2003

Ilink, O Cordão Umbilical Digital



Quando foram lançados no mercado os dois novos formatos áudio de alta resolução multicanal (DVD-Audio e Super Audio CD), as multinacionais juraram a si próprias que, desta vez, não iam cair na asneira de oferecer aos consumidores uma ligação digital directa para facilitar o copianço e a pirataria. Mas logo que foram postos à venda os primeiros modelos de leitores DVD-A e SACD, o pessoal foi lá espreitar atrás e suspirou de alívio. Afinal, além das 5.1 saídas analógicas para cada um dos canais devidamente identificados (na foto em baixo à direita), as saídas digital coaxial (SPDIF) e óptica (Toslink) lá estavam como sempre (à esquerda em baixo na foto). A verdade é que bastava ligar o «digital out» do leitor ao «digital in» do amplificador AV e o som, tanto dos DVD-A como dos SACD (híbridos), fluia com água. E viveram felizes neste ledo e doce engano. Houve até quem tivesse notado uma «óbvia» melhoria na qualidade do som sempre que ouvia DVD-A e SACD. Mal sabia que, no primeiro caso o «surround» era obtido a partir da matriz em Dolby Digital 5.1 (registada no disco a par da matriz multicanal de alta resolução em 24-bit/96kHz); e o «estéreo» do SACD não passava afinal do velho PCM, igualzinho ao dos CD (os SACD híbridos, por definição, são-no porque têm no mesmo disco um registo PCM e outro DSD de alta resolução).


Até que um dia colocou na gaveta do respectivo leitor um DVD-A ou um SACD «puro», isto é, respectivamente sem o registo em Dolby Digital e PCM (a maior parte dos discos editados pela Sony Music (!) não são híbridos, por exemplo) e para seu grande espanto a ligação digital aos costumes disse nada. Foi ler o manual e concluiu, só então, que se queria ouvir os discos com qualidade máxima tinha de ir buscar o sinal às 5.1 saídas analógicas e, por meio de 6 (seis!) cabos coaxiais com fichas RCA, ligá-las às respectivas entradas no amplificador AV.


E viveu de novo feliz no ledo e doce engano, convencido de que estava finalmente a ouvir SACD. Na verdade, a maior parte dos amplificadores na altura não tinha entradas analógicas não-processadas, pelo que o sinal DSD-multicanal, já devidamente processado pelos conversores internos do próprio leitor-SACD, e pronto a ouvir, era reconvertido e sofria de novo os tratos de polé do processamento PCM.


Não admira que os mais atentos começassem a achar que afinal isto da alta-resolução era uma treta e não havia grande diferença. De facto, não havia: nem grande nem pequena - não havia diferença nenhuma. Os conversores internos do amplificador (ou prévio/processador) tratavam tudo pela mesma bitola.


Ora, no áudio, a discriminação até é uma coisa boa. Não se fazem revoluções tecnológicas para ficar tudo igual. Pois se nem as revoluções políticas o conseguiram...


Entretanto, começaram a surgir no mercado amplificadoress AV e processadores com as entradas analógicas adequadas, com é o caso da minha referência actual, o Krell Showcase P, que permitem gozar em pleno as delícias do som «surround» de alta resolução, à custa, é certo, de um autêntico «esparguete» de cabos...


Mantinha-se, pois, a necessidade prática de encontrar uma solução de ligação digital única que sustituísse a confusão (e a despesa) de seis cabos analógicos. A tecnologia já existe há muito tempo na forma dos «interfaces» iLink e Firewire. Mas as editoras não as autorizavam com medo das cópias. Gato escaldado...
O ano passado testei o leitor-DVD-A Denon A1 que tinha uma ligação digital em série de alto débito. Mas o sinal só passava se o disco não estivesse protegido com sistemas anticópia. Ora, quase todos os meus DVD-A estão protegidos (aqui para nós há programas que permitem copiar DVD-A em computador com a maior das facilidades, pelo que tudo isto não passa de uma hipocrisia). Só o SACD, Super Audio CD, é impossível de copiar (nenhuma drive de computador consegue ler o registo de alta resolução em DSD) e não é por acaso que as grandes editoras estão a apostar forte neste formato. A propósito: de que está a EMI à espera para nos dar Amália em SACD?


Finalmente, com o conjunto Pioneer DV-757Ai/VSA-AX10i, já à venda no nosso mercado (será divulgado aqui na próxima semana), é possível ligar o leitor-DVD/SACD ao amplificador através de um único cabo digital iLink (S400: ver foto) com um débito de 400Mb/s, mais do que suficiente para dois canais a 192kHz ou seis a 96kHz. O sinal é transmitido sob encriptação inviolável. Dizem eles...


Este ano, em Las Vegas, todas as marcas correram a apresentar leitores-DVD/SACD com saída digital iLink. Trata-se de uma revolução e quem não apanhar o comboio, arrisca-se a ficar para trás. A partir de agora, todos os fabricantes de «high-end» vão lançar os seus modelos de leitor/processador equipados com ligação iLink (IEEE 1394). Neil Sinclair, da Theta, e Dan D'Agostino, da Krell, confessaram-me mesmo: «Era disto que eu estava à espera para poder lançar o meu leitor «Universal» com processamento externo por «software» exclusivo».


Eis como um simples cordão umbilical ganhou em todo o mundo a importância que teria para nós o regresso de D. Sebastião. Ou seja: o fim da chuva de cabos e do nevoeiro digital...