2002

X-files



Eu próprio intitulei de «Sexo aural» um artigo sobre o fabuloso leitor-CD/prévio/processador Krell KPS 25c, que ainda hoje utilizo como referência, por razões óbvias - não essas que está a pensar...


De facto, o prazer auditivo tem com a Krell uma componente física e emocional tão forte que as metáforas sexuais são as que primeiro me assomam à flor da escrita, enquanto Stacey Kent me afaga com a sua voz sensual ou Maria João Pires me acaricia com o virtuosismo dos dedos ágeis.


Cada amplificador Krell constitui invariavelmente o iniciar de uma nova etapa na minha vida de crítico, tal o salto qualitativo. A nova série-X não faz prisioneiros: arrasa tudo o que está à sua volta, com aquele misto de poder e «finesse» tão querido a Dan D'Agostino.


Enquanto krelómano assumido, eu devia abster-me de testar equipamento Krell. Só que isso iria privar-me de privar, passe a aparente redundância, com algum do melhor highend que se fabrica no mundo: uma lacuna grave na minha cultura audiófila, que dificilmente seria suprida com equipamentos «genéricos».

Pessoalmente, não entendo que haja incompatibilidade: há certos deputados e políticos que são ao mesmo tempo advogados ou jornalistas e comentadores. E nunca me coibi de criticar na Krell o que considerei menos bom. Mas fica o aviso ao leitor que pode assim temperar o meu entusiasmo com uma pitada de sal. Os amplificadores Krell ou se amam ou se odeiam: a mim tocam-me na corda vital, outros há que preferem algo de mais «musical», eufónico, agradavelmente colorido.


O Krell FPB 400cx é um dos três modelos estéreo da nova Série-X, apresentada em Janeiro, em Las Vegas. Na linha dos modelos FPB anteriores, mantém o ar feroz sob a armadura metálica e negra, com os flancos protegidos pelas lâminas afiadas dos dissipadores - um amplificador Krell parece - é - um castelo inexpugnável. E quando a batalha da música começa é fácil perceber que as suas muralhas não se desmoronam como as de Jericó por muito alto que o inimigo grite: os 400W/c declarados dobram na razão inversa da impedância até atingir os 1600W/c sobre 2 ómios, assim a corrente de sector resista a este autêntico sorvedouro de energia. Tratando-se de um amplificador que funciona em Classe A, isso significa que após uma audição puxada seria possível assar sardinhas sobre a grelha superior. É aqui que entra o génio de Dan D'Agostino e um dos factores distintivos que, além da proverbial autoridade, os torna líderes na complexa área da engenharia áudio: «Sustained Plateau Biasing».


Um amplificador de Classe A consome sempre a mesma energia independentemente das necessidades do sinal e dissipa grande parte dela sob a forma de calor. Se fosse possível antecipar as necessidades do sinal criando um patamar sustentado de polarização adequado a cada situação, teríamos as vantagens da Classe A sem os inconvenientes. O «Sustained Plateau Biasing», agora na versão III, baseada no circuito optimizado do inacessível Master Reference Amplifier, é, em termos leigos, a concretização dessa impossibilidade técnica. E se assim não dá para assar sardinhas, dá e bem para aquecer o coração.
O segundo factor distintivo, para além do balanceamento integral (circuitos simétricos independentes para cada canal) da entrada até à saída, é o sistema CAST, que atinge na Série-X o apogeu, depois de nos modelos anteriores ter deixado críticos como Martin Colloms e Jonathan Scull indecisos quanto à sua superioridade. A verdade é que já ambos deram entretanto o braço a torcer. E aposto no escuro dobrado contra singelo que Martin Colloms desta vez se vai render à tecnologia CAST II, quando testar um dos novos amplificadores Krell.


Com o sistema CAST o som emerge como um feixe de luz de um plano negro: é tudo mais limpo, mais claro, mais transparente, mais detalhado, verdadeiro, natural - numa palavra: mais musical. CAST é assim o interface perfeito: deixa passar a música e as emoções que lhe estão associadas.


Afinal o que é o CAST? Tentemos explicar em termos leigos:


A transferência de sinal entre um preamplificador e um amplificador faz-se sob a forma de tensão. Para garantir o fluxo é necessário que «flua» de uma fonte com impedância baixa para uma carga com impedância alta. O que não tem lógica mesmo para quem não percebe nada de electrónica. Pelo meio está o inefável cabo de ligação que, nestas condições, tem uma influência enorme no resultado final. O CAST, «Current Audio Signal Transmission», transfere corrente, em vez de tensão, de uma impedância alta para uma impedância baixa, retirando o cabo da equação. Como a descer todos os santos ajudam, as subtilezas da música chegam incólumes ao destino sem se perderem nos tortuosos caminhos dos cabos. E tanto faz que tenham dois metros de comprimento como vinte!


Com a nova Série-X aquilo que já era uma evidência para alguns - a superioridade do sistema CAST - passou a ser demasiado óbvia para poder ser escamoteada. E a comparação A/B é dolorosa, em especial para quem gastou uma fortuna em cabos, cujas colorações saltam imediatamente aos ouvidos.


Como se isso não bastasse, Dan D'Agostino conseguiu «sacar» mais 100W de cada modelo FPB anterior, tal como se aumentam os cavalos de potência no motor de um carro. E se é preciso ter unhas para os conduzir! Regressei hoje de Frankfurt onde, no decorrer do HighEnd Show (reportagem completa a publicar em Junho), o distribuidor local da Krell provou que «não se devem dar pérolas a porcos»: usou e abusou da força quando a música é fundamentalmente inteligência.


Pela minha parte, com o maravilhoso leitor-CD/pré/processador Krell KPS25c a atacar um FPB 400cx através de cabos CAST e umas Martin-Logan Odyssey na outra ponta de uns cabos Nordost Valhalla, terei obtido o melhor som que alguma vez agraciou estes ouvidos no seu habitat natural. E não me refiro aqui a subtilezas acústicas: dos contrastes dinâmicos à pureza dos timbres; da velocidade de resposta a transitórios ao esmagador poder das massas orquestrais; da precisão cartográfica da imagem estereofónica, que nos permite mergulhar na profundidade do palco sonoro com a segurança de um GPS, à sensação de presença palpável, tangível só possível nos fenómenos paranormais, tudo se conjuga para que o Krell FPB 400cx seja o primeiro grande amplificador estéreo a transístores a justificar a minha nota máxima desde o início de século. Não lhe encontro defeitos a não ser no peso e... no preço - tão elevado que tenho receio de o divulgar antes da aprovação do orçamento rectificativo, sob pena de ser chumbado pela oposição.


Eu sei que só meia-dúzia de pessoas em Portugal podem comprar um amplificador destes (e contudo eles vendem-se bem), mas ir ouvi-lo não custa nada e sempre é uma forma de educar os ouvidos, algo de muito útil quando tiver que escolher um modelo mais adaptado à sua carteira.


Além da Imacústica, no Porto, talvez só a Absolut Sound/Vision, a Digisom e a Viasónica, em Lisboa, estejam aptas a deixá-lo dar uma voltinha em circuito fechado sem se espetar na primeira curva.

Distribuidor: Imacústica