2005

Pathos Cinema-x



Reza uma anedota brasileira que um homossexual se regozijava pelo facto de não conhecer nenhum heterossexual que, tendo mudado de “campo”, tivesse voltado atrás na sua decisão. Daí a concluir, por maioria de razão, que era ele quem estava no “campo” certo: 'É que do vosso lado para o nosso vêm muitos, do nosso para o vosso lado, não conheço ninguém....».
Nos últimos anos, milhões de audiófilos em todo o mundo mudaram de “campo” (honi soit...) e desertaram para o vídeo. Ao contrário da anedota, muitos arrependeram-se. E escrevem-me e-mails em estilo de consultório sentimental com pedidos de ajuda: “Por favor, sugira-me um amplificador AV que funcione bem em estéreo. Eu quero continuar a gozar a minha colecção de CD sem abdicar dos DVD...”.


Muitos amplificadores AV são tão sofisticados que digitalizam tudo, mesmo quando não é preciso. Por outro lado, dispondo de 5-canais de amplificação, três deles tornam-se redundantes, quando são utilizados apenas em modo estéreo, sem que isso implique um acréscimo de potência nos dois canais activos. Em alguns casos, pode-se fazer “bridging” (ligar dois canais em paralelo), mas essa função não está disponível no controlo remoto e obriga a alterar ligações. Ora, basta pensar no esparguete de cabos lá atrás para desanimar qualquer um.
Pathos Cinema-X


Atenta à situação a Pathos criou o Cinema-X de 5-canais. Não é um amplificador AV de raiz, com o respectivo módulo de controlo e processamento digital: nada de Dolby Digital, DTS, “ambiências”, blá, blá. Mas é um amplificador aberto a “experiências de grupo”, leia-se multicanal, que não se enquadram na rotina do “casal” estéreo tradicional. Na perspectiva do audiófilo fundamentalista, isto é, no mínimo, “pornográfico”. Ou mesmo “herético”, se considerarmos que utiliza válvulas sagradas. Também Galileu foi condenado por heresia...



VÁLVULAS SAGRADAS

Na melhor tradição da topologia Phatos, “X” serve-se de válvulas para amplificar tensão e de Mosfets para amplificar corrente, na busca da sinergia perfeita. Deste modo, consegue debitar 5x110W em multicanal ou 2x450W em estéreo. O andar de prévio funciona em Classe A e é composto por 6 válvulas: uma para cada um dos 5-canais e a sexta para o (.)1, ou seja para alimentar um subwoofer activo.


O processamento dos vários formatos de áudio “surround” faz-se na própria fonte: as saídas analógicas estéreo do leitor-CD/DVD e multicanal do leitor DVD/SACD ligam-se às respectivas entradas no “X”. Para “equilibrar” o som é possível regular o volume de cada canal, recorrendo ao ruído rosa gerado pelo “X”, se bem que isso também possa ser feito no menu do leitor-DVD.


A Pathos investiu assim na função mais nobre de um amplificador: amplificar. Quando utilizado em estéreo, desliga automaticamente o canal central e os restantes quatro canais passam a operar dois-a-dois debitando os tais 2x450W. Foi você que pediu flexibilidade?



CLASSICISMO E MODERNIDADE


Não sei se gostei mais do “classicismo” do design ou da modernidade e simplicidade do conceito. As linhas são idênticas às do anterior modelo Logos, também já testado no “Sons” (teste disponível on line), enquanto as funções se abrem agora às novas tendências videófilas. Assim, bastou ligar um leitor-Universal TEAC Esoteric UX-1 numa ponta e um conjunto de colunas Martin Logan Odyssey/Theateri/Clarity, com cablagem Siltech Classic integral (interligações e cabo de colunas), e juntar um projector Hitachi para usufruir dos prazeres do cinema e do áudio multicanal.


A simplicidade é extensiva às ligações: 3 conjuntos de entradas multicanal (Aux 1, 2, 3) e 3 entradas estéreo (Aux 4, 5 6), além de Tape e Video (!) in/out. A Aux 4 (balanceada) é a minha preferida, talvez porque no modo estéreo “X” põe toda a potência no chão, como se diz na gíria automobilística. A Pathos garante que os módulos de amplificação dos 5-canais são todos iguais. Mas a potência disponível de 2x 450W em estéreo faz toda a diferença. Basta comparar uma faixa de um disco dinâmico através da entrada Aux 4 (estéreo) e da entrada Aux 1 (utilize neste caso apenas os canais Front R/L). Ainda que em parte isso se deva também à diferença de nível entre entradas simples (RCA) e balanceadas (XLR), já observada no modelo Logos. As entradas multicanal têm, claro, a vantagem não despicienda de permitir excitar todos os 5.1 canais para efeitos “surround”. O Cinema X cumpre a contento ambas as funções e recomenda-se.


Tudo depende do seu posicionamento. E não me refiro ao posicionamento na sala, mas à sua posição face ao fenómeno áudio: há quem prefira o estéreo em todas as circunstâncias, até mesmo para ver filmes. Neste contexto, “X” é um modelo pensado sobretudo para o audiófilo que ainda há dentro de si, agora que optou pelo outro “campo”...



CINEMA PARADISO


Ouvi CD, DVD-Audio e SACD, vi e ouvi DVD-Video em Dolby Digital e DTS (perde-se o ProLogic II), experimentei a quente e a frio, e concluí o seguinte: “X”, além de ser melhor “a quente” (deixe as válvulas aquecer meia-horita) é um amplificador tão doce que se situa nos antípodas da histeria colectiva do AV actual. Aqui e ali, em especial com filmes de acção, desejei que tivesse em “surround” a mesma potência por canal que tem em estéreo, de forma a reproduzir os transitórios de percussão mais violentos com níveis de adrenalina hollywoodescos. Descobri, contudo, que é possível dar mais textura ao som tirando partido da afinação: aumentei um pouco o nível de cada um dos canais sem perder o desejado equilíbrio com auxílio de ruído rosa (optei por 17 para o par frontal, 16 para o centro e 13 para o par traseiro, num máximo de 24), jogando com os botões (não identificados no controlo) de Mute/Select/Up/Down, e subi depois o volume “colectivo” como um todo orgânico (50/60 em 99!). Tudo depende muito do filme, da sala e das colunas utilizadas. A baixa impedância dos painéis das Martin Logan pareceu-me ser demasiada “areia” para o “X”, apesar dos 5x220W s/ 4 Ohms declarados. Nas instalações da Delaudio, “X” é acolitado por colunas Monitor Audio, mais fáceis de alimentar e com a proverbial joie-de-vivre, que compensa a postura algo introspectiva e purista de raiz mediterrânica do belo amplificador italiano. Não admira que Delfin Yanez esteja tão encantando com mais este produto de luxo da indústria áudio italiana.


Na tela do “X” a emoção têm prioridade sobre a acção, como num filme de Marcelo Mastroiani. Mas com “Kill Bill 1 e 2” jorrou sangue em golfadas sonoras, rasgaram-se vísceras com ódio e cada martelada de raiva nos pregos do caixão deixou marcas indeléveis na minha memória auditiva. E sofri de sentimentos contraditórios, quando me vi enterrado vivo com Uma Thurman...



Produto: Phatos Cinema X
Preço: 6 990 euros


Distribuidor: DELAUDIO . telef. 218436410