2003

Luta De Galos



O verniz estalou na apresentação do SACD de «Dark Side of the Moon», em Nova Iorque. Na conferência de imprensa, James Guthrie disse mal do DVD-Audio. Logo se levantaram vozes acusando-o de estar influenciado pelo génio do mal David Kawakami, o responsável da Sony pela promoção do SACD no mercado norte-americano, o homem que há seis anos em S. Francisco me deu a alegria de ouvir pela primeira vez um registo em DSD. Ainda hoje, quando preciso de saber algum segredo sobre SACD é a David que me dirijo.


 


No seu discurso, Guthrie revelou as razões que o levaram a optar pelo Super Audio CD em detrimento do DVD-Audio. Enquanto Guthrie se debruçou sobre questões de marketing, como o facto de a maior parte das pessoas confundir DVD-Audio com DVD-Video, e de não saberem que 90% dos leitores-DVD existentes no mercado não têm capacidade para reproduzir as faixas multicanal de alta resolução do DVD-Audio, ou que, ao contrário dos SACD, não é possível tocar um DVD-Audio num leitor CD, a coisa não esquentou. Aliás, este último aspecto está já a ser estudado pelo DVD-Forum e anunciam-se para breve DVD-A híbridos. O problema foi quando Guthrie, citado pela HFReview, afirmou sem se rir que DVD-Audio não pode ser considerado um formato de alta resolução, porque, e cito: «Utilizar filtros de altas frequências para comprimir o sinal e ganhar espaço no disco é uma prática comum e a negação de qualquer formato de alta resolução». Perante a reacção hostil da imprensa especializada, David Kawakami ainda tentou pôr água na fervura: «Bom, eu acho que Guthrie se estava a referir ao facto de o manual do MLP, Meridian Lossless Packing, sugerir esta prática como aceitável por razões comerciais, nomeadamente quando é preciso acomodar um programa longo num disco pequeno...».


 


Acossado pelos seus pares que o acusaram de estar a falar de cor por nunca ter produzido nenhum DVD-Audio, Guthrie reagiu: «Então, porque é que há por aí tantos DVD-Audio sem «nada» acima dos 20kHz, com filtragem agressiva tal como o velho CD?». Recusou-se, contudo a revelar títulos. Mas adiantou: «Quando perguntei a um produtor meu amigo a razão, ele respondeu-me que era a única maneira de ser ver livre do lixo ultrasónico da matriz original...».


 


Dois outros produtores também citados pela HFReview, John Kellog e Craig Anderson, deram diplomaticamente a entender que Guthrie tinha sido mal informado por Kawakami. Anderson foi mesmo mais longe: «O Super Audio CD é que precisa de ser filtrado acima dos 50kHz para evitar que o ruído ultrasónico provoque oscilação nos amplificadores...». Zangam-se as comadres...


 


Mas Chris Haynes e o famoso Bob Ludwig admitiram que há, de facto, problemas com o DVD-Audio, o que é preciso é saber dar-lhes a volta. Haynes sugeriu que, quando há programa a mais e espaço a menos, a solução é reduzir a informação de um dos canais (normalmente o LFE, os graves, portanto) onde a compressão não se nota tanto, para evitar ter de filtrar os agudos. Ludwig admitiu o mesmo por outras palavras: «Já no tempo do vinil, quando havia mais música que disco, a solução era filtrar os graves ou, em alternativa, passá-lo a monofónico abaixo de uma determinada frequência para ganhar espaço...».


 


Será por isso que o grave do SACD é tão rico de informação e o do DVD-Audio é proeminente, mas pesado e opressivo? A verdade é que a maior parte da minha curta colecção de SACD tem um som fantástico, enquanto mesmo os melhores DVD-Audio são apenas bons. Não por acaso, a colectânea de 22 SACD dos Rolling Stones já vendeu 2 milhões de discos nos E.U.A., com três dos discos a ultrapassarem as 200.000 unidades, e «Dark Side of The Moon» vendeu 20.000 SACD só na primeira semana; enquanto três do cinco DVD-Audio mais vendidos de sempre são: Fleetwood Mac «Rumours» (18.500 cópias); Eagles, «Hotel California» (12.000) e The Doors «L.A. Woman» (10.000).


 


Os defensores do DVD-Audio lembram-me o ministro da informação Al Saaf: «we will surround them, we will crush them...».


 


Só espero que «Crime of the Century» e «Breakfast In America», dos Supertramp, sejam editados em SACD e não em DVD-Audio, ou lá vou ter de engolir não um mas dois sapos...