2003

Pathos Logos: E Lucevan Le Stelle



O Pathos Logos é um amplificador integrado estéreo para puristas com um andar de preamplificação a válvulas e andar de potêncial dual-mono a MOSFET com 110W/8 ohm e 200W/4 ohm por canal. A poderosa fonte de alimentação garante energia em todas as circunstâncias e nem as difíceis Martin Logan Odyssey o fizeram perder a cabeça. A tecnologia de amplificação INPOL utilizada no tristemente célebre Pathos «Twin Towers», também aqui analisado há uns anos, pode ser mais esotérica mas é menos eficaz e não é necessariamente melhor.


Depois da complexidade de testar um sistema AV com mais comandos que o cockpit de um F-18, é um prazer voltar às coisas simples e belas da vida: o Pathos Logos liga-se e ouve-se sem ser preciso tirar um curso.


É tudo tão intuitivo que o comando remoto não tem sequer qualquer indicação das funções. É um objecto fálico em madeira natural, vermelha e macia, com apenas quatro pequenos botões metálicos. De cima para baixo: sobe, desce, emudece, selecciona - aprende-se pelo tacto e pela prática, como o sexo. Também de madeira polida e vermelha é o soalho do pátio triangular que aloja as duas válvulas Sovtek (russas), que se reflectem ad infinitum no brilho metálico das paredes, como sentinelas luminosas do templo da música: «E lucevan le stelle».


O enorme botão-mostrador central regula o volume sem precisar de rodar. Um curto movimento a favor ou contra os ponteiros do relógio faz actuar um circuito digital que activa um potenciómetro de resistências em passos de 0 a 99, que se iluminam de vermelho incandescente para logo depois esmorecerem envergonhados. Ao lado, incrustrados em ergonómico leito de delicado polegar feminino, apenas mais dois botões igualmente discretos: on/off e selector de fontes, também sem qualquer letreiro, porque é suposto os audiófilos serem pessoas inteligentes e cultas. Tudo funciona na perfeição, sem hesitações e sem ruídos (contudo, aconselho a baixar o volume antes de desligar o amplificador). Liga, espera uns segundos que as válvulas aqueçam, e é tudo: em meia-hora atinge o esplendor acústico e não precisa (nem deve) deixá-lo ligado permanentemente (poupa as válvulas).


Na parte de trás, os habituais pares de fichas RCA das entradas de linha (não tem «Phono» para gira-discos), mais duas entradas balanceadas; e duas saídas: uma para atacar um amplificador externo outra para o gravador (Tape).


A diferença de nível entre as entradas simétricas (balanceadas/XLR) e as entradas simples (não-balanceadas/RCA) é tão absurda que fica a dúvida, mesmo após o ajuste dos níveis, sobre quais soam de facto melhor: há óbvias e inesperadas diferenças de carácter na tonalidade, no timbre e na presença dos instrumentos e vozes, que soam mais vivos, brilhantes (algum ênfase até na sibilância das vozes), tensos e intensos, com as primeiras; mais doces, lentos, repousados e naturais, com as segundas. O conversor Chord DAC64 permitiu-me usufruir de ambas com cabos Nordost Valhalla, adaptando o carácter do som aos diferentes tipos de música e registos, como se de um controlo de tonalidade se tratasse. Por fim, para meu próprio deleite optei pelas não-balanceadas para o grosso da audição. Até porque o excelente leitor-SACD Sony XA-777es não tem saídas balanceadas. E eu já não consigo passar sem a minha dieta de Super Audio CD...


Os bornes de ligação dos cabos de coluna (Nordost Valhalla) são metálicos, daqueles que exigem chave sextavada de aperto, sem protecção plástica e com entrada para bananas, ao arrepio de todas as normas europeias de segurança. A verdade seja dita: estas normas foram-nos impostas pelos países nórdicos, talvez por receio de que um cidadão bêbado apanhasse, além da bebedeira, um choque (como?) numa coisa destas. Como o senhor Berlusconi só é europeu até onde lhe convém, e os italianos têm bom vinho, a Pathos borrifou-se para a legislação da UE: no bom estilo machista meridional, este bornes apertam as forquilhas pelo pescoço (os bornes dos amplificadores japoneses, por exemplo, de tanto cumprirem a letra da lei chegam a ser patéticos).


Os orifícios circulares de ventilação da tampa estão protegidos por uma grelha metálica e os dissipadores de calor laterais são originais extensões tridimensionais das letras que compõem o nome PATHOS: «Quant'é bello!». Esta é uma das mais belas peças de sempre da escultura audiófila mundial. O design por si só justifica a compra. Acontece que a performance acústica não se fica atrás da estética. Um prazer para os olhos e os ouvidos: «Recondita harmonia di bellezze diverse!».


Sendo latinos, os italianos da Pathos são curiosamente cultores da língua grega clássica. E escolhem sempre palavras ricas de significado.


«Pathos», do grego páthos, significa sofrimento, ou algo de destrutivo e doloroso. Num conceito mais amplo, contudo, pode ser entendido como uma imagem algo indefenida de algo que pressentimos que nos está reservado mas que nem a nossa imaginação consegue antecipar». Normalmente é mau, o que não abona em favor da escolha do nome, mas no caso do «TT» até era bom. A única dor foi a de o ver partir.


«Logos» é outro termo de origem grega que significa «palavra», «conceito», «razão», e que para Heraclito configurava a ordem e harmonia do cosmos. É também de harmonia que se trata aqui: entre válvulas e MOSFET, design e tecnologia, som e música. Aristóteles estabelecia uma distinção clara entre «phoné» (a voz) e «logos» (a palavra inteligível). O Pathos Logos concilia harmoniosamente a beleza da voz e a inteligibilidade do discurso musical.

Distribuidor: Delaudio