2004

Rui Borges: O Alfaiate Do Som (1)



Delmax: pintar a vida de sons


Há lojas onde nos sentimos bem, onde nos fazem sentir bem. Na velha Rua da Madalena, o dono da taberna, da farmácia, da ervanária não se limitam a «aviar» o cliente, conversam com ele. É assim também na Delmax.


Hoje abrem-se lojas amplas, modernas e polivalentes, tão cheias de nada quanto vazias de tudo. Porque uma loja não são as coisas que lá se vendem, são as pessoas que as vendem. E quando quem vende não compreende quem compra, comprar e vender passam à categoria de mera transação comercial.


O Pai Natal afinal existe


A situação é ainda pior quando quem vende não compreende sequer o que está a vender. E não me refiro apenas aos aspectos técnicos, refiro-me à filosofia do projecto em si. Hoje discutem-se os preços, não os conceitos. Neste contexto, um sistema de som ganha o significado pejorativo de «electrodoméstico sonoro» - um objecto que se compra para mais tarde esquecer na voragem consumista do tempo.
Mas ainda há pessoas para quem o áudio é uma paixão, um projecto de vida - para toda a vida; pessoas que não toleram que a expressão sincera dos seus gostos íntimos seja recebida com a indiferença, por vezes a roçar o sarcasmo, de quem não tem tempo a perder porque precisa desesperadamente de facturar.


Rui Borges «trata» de um gira-discos doente


Rui Borges é um audiófilo praticante: «it takes one to know one», dizem os americanos. Quando alguém angustiado sobe as velhas escadas de madeira com um gira-discos ferido na asa, é recebido com a compreensão de quem conhece a dor de perder um objecto amado. Que tudo fará para o salvar. Outro diria logo: «Isso já não se usa...», como se as emoções fossem descartáveis ou passassem de moda.
Thorens TD124 recuperado pelo Rui


Rui Borges recupera gira-discos com a religiosidade de quem restaura obras de arte sacra. E apresenta como exemplo um ilustre Thorens D124:


«Faltava-lhe esta peça aqui, que regula a velocidade de rotação, estava condenado, e eu fiz uma no torno, depois afinei-o, pintei-o, vai tocar melhor que novo...», garante com aquele sorriso misto de humildade e competência que distingue os eleitos.
«Rui Borges Turntable», um gira-discos feito por medida


Rui Borges conhece todos os segredos dos gira-discos, porque ele próprio também concebe, desenha e constrói de raiz, peça a peça, gira-discos analógicos de elevada performance, feitos por medida para clientes especiais e personalizados com o nome do proprietário na lapela: um caso raro em Portugal, onde quase tudo é importado. Eis o luxo do som feito por medida, à sua medida:


«São obras únicas feitas para conhecedores...», explica a Carla, olhando embevecida para o marido, que passa entretanto a exibir com evidente entusiasmo alguns dos instrumentos utilizados na medição e corte das chumaceiras, dos eixos, dos pratos e subpratos com a precisão das centésimas:


«O aço inox do eixo e a liga de bronzalumínio das chumaceiras têm exactamente o mesmo índice de dilatação. Há gira-discos famosos que utilizam revestimentos de Teflon e outros materiais muito sensíveis à temperatura. E depois as pessoas queixam-se que a qualidade do som varia com a estação do ano - e não me refiro às «Estações» do Vivaldi...», ironiza Rui Borges, feliz por poder partilhar a sua paixão com alguém que a compreende bem.


A admiração é mútua e de longa data: Rui exibe uma fotografia desbotada pelo tempo da minha apresentação das colunas «full-ribbon» Apogee Diva, no decorrer do Festival de Música da Póvoa de Varzim. De facto, lá estou eu, com mais cabelo e menos peso, a esclarecer as massas sobre as virtudes das colunas-de-fita. Se bem me lembro, já passava da meia-noite e ninguém arredava pé. E não havia vídeo nem filmes de acção: só música. Ou talvez por isso...


«Eu estive lá...», confessou o Rui orgulhoso, como se o acontecimento tivesse tido na sua vida a importância de Woodstock...


Delmax: auditório principal


«The taste of the pudding is in the eating», dizem também os anglosaxões, mestres na arte do áudio. Rui Borges fez questão em que eu ouvisse tocar o «seu» gira-discos. Montou umas maravilhosas colunas Sonus Faber Guarneri no elegante pedestal de longas cordas de violoncelo, ligou-as sem intenção de me impressionar a um modesto e surpreendente amplificador Myryad-Z, por meio de cabos Nordost Valkyria, colocou no prato um LP de jazz: «Soular Energy», do Ray Brown Trio, e a sala encheu-se de música. Eu disse: MÚSICA.


Ao olhar para uma garrafa de cristal com Vinho do Porto, que o Rui serve aos convidados que o desejem para os fazer sentir mais à vontade, ocorreu-me que também o LP quanto mais velho melhor...


Delmax: sala de exposição


Mas na Delmax o jovem iniciado (e pouco abonado) pode percorrer todas as etapas do conhecimento audiófilo até chegar ao Nirvana: também há amplificadores e colunas acessíveis de várias marcas conhecidas, cabos, acessórios e até «kits» para AV, «plasmas» e projectores. Porque hoje em dia ninguém dispensa ver um filme em DVD com som «surround». Mais raro já é ser atendido por um especialista que se esforça por encontrar a solução adequada a cada caso, mesmo que essa solução seja digital e ponha em causa os seus dogmas analógicos.


DELMAX, Lisboa, Rua da Madalena, 237 -1ºDt.º - telef. 218 879 11