2003

Krell Vs Sony: Combate Do Ano - Parte I (apresentação)



Eis um privilégio raro: ouvir lado a lado Krell SACD Standard e Sony SCD XA9000es integrados num sistema de referência (McIntosh C2200, Krell FPB400cx, Krell Showcase, Martin-Logan Odyssey/Clarity/Cinema i, Siltech Classic/Nordost Valhalla) capaz de distinguir os cromossomas da herança genética comum (Sony). Aqui não cabem as informações técnicas detalhadas (disponíveis, aliás, nos sites das marcas) com que certa crítica se compraz em encher papel, ou descrições minuciosas da função de cada botão (está tudo no manual). A cumplicidade dos leitores e o domínio prévio das matérias em análise são fundamentais para a compreensão do texto (os outros podem contactar-me por email). Assim, apenas os aspectos relevantes e os factores distintivos serão aqui referidos: serei sucinto, na medida em que for possível controlar as emoções.



Sony SCD XA-9000es


Estreia mundial no HighEnd de Frankfurt (ver «Fusão fria). São três os factores distintivos: plateau inclinado que aloja os principais comandos; saída digital iLink; complexo circuito de conversão (18 conversores num circuito designado por «triple-power»). Construção exemplar: a gaveta move-se com a suavidade de uma gueixa, os comandos são um mimo e a utilização é uma delícia. Tem saída para auscultadores. O «set-up» é lógico e intuitivo. Tem «bass management» (gestão de graves: redireccionamento da informação contida no canal LFE para os canais frontais quando não se pretende usar um «subwoofer») e gestão das distâncias e níveis dos restantes canais numa configuração multicanal. Tem dois filtros comutáveis (apenas CD) com diferentes pendentes: o default (Standard) é o que soa melhor como sempre. Não tem saídas balanceadas. Aceita CD-R/RW e SACD. Os títulos das faixas (SACD) correm no mostrador. Hesitou na identificação de SACD puros (não-híbridos). Quase recusou um dos meus discos favoritos: Keb Mo, «The Door». Um paradoxo, se considerarmos que a maior parte dos discos editados pela Sony não são híbridos. Parto do princípio que este «sample» está desafinado.



Krell SACD Standard


É a primeira incursão de Dan D'Agostino no novo formato. Apresentado «hors-concours» em Las Vegas (ver «Festa privada» in Pesquisa), vem montado num caixa exterior semelhante a outros modelos da linha KAV como o DVD Standard e o processador Showcase. Deste diz a Krell que tem duplo chassis (chassis-in-a-chassis). O pragmatismo comercial imperou em detrimento do design original do KPS25: a gaveta é de plástico, os botões são pequenos, todos iguais e nem sempre colocados no local ideal, e o mostrador é pouco informativo: não exibe os títulos das faixas apenas indica que o sinal é DSD/PCM 2 canais ou DSD/3/2+1. Inovadora é a possibilidade de comutar SACD estéreo/multicanal sem interromper a reprodução (o XA-9000es volta ao início da faixa). O controlo remoto é tipo «cartão de crédito». Ah, que saudades dos velhos comandos Krell montados num «barra» de metal sólido que davam orgulho de posse e serviam de arma de defesa. Além das saídas multicanal, tem um par de saídas balanceadas (para aplicações estéreo). «Set-up» não há: nem «bass management», nem correcção de níveis nem de distâncias dos diferentes canais.

Mandei um email ao Irv Gross, da Krell: «Então, pá, como é? Se não posso redireccionar os graves numa configuração multicanal, sou obrigado a utilizar um subwoofer...». A resposta veio rápida: «O Krell SACD Standard não utiliza «bass management» para permitir ouvir os sons tal como foram gravados. Todos os canais são «full-range». Nós achámos que introduzir um circuito de redireccionamento de má qualidade iria degradar a qualidade do som. Para obter graves óptimos aconselhamos um subwoofer».

Fica o recado.


Mas a Krell não precisava de introduzir um «cheap circuit» (palavras de Irv); bastava-lhe conceber um circuito de redireccionamento highend. Assim, partiu do princípio errado que todos temos um «sub» e cinco colunas iguais colocadas à mesma distância do ouvinte.


Com o Sony quem não tem canal central pode «redireccionar» a informação contida nesse canal para os canais frontais; o mesmo se passa em relação ao subwoofer. O facto de os canais serem todos de banda larga não significa nada se a informação não chegar lá em primeiro lugar.


Terá o Standard sido originalmente concebido como leitor-SACD estéreo (como o MF Tri-Vista, ver «Ponto de Vista» in Pesquisa) e o multicanal não passa afinal de um extra? Por outro lado, admito que Irv Gross tem razão: até o XA-9000es no modo MCH Direct tem um som mais transparente. Mas o circuito pode ser des/ligado: off/on.

Is that too much to ask, Irv?