2005

Brinquedos No Sotão




Em NY há uma famosa loja de hifi que tem o curioso nome de “Toys in the Attic”. Esta ideia de sotão, enquanto limbo de objectos esquecidos à espera que os resgatem, sempre me atraiu desde criança, com um misto de sentimentos contraditórios de medo e curiosidade. De noite, na cama, julgava ouvir lá em cima, na insónia breve da infância, ruídos estranhos que atribuía a entidades maléficas. Um dia, teria eu oito ou nove anos, foi preciso mudar telhas partidas pelo vendaval: o Sr. Manuel, com a anuência da minha mãe, levou-me pela mão, e subi com as pernas trémulas até ao reino dos meus pesadelos.


O sol entrava pela boca desdentada do telhado iluminando uma realidade que não correspondia em nada às minhas fantasias nocturnas, enquanto o pó em suspensão conferia aos raios substância e visibilidade, como nas ilustrações do Espírito Santo no livro temido do catecismo. A luz da verdade entrava finalmente na caverna de Platão varrendo as sombras do medo e da ignorância. Contudo, o que eu via ilustrava também com surpreendente rigor vagas memórias da minha curta vida: tapetes, candeiros velhos e outros objectos que tinham misteriosamente desaparecido do meu quotidiano jaziam agora ali sob um manto de pó fino. E muitos brinquedos, rejeitados, votados ao ostracismo pela tirania da novidade comercial natalícia.


Foi um reencontro feliz com 'amigos' que julgava mortos e afinal tinham sido apenas “suspensos” da actividade lúdica. Tratados das folhas rasgadas, cabeças decepadas, membros amputados, motores esventrados e rodas furadas, alguns foram reintegrados nas brincadeiras diárias ofuscando o brilho de prendas recentes. E, quando ouvia ruídos estranhos lá em cima, já não escondia a cabeça debaixo do lençol, antes adormecia com o firme propósito de voltar um dia para salvar outros tantos parceiros de brincadeira do exílio forçado.


Talvez por isso os sotãos tenham ainda hoje um lugar tão especial no meu imaginário.



MEMÓRIAS DO PASSADO RECENTE
O nosso doutor 'suspenso' em audição atenta


Jorge é médico anestesiologista. E audiófilo. Logo, músico frustrado, como, eu e todos os outros audiófilos, para quem o hifi substitui o instrumento que nunca tocámos. Uma frustração que a carreira musical do filho, estudante de saxofone alto, compensa com vantagem, quando o seu hóbi de eleição se recusa a cumprir a vã promessa de fidelidade eterna. No fundo, Jorge faz aos seus doentes o que eu fiz aos meus brinquedos: suspende-lhes a vida durante algum tempo para que possam viver durante mais tempo. E também ele adora “suspender-se” no sotão recuperado da sua casa de praia, deitado no chão sobre fofas almofadas, a ouvir discos antigos com tecnologia do passado, que assim vai da lei da morte libertando.
Traz outro amigo também, cantava o Zeca: Manuel Dias e Preces Diniz, no sotão do Jorge


O LP “Way Out West”, de Sonny Rollins, reproduzido por um gira-discos Linn Sondek, amplificado pelas válvulas do Prima Luna Prologue One e “transdutado” por colunas Sonus Faber Concerto, foi um dos bons sons que ouvi num périplo recente que fiz no Norte do país, cuja reportagem integral (em fascículos) os leitores podem seguir aqui no Hificlube: um som cheio, encorpado, orgânico, que nos envolve num manto de harmónicos há muito perdidos na moderna floresta de bits. Ou terá sido apenas o sortilégio de voltar a encontrar num sotão brinquedos “antigos”, que eu e tantos outros, que vivem agora no pesadelo digital, abandonámos, quando tinham ainda tanto para nos dar?...



PRIMALUNA PROLOGUE ONE
Linn Sondek, Prima Luma Prologue One, Sonus Faber Concerto ( c/ tweeters on the outside: uma opção legítima para 'abrir' a imagem)



A crítica é uma voragem que, ao ritmo das novidades, vai deixando para trás esquecidos “brinquedos” que nos tocaram fundo. Foi bom reencontrar no sotão do Jorge o Prologue One, e verificar que aquilo que escrevi sobre este amplifcador a válvulas, em 2004, podia voltar a escrever hoje:


“Na audição o Prologue One revelou a origem genética e a influência do cromossoma EL34: um som “romântico”, típico dos anos 70, encorpado, expansivo, com um grave algo redondo e enfático, um agudo que se liquefaz à medida que aquece, e a proverbial gama média que parece derramar chocolate quente sobre a música. A vozes têm presença e “humanidade” justificando a crítica recorrente nos meios audiófilos de que os transístores soam “mecânicos” por comparação. O Prologue One consegue juntar a tudo isto uma sensação subjectiva de poder nos registos médio-graves de que resulta um inusitado sentido rítmico. Quando em esforço, a voz “endurece” um pouco roubando carisma aos registos-médios. Assim, quanto mais eficientes forem as colunas melhor será o resultado. No meu caso, utilizei um par de Sonus Faber Concertino, que são fáceis de alimentar, tendo como fonte o Sony XA777es. Preferi a saída de 4ohm, que “abre” e dá bouquet ao som, ainda que prescindindo de alguma potência. Meia-dúzia de watts é quanto basta para encher uma sala pequena de música. Os amplificadores a válvulas são como os charutos: devem ser apreciados com calma, sem criar demasiadas expectativas, de preferência na companhia de bons discos, bons livros e bom cognac. Só dispensam a lareira. É o tipo de som que primeiro se estranha e depois se entranha, na alma e nos ossos, como no genial anúncio da Coca-Cola de Fernando Pessoa”.