2001

Tag Mclaren: Afrodite, Deusa Do Amor



O design coloca o Music System AvantGarde Aphrodite ao largo do mar-chão de negra uniformidade caixotal que caracteriza a produção asiática (e aqui já incluo algumas marcas europeias que só o são de nome: de facto, têm origem em Taiwan). Há uma nítida associação mental induzida voluntariamente pelo fabricante entre indústria automóvel e indústria áudio. Nem seria de esperar outra coisa de um produto com origem na mesma escuderia que produz o McLaren F1 «Road-Car». O «capot» da Aphrodite tem linhas redondas (arestas boleadas) mas aerodinâmicas, com a frente rebaixada; a pintura metalizada a duas cores: cor base cinza e cor personalizada (a Delaudio enviou-me um modelo em Antracite perolizado, em detrimento do mais chamativo «Electric Blue». Pode optar ainda pelo «Silver». E, pagando um pouco mais (50 contos), pelo Turquoise, Wine, Berry, Royal Blue, etc.; até o pára-brisas, que nos permite observar o curioso afã rotacional do disco na sua câmara de tortura, tudo se associa na nossa mente a um carro desportivo de luxo.
A Aphrodite tem aquele ar sólido de coisa boa e os acabamentos são requintados até no mais ínfimo pormenor, incluindo a qualidade dos terminais dos cabos de coluna (só aceitam forquilhas? não: desaparafuse os bornes e pode utilizar bananas), com um duplo anel de borracha para os dedos não escorregarem quando se aperta...


A ergonomia é (quase) perfeita: eu teria preferido que os botões Play e Stop tivessem tamanho ou cor diferente, mas a estética impôs também aqui a sua lei Logo que se entra/sai do modo standby (basta tocar num botão), somos brindados no mostrador pela identificação do fabricante e as tradicionais saudações «welcome/good-bye» (um compromisso muito nipónico para tentar agradar a todas as faixas etárias e estratos socioeconómicos e, em especial, à sensibilidade estética e pragmatismo femininos. É verdade que qualquer sistemazeco de ascendência asiática faz o mesmo. Só não o faz com de forma tão aristocrática. Activados os circuitos eléctricos, o botão de volume sai então do seu estado de letargia e coloca-se em posição de arranque, elevando-se um pouco, com um sorriso luminoso de azul intenso. A partir daí, a aceleração depende de si: passando da posição «11 horas» o ganho é um pouco brusco (o que se estranha tratando-se de um controlo de volume analógico com processamento digital). A não ser que se pretenda dar também aqui a ideia de que o «turbo» entrou em acção?...


A tampa transparente abre-se deslizando suavemente como a carlinga de um avião de caça, primeiro de forma decidida, depois num movimento mais lento e cauteloso no último terço do percurso, para receber o disco sobre o qual se coloca um estabilizador.


A TAGMcLaren não parece ter tido quaisquer preconceitos ou pruridos audiófilos e resolveu incluir neste modelo tudo o que pudesse contribuir para o tornar mais atractivo e funcional, contrariando a ideia, muito em voga nos anos oitenta (quando a simples menção de um controlo remoto soava a heresia e traição à causa), de que os audiófilos são masoquistas que gostam de sofrer. Por exemplo, com a bela Aphrodite posta em repouso, o mostrador indica-nos serenamente a data e as horas. Quando cumpre a mais nobre função radiofónica, o mostrador anima-se com a identificação das frequências das diferentes estações de rádio.
O controlo remoto é outro modelo de design, com um suporte que o mantém elevado sobre a mesa, à mão-de-pegar, embora as linhas direitas contrastem com as formas redondas e sensuais do aparelho que comanda.


Apetece acariciar a pintura passando sobre ela a mão espalmada, sentir com os dedos a sensualidade aerodinâmica do design e a pele acetinada, como se faz a um automóvel novo que se acabou de comprar. O desejo de «tocar» Aphrodite - e de a «pôr a tocar» - é compulsivo. A pintura é resistente, e as impressões digitais (de dedo) limpam-se com facilidade. Aliás, mal se vêem, tal como o pó acumulado, embora a tentação de ir buscar a cera do automóvel para lhe puxar o lustro seja grande. Tenho um amigo que passa a vida a encerar o carro. O que não faria ele a Aphrodite?


O desejo de posse só tem paralelo no orgulho de a possuir. Todas as pessoas, sem excepção, a quem a mostrei/demonstrei ficaram encantadas, em especial os mais jovens. O problema é saber onde irão eles buscar uma milena para a comprar. Ou, como diria, Daniel Sampaio: novos pais, precisam-se. De preferência com dinheiro, digo eu.


Aphrodite AvantGarde, da Tag McLaren Audio, o melhor e o mais bonito «Music System» do mercado mundial tem no ventre o «miolo electrónico» de três componentes de eleição: o pré-amplificador digital (e o respectivo circuito de conversão D/A AK4393 96kHz, 24 bit, 128-times oversampling) utilizado nos modelos AV32R e DPA32RDAB ), o sintonizador T32R e o amplificador 60iRv, com alguns refinamentos concebidos durante o desenvolvimento do amplificador multicanal 100x5R. Apenas no leitor-CD, ou melhor, no transporte digital, se optou por um mecanismo Sony OEM em detrimento do Philips CDM12 utilizado no CDT20R-T2L. O prato em alumínio rígido garante uma maior estabilidade do mecanismo rotativo, e a TAGMcLaren considera que a sua performance é superior à do 20R (o mecanismo Philips revelou-se, contudo, mais apto que o Sony para ultrapassar os obstáculos digitais do disco-teste da Pièrre Vérany).


O som do conjunto não é igual à soma das partes - é melhor. Sobre as «partes» escrevi (in DNA184): «A orquestra da TAGMcLaren Audio tocou afinada, e eu não aconselho a separar os músicos. Quando se atinge este nível de execução técnica, a coesão do conjunto deve ser preservada a todo o custo». Que melhor forma de preservar esta coesão que colocá-los todos dentro da mesma caixa? Ainda por cima, uma caixa que é um verdadeiro guarda-jóias-sonoras com um design moderno e funcional. Separadamente, cada um dos componentes que estão na génese da bela Aphrodite são solistas virtuosos que fazem jus aos melhores sistemas de som (digital out/ preamp out). Em conjunto, este é o melhor «Quarteto musical» que o dinheiro pode comprar. Aphrodite soou-me mais redonda e robusta que o 60iRv que lhe serve de coração. Talvez porque John Mulcahy, o engenheiro responsável pelo projecto, tenha pretendido adequar as linhas do som às linhas do modelo: 'We were determined to show that we could match Aphrodite's superb looks with equally superb sound quality», confessa Mulcahy no press-release.


Parece que conseguiu os seus intentos. Mas não deixe de ir ouvir este notável produto da escuderia McLaren. Quer com as suas próprias colunas de som, quer com as adoráveis Calliope que lhe servem de suporte acústico e são imprescindíveis se a sua motivação no acto de compra de um Music System AvantGarde Aphrodite for fundamentalmente estética. Este é um dos poucos casos em que não se é levado ao engano apenas por uns lindos olhos: Aphrodite soa como parece - maravilhosa e doce, com a musicalidade intrínseca que só a deusa do amor poder ter.


Distribuidor: Delaudio


Fabricante: TAGMcLaren