2002

Tivoli One: Um Rádio Com Coração



Em casa de ferreiro o espeto costuma ser de pau. Não é o meu caso: tenho um sistema de som de fazer inveja a um surdo só de o ver. Mas tal como sucede com os automóveis topo de gama, de vez em quando precisa de ir à revisão. E dei comigo sem poder ouvir os meus discos favoritos na glória do som de alta resolução, proporcionado pela amplificação Krell e a transdução electrostática da Martin-Logan, durante uma semana inteira.


Enquanto crítico, bastava-me estalar os dedos para ter a casa cheia de equipamentos de várias categorias e procedências. Mas uma semana não chegava sequer para instalar e afinar um novo sistema de raiz. Além disso, estava a apetecer-me algo...
Tal como os residentes do «Big Brother» e os «Sobreviventes» das ilhas desertas, queria testar os limites da minha capacidade de resistência com o mínimo de meios à minha disposição. Passei a semana inteira a ouvir a Antena 2 num rádio monofónico! E gostei.


Já tinha escrito sobre o Tivoli One no DNA. Mas permitam-me que volte ao assunto, porque esta obra-prima (póstuma seria um termo mais correcto) de Henry Kloss não cessa de me surpreender.


A nossa rádio (e aqui refiro-me de forma generalista às estações emissoras) é histérica: a publicidade assume foros de massacre auditivo e a selecção musical é ditada por modas e consultores económicos americanos e espanhóis (que saudades da «Audiofilia Aguda», na XFM!). Gosto de me sentar na sala sossegado a ler e a ouvir rádio, com um ouvido no burro e outro no cigano. Para isso nada melhor que sintonizar a Antena 2 e deixar andar. Mas os rádios modernos (agora refiro-me aos sintonizadores) são tão digitalmente perfeitos que se esquecem da música, quando não mesmo da estação. E têm todos um som igualmente histérico e um «feeling» pindérico, tipo feira de Carcavelos.


O Tivoli One é uma adorável caixinha de madeira natural, estilo mobiliário escandinavo dos anos sessenta, que tem na frente um painel colorido (azul-cobalto, no meu caso, mas há também em verde, beige e prata) com um altifalante, dois botõezinhos para ligar/desligar e selector de fonte (FM/AM) e um outro enorme para a sintonia manual (!): roda-se o botão, que por sua vez faz girar um disco que nos aponta a frequência seleccionada, enquanto a luz-piloto cor de âmbar se ilumina em pleno indicando que se «apanhou o posto», silenciando o sopro de ruído rosa dos rádios de antigamente: fffff. Parece uma brincadeira mas é um caso sério, juro-vos!A sintonia é de uma precisão tal que nunca há interferência das estações próximas: a tecnologia de recepção é a mesma utilizada nos actuais telemóveis topo de gama, por isso não se deixe enganar pelo aspecto retro do Tivoli One. E nem precisa de antena!(embora se possa montar uma nos casos extremos). Pode levá-lo consigo para todo o lado: a casa de banho, a cozinha, e até a tenda de campismo (entrada 12V). Também tem AM mas esqueça - só em caso de necessidade.


Quando o sinal é de qualidade, o som resultante enche facilmente de música uma sala (apesar dos naturais limites físicos impostos pelo reduzido diâmetro do altifalante) e é doce, cheio, natural, com as vozes masculinas a soarem encorpadas no limite do «dó de peito». O acoplamento acústico do pórtico «reflex» (aberto por baixo) é notável. Mesmo assim, opte por um espaço aberto em lugar de o colocar numa estante ou armário para evitar o efeito de caixa. Um circuito de igualização interna impede que os tenores soem como barítonos. A presença dos locutores (soam sempre mais alto que a música) é tão real que chega a assustar quando estamos embrenhados na leitura. Mas o que me surpreendeu mais foi a sensualidade nas vozes femininas (vozes roliças de madonas renascentistas), e a carga emocional, tanto no discurso como na música (ah, os pianos!), que o altifalante único transmite ao ouvinte (a ausência do sinal estéreo é aqui uma benção).


Passei muitas horas da minha adolescência a ouvir o «Em Órbita» e a «23ª Hora» num rádio a pilhas, com o auscultador espetado no ouvido. Se ao menos tivesse um Tivoli One. Mas quem vê caras não vê corações: este rádio com cara de anos sessenta utiliza tecnologia do século XXI, e é a herança deixada pelo americano Henry Kloss para as gerações vindouras. Se bem se lembram, Kloss era um dos projectistas da AR, Acoustic Research.


O Tivoli One é um sonho de adolescência tornado realidade. Um «rádio» que deixa passar a música e a emoção, numa altura, hélas, em que a rádio já não se faz com o coração...


Distribuidor: Esotérico