sonoras.


Franco vive para a arte e para a família. Detesta viajar: antes da partida já sente a nostalgia da chegada. É Cesare Bevilacqua, seu genro e sócio, quem corre mundo, tomando o pulso aos mercados (“a China é um mundo a explorar”, profetizou um dia num longo jantar em Arcugnano), e procurando respostas para os desejos dos consumidores, que, admite, 'hoje em dia, se pautam, sobretudo, pelo Cinema Em Casa...'.
Cesare Bevilacqua, na estreia mundial das Domus, em Las Vegas (ver Artigos Relacionados)


Franco é um audiófilo purista, Cesare um gestor pragmático. Desta relação nasceu a Sonus Faber, cuja prole tem vindo a aumentar (os netos também, que ele adora e não abandona por dinheiro nenhum, ao contrário de Trappatoni...) de forma a cobrir todos os escalões de preço e qualidade, e sem nunca pôr em causa o prestígio da marca de culto em que se tornou.


DOMUS


A linha Domus de colunas de som, que é composta pelos modelos: Concertino, Concerto, Grand Piano, Center, Wall (colunas de parede) e Gravis (subwoofer), substitui a anterior linha Home. Latinizou-se o nome, manteve-se a função de “porta de entrada” (modelos mais acessíveis) para o universo Sonus Faber, dando ao consumidor “a taste of luxury”, ao replicar o estilo da linha Cremona, três vezes mais cara.


Das características físicas, que são o ex-libris da marca, e permitem uma identificação visual imediata, destaco a forma de alaúde, iniciada com o modelo clássico Guarneri, e hoje copiada por dezenas de fabricantes em todo o mundo; a caixa forrada de cabedal natural; e os painéis laterais em teca acetinada (ou negro lacado).


CONCERTINO

O corpo elegante e estilizado das Domus é o menos influenciado pelos genes do alaúde (as curvas saem caras na oficina). A Concertino, que é o benjamim da família, é um pequeno monitor de duas-vias, de secção horizontal trapezoidal, com pouco mais de 30 cm de altura, por 27 de comprimento, 18 de largura à frente e 8 atrás, evitando o jogo de “espelhos” paralelos que reflectem as ondas estacionárias no interior da caixa até ao infinito.

Os painéis laterais de madeira, que nos dão a ilusão da graciosa forma elíptica típica das últimas criações do grande mestre italiano, são (des)acoplados de modo a controlar as ressonâncias: faz-se sentir uma ligeira vibração com sinais de teste de nível elevado aos 1,5kHz (acoplamento caixa/painel?), audível com um estetoscópio (que pedi emprestado a um tio enfermeiro), mas que não é suficiente para produzir qualquer coloração na audição de música.
Concertino Nera (negro lacado)


Os dois altifalantes estão emoldurados pelo rosto de cabedal rugoso: o “tweeter” é um ScanSpeak de 19mm, com um “ring radiator”, um duplo anel dispersor que reduz a direccionalidade; e apresenta uma “phase-plug” de discreta protuberância para garantir a linearidade de fase até aos 20kHz. O altifalante médio-grave de 150mm, que tem cone de papel impregnado de carbono, exibe a novidade de uma curiosa “phase-plug” côncava, tipo malmequer branco, e cabe-lhe reproduzir as frequências dos 50Hz aos 3 600Hz (frequência de corte com filtro misto de 1ª ordem e multi-pendente) auxiliado por um portal circular reflex frontal que “sopra” sempre que é acometido de baixos instintos.


Deste modo, as Concertino podem ser colocadas numa estante, ou próximas da parede de fundo, reclinadas, qual odalisca em busca da geometria ideal de fase, sobre os elegantes suportes opcionais de madeira com base de metal e um design moderno de inspiração greco-romana.


Apenas um par de bornes é quanto basta para as ligar a um amplificador que saiba tirar o melhor partido dos seus 88dB de sensibilidade, 4 ohms de impedância nominal e potência admissível de 30-150W. Não confundir, portanto, a feminina fragilidade do corpo esbelto e as formas arredondadas e sensuais com uma “pêra-doce”.


MÚSICA MAESTRO


As Concertino revelaram de imediato as diferenças de carácter dos dois amplificadores utilizados (ver nota final), o que é um bom sintoma de transparência: mais macias e aveludadas com o Vincent SV-236 (ver Artigos Relacionados), mais definidas e incisivas com o Denon PMA-SA1 (ver Artigos Relacionados). O “tweeter” é a estrela da companhia: de uma doçura cintilante. A integração com o altifalante médio-grave é quase perfeita, o que favorece a audição no campo próximo (a resposta impulsiva mostra um ligeiro atraso deste em relação ao “tweeter”, que é corrigido com a inclinação proporcionada pelo suporte). A avaliar por uma resposta ao impulso que vi numa revista alemã, os “tweeter” e o médio devem estar ligados em inversão relativa de fase para compensar a rotação de fase de 180º do filtro de passa baixas de pendente múltipla, que passa a 2ª Ordem na frequência de corte. Daí que Franco não tenha optado pelos bornes duplos para bi-cablagem, garantindo deste modo que o “utente” não inverte a polaridade relativa das duas unidades.


CÓDIGO GENÉTICO


O equilíbrio tonal, determinado pela ausência de grave profundo, afasta-as um pouco (embora não tanto como as Cremona Auditor) da habitual textura e têmpero meridional típico das Sonus Faber Amator II, por exemplo, e foi preciso o calor das válvulas para revelar o código genético secreto de musicalidade da marca, como se tivesse sido escrito com sumo de limão sobre papiro.


O facto de o altifalante médio-grave reproduzir 90% das frequências que cobrem a voz humana, e às quais o ouvido é particularmente sensível, confere coerência, continuidade e inteligibilidade ao som, favorece o enfoque das fontes sonoras e garante a estabilidade da imagem estereofónica. Contudo, nem mesmo um mago como Franco Serblin pode ludibriar as leis da física, pelo que os “baixo-dependentes” terão de socorrer-se de um “subwoofer”. Ao incorrer nesta heresia, ganham em extensão e intensidade do grave, o que perdem em articulação, definição e integridade tímbrica. Aprender a aceitar as limitações do Outro, é a primeira prova de amor. Se quer mais “substância” sonora, opte pelas Concerto ou pelas Grand Piano.


Como par principal de um pequeno sistema de som, não intrusivo no espaço doméstico, onde constituem até um agradável elemento decorativo (elas adoram-nas!); ou como par traseiro de um sistema Domus completo para AV ou multicanal (elas assim toleram-no…), as Concertino são mais uma prova da existência de Deus. E Franco Serblin é - só pode ser - um dos seus eleitos.


Nota:


As Sonus Faber Domus Concertino foram assessoradas por um amplificador integrado híbrido Vincent SV-236, tendo como fonte principal um leitor-SACD Sony XA777es. E ainda pelo conjunto Denon PMA/DCD-SA1. Os leitores de Lisboa interessados poderão ouvi-las, na Delmax, com acompanhamento à guitarra, perdão, a válvulas, da PrimaLuna; ou com os superlativos Jadis, no Hi-End Estúdio da FNAC.


Preço: 1 125 euros (stands opcionais: 500 euros)


Distribuidor: IMACÚSTICA . Telef. 225 377 319